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quarta-feira, 26 de maio de 2010

O desafio real


"O rapaz tinha uma altivez atrevida no olhar e parecia apenas aguardar o momento certo para demonstrar toda sua capacidade. Ninguém, entretanto, conhecia-o por aquelas bandas, mas as cicatrizes, expostas pelo seu corpo como medalhas, serviam de base para os mais diversos comentários a respeito de seu desempenho. E mesmo observando os melhores, ele permanecia ali, calado, impassível. Como seu comportamento era, de fato, algo intimidador, alguns logo começaram a apostar que suas habilidades poderiam superar às dos competidores ali presentes. Assim, sua presença passou de absolutamente anônima para amplamente percebida, gerando boa parte do burburinho local.

Mas ausentes aos comentários, as provas evoluíam mais ou menos como nos anos anteriores. Vez ou outra um competidor que ficara em segundo lugar na competição anterior tomava para si a primeira posição. Mas os concorrentes de elite eram, basicamente, sempre os mesmos. E isto, não era por acaso, afinal treinavam exaustivamente durante todo o intervalo entre os torneios para poder vencer o encontro anual; era o único prêmio que interessava depois de tanto esforço. No final, com poucas novidades na classificação geral, o primeiro lugar da competição anterior acabou por se sagrar bicampeão.

Descendo do pódio, o vencedor caminhou até o rapaz que a tudo observava do alto de sua indiferença e o encarou. Tendo ouvido os comentários entre os espectadores, não pensou duas vezes antes de o desafiar fora da competição. O rapaz sorriu furtivamente e não titubeou em aceitar o desafio. Ambos abriram caminho entre a turba que se formava e se dirigiram ao local do confronto. A expectativa explodiu em gritaria geral, divididas entre as torcidas pró e contra o recém-sagrado campeão. E quando, finalmente, tomaram suas respectivas posições, uma apreensão geral silenciou a todos enquanto aguardavam o início do embate final.

No primeiro movimento, o misterioso rapaz escorrega sozinho e desaba no chão. Não conseguiu mais se levantar."



segunda-feira, 26 de abril de 2010

Para transitar melhor...


Em São Paulo, dois dias na semana parecem ser especiais para se falar de trânsito: segunda e sexta-feira. Se bem que, para quem reside na capital paulista, congestionamento é um assunto um tanto redundante. Assim, deixemos o insolúvel problema do tráfego para falar sobre outras curiosidades do trânsito caótico da cidade, apesar da inspiradora segunda-feira.

Há algumas regras de direção que parecem não ser bem explicadas durante as aulas necessárias à obtenção de licença para dirigir. Umas são bastante sutis, outras, nem tanto. Decerto, há quem as desrespeite deliberadamente, entretanto, neste caso, não há muito o que se fazer. Mas, nos demais casos, quem sabe o mero relembrar das boas práticas em algum recanto perdido na internet — como este — ajude divulgá-las, aumentando a boa convivência no trânsito paulistano...

A primeira já quase não é mais uma regra, afinal, não há notícias de punições à quem a desrespeite. De qualquer forma, o bom senso, simplesmente, já deveria ser o suficiente para que fosse cumprida. A pista da esquerda, especialmente em uma via expressa, serve à ultrapassagem. Logo, deve ser deixada a pista da esquerda livre à quem vem detrás em velocidade para que a ultrapassagem possa ser feita com segurança. O fato de já se estar à velocidade máxima permitida na via não habilita ninguém a se manter bloqueando a pista da esquerda para possíveis infratores de velocidade — roubar o ladrão também é crime.

A segunda se refere à preferencial que é de quem já está na rotatória, exceto quando expressamente sinalizado do contrário. Simples, não? Mas muito pouca gente parece entender isso. Independentemente do fluxo de cada via, quando há uma rotatória no cruzamento, tem preferência aqueles já estão na rotatória. Repetindo: a preferencial é sempre de quem já está na rotatória, exceto quando o contrário estiver sinalizado. Deixar a área da rotatória livre é uma dedução, também, bastante lógica. E se não estiver acreditando neste autor, há uma animação educativa na página da Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo (CET-SP).

A terceira, também, não é uma regra. Aliás, nem de bom senso poderia ser chamada de tão óbvia. Ao fazer uma conversão — como um retorno, por exemplo — em qualquer via, havendo uma faixa exclusiva para conversão, não há a necessidade de esperar o fluxo parar para realizá-la. Isto porque, sendo exclusiva à conversão, ninguém no fluxo original da via acessada está autorizado a usá-la. Logo, basta uma rápida verificação para ver se não vem algum alucinado — há sempre que se considerar esta possibilidade — e a passagem está livre.

Nem é preciso mencionar outras como aguardar que o pedestre atravesse na faixa de segurança — mesmo sem o semáforo —, dar passagem quando alguém sinaliza, nunca parar em vias movimentadas, etc. Mas deixemos os tópicos para alguma outra segunda ou sexta-feira infernais...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O Bêbado


"E o bêbado continuava lá a alegar que todo mundo ria dos tombos dele, mas ninguém via as pingas que ele tomava. Os sóbrios gargalhavam de perder o fôlego e os demais, ainda que sorridentes, prestavam pouca atenção ao discurso etílico do colega.

Em um dado momento, alguém arriscou perguntando ao bêbado o porquê dele estar dizendo aquilo para uma platéia tão pouco amistosa. Ele tomou mais um gole do que estava no copo, soluçou e disse que era exatamente porque a platéia não era amistosa. Disse, também, que eles precisavam ouvir umas coisas e que lamentava o fato da sobriedade de alguns embriagar mais do que o álcool que ele ingeria. Emendou, ainda, dizendo que ele próprio se curaria depois de uma noite de sono, mas que não seria assim tão fácil com a maioria ali. Muitos voltaram a rir.

O mesmo que perguntara da primeira vez, tornou a se dirigir ao ébrio cidadão, dizendo que ele tinha bebido demais, que já não articulava coisa com coisa e que era melhor ele ir para casa. O bêbado, entretanto, encarou-o com um olhar cambaleante, mas sério, e disse que aquilo vinha se tornando cada vez mais comum. Que as pessoas só olhavam para a quedas dos outros e riam e ninguém questionava nada ou mesmo ofereciam ajuda. Que apenas riam, nada mais. Menos gente riu, dessa vez...

O bêbado tomou o último gole e ficou por uns segundos beijando a borda do copo como que para não desperdiçar nem uma gota sequer. Largou-o no balcão, meneou com a cabeça olhando para o dono do bar que o respondeu com gesto similar e olhou com uma espécie de desprezo para os que ainda riam olhando para ele. Encaminhou-se lenta e erraticamente para a saída, mas ao tentar descer o degrau, esborrachou-se no chão.



E todo mundo gargalhou de novo."

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Absurdos da Lógica Humana...


Conversando com um cientista da computação, fiquei sabendo que um dos grandes entraves em se aumentar a segurança do sistema operacional Windows é o fato de seus usuários, geralmente, trabalharem com privilégios de administrador. Afinal, quem aí, no seu próprio computador, criou um outro usuário mais restrito para usá-lo no dia-a-dia? Sem privilégios de administração, um programa malicioso, ou virus, na maioria das vezes, não consegue infectar a máquina. Assim, tentando resolver o problema, a Microsoft lançou o Windows Vista configurado, por padrão, de forma a solicitar do usuário uma confirmação, toda vez que um programa tentasse acessar algo, necessitando desses privilégios. Resultado: além do fiasco comercial — a robustez do programa o deixava "pesado" demais —, os usuários acabavam desabilitando a tal confirmação, uma vez que ficava inviável trabalhar tendo de interferir a cada operação que um programa precisasse fazer.

Analogamente, ficaríamos loucos se tivéssemos que checar a veracidade, ou autenticidade, de cada informação recebida a todo momento. Aliás, pode-se dizer que, nos dias de hoje, isto é humanamente impossível, dado o volume de informação a que, frequentemente, temos acesso.

Ao ler uma notícia¹ do tipo: "Estudos indicam que o consumo excessivo de lanches rápidos — como hambúrguer, fritas e refrigerante — prejudicam o desempenho escolar.", qualquer um acaba tendo de usar seus próprios critérios para levar, ou não, a informação a sério. Dependendo, talvez, da credibilidade da agência de notícia ou da coerência, segundo seus prévios conhecimentos sobre o assunto, você decidirá se vai acreditar, ou não, no fato comunicado. A não ser que você seja absolutamente neurótico, ou neurótica, raramente irá atrás das referências para confirmar a veracidade de cada nova informação recebida — uma ou outra, talvez, dependendo do seu interesse e/ou ceticismo na ocasião. E mesmo que se dispusesse a fazer isto, é quase certo que não poderia repetir o experimento, por si mesmo, para ter certeza sobre os resultados fornecidos. Portanto, acreditamos na informação, ou nas "evidências" dela, tal como um umbandista acredita na Pombajira — claro, baseados em coisas diferentes, mas exatamente da mesma forma e com a mesma validade!

Não bastasse essa incerteza desesperadora a respeito de fatos fora de nosso alcance, ainda há a imprecisão inerente à própria informação, principalmente no que se refere aos seres humanos. Tomemos, como exemplo, algo terrível como o câncer. Você é a favor do câncer? Não, acho que não... Eu também não. Creio que todos sejam contra a doença! Mas, digamos que, hipotética, porém, conservativamente, apenas 95% das pessoas no Brasil sejam, declaradamente, contra o câncer. Muito bem... Agora, responda, dentre seus conhecidos, qual é o percentual deles que adota hábitos saudáveis e faz um acompanhamento periódico para, na eventualidade da doença surgir, poder tratá-la logo no início? Será que, pelo menos, o percentual de fumantes que você conhece é menor que 5%?

E pensar que nos consideramos seres lógicos... Que dr. Spock não nos ouça!


¹ Aparentemente, a informação confere. Veja em: My Overweight Child e no Medical Center's Weekly Newspaper da Vanderbilt University, Nashville, TN, EUA.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Procrastinação


Por acaso você se lembra de alguma decisão que tenha deixado para tomar depois? Ou mesmo de uma tarefa que, apesar de essencial, tenha sido adiada por muito tempo? A esta atitude é dado o nome de procrastinação. A palavra vem do latim (pro = à frente; crastinus = de amanhã) e se refere ao adiamento de uma ação necessária.

Há quem procrastine de forma crônica, deixando tudo para depois — ou para última hora —, desde as decisões mais complexas até as tarefas mais simples de seu cotidiano. O resultado é previsível: caos, fracasso, estagnação, angústia, etc.

A procrastinação é, erroneamente, associada à preguiça, estando muito mais relacionada à uma espécie de fuga da realidade do que àquele pecado capital. Não tomar uma decisão, por exemplo, é uma tentativa inconsciente de evitar assumir a responsabilidade pelos fatos dela decorrentes. Da mesma forma, ao não realizar uma determinada tarefa, o indivíduo se permite continuar na eterna ilusão de que, se realmente quisesse, teria sido capaz de realizá-la da forma e no tempo que desejasse.

Em geral, o procrastinador, ou procrastinadora, sofre bastante com os resultados de sua protelação, já que, sem as ações necessárias, os resultados desejados nunca aparecem. Isto não significa, obviamente, que a pessoa seja masoquista, apenas que, psicologicamente, ainda é mais fácil aceitar o insucesso causado por fatores externos do que pelas próprias limitações. Afinal, a realização de algo implica, necessariamente, na constatação dos fatos gerados pela ação, o que não ocorre no mundo-das-hipóteses.

Tome, como exemplo, um estudante que acredita ser mais inteligente do que a média. Ora, neste caso, fazendo menos esforço que os demais, suas notas devem ficar acima da média. O fato disto não acontecer é, entretanto, uma evidência clara de que ele não é tão inteligente quanto se achava. Logo, a fim de evitar tal constatação, adota uma atitude relapsa e, quando chegam as notas baixas, ou apenas na média, justifica-as como fruto de sua negligência (extrínseca), nunca de sua capacidade (intrínseca). Assim, para si mesmo, continua sendo mais inteligente que a média, pois, se tivesse adotado uma atitude mais diligentes, os resultados teriam sido muito melhores.

Apesar de extremamente difícil, a solução do problema é, relativamente, simples. Bastaria a mera "calibração" da auto-imagem com a realidade — ou resultados obtidos. Isto, entretanto, demanda um nível de humildade que muito poucos seres humanos manifestam. Nós, meros mortais, temos de nos contentar em aplicar pequenos macetes para contornar o problema, tal como reduzir o que deve ser feito a uma série de tarefas tão curtas que se tornem, racionalmente, impossíveis de não serem concluídas em tempo hábil e completá-las, quanto antes, mesmo que isto seja conduzido mecanicamente no início.

Por fim, apesar de tantas outras coisas que poderiam ser ditas com relação a este tópico, é importante, também, não mais procrastinar o término desta postagem. Não acha?!



sábado, 28 de novembro de 2009

Herói


"Lá, caído, parecia não querer acreditar que havia sucumbido novamente. Sentia-se já sem forças, humilhado, deprimido e sem esperanças. Pensava, dessa vez, ter mapeado todas as possibilidades, considerado adequadamente os riscos e adotado a melhor estratégia, mas estava errado mais uma vez.

Pensou no fim e nem poderia pensar em algo diferente. Desistir, naquele momento, era, sem dúvida, a alternativa mais sensata, depois de tudo que passara. Mas antes era preciso convencer a própria consciência, a única coisa em si que se recusava a aceitar passivamente aquela situação.

Reuniu forças e moveu o rosto em direção ao céu. Estava escuro, sem estrelas ou luar, nem parecia ter aberto os olhos. O desânimo e o cansaço se misturavam às dores por todo o corpo e não quis mover mais nada. Seu desejo era de que alguém desse um término para tudo aquilo, ali mesmo e naquele momento. Bastava de dor, frustração, humilhação e sofrimento. Queria o paraíso, se houvesse algum, ou apenas o silêncio do fim, mais nada...

Lembrou-se vagamente de uma conversa que teve momentos antes de sua derradeira queda e se revoltou. Como alguém lhe poderia considerar como herói de alguma espécie, colecionando aquele sem número de derrotas, uma após a outra? Lamentou-se mais uma vez e cerrou os olhos de novo.

Ocorreu-lhe, então, que não dariam a ele o fim que desejava e que portanto teria apenas duas opções: permanecer ali ou levantar-se mais uma vez. Respirou fundo, fingiu não sentir todas as dores que sentia, buscou forças de onde achava que não tinha e se levantou só por mais esta vez.

Sacudiu a poeira, olhou para a frente e continuou a caminhar..."


quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ommmmmm...


Ontem o Palmeiras, praticamente, deu adeus às chances de vencer o campeonato brasileiro. O problema é que um dos principais motivos não foi a mera falta de "futebol", mas uma cena de violência gratuita entre dois de seus próprios jogadores. Uma pergunta interessante a se fazer é: alguém duvida de que ambos tinham exatamente o mesmo objetivo, o de ganhar o jogo? Entretanto, mesmo com objetivos iguais, o resultado foi o que se viu: duas expulsões, a derrota de toda a equipe e milhares de torcedores descontentes.

Com exceção de casos clínicos, o que geralmente leva duas pessoas a entrarem em conflito direto é a falta de compreensão de um com relação ao outro. Isto porque ambos acham que estão com a razão ou, simplesmente, não agiriam da forma como agem ou pensariam da forma como pensam. Mesmo um criminoso acredita, na sua lógica distorcida, que está agindo corretamente (entenda-se "corretamente" como "justificável" ou "melhor alternativa disponível")! E, assim, como o compartilhamento de ideias tem de passar, necessariamente, pelo filtro da linguagem, a probabilidade de haver desentendimentos é bastante considerável.

Parece ser razoável afirmar, portanto, que o desentendimento, a divergência e o conflito de idéias são inevitáveis nas nossas relações. Pouco ou quase nada se pode fazer para evitá-los. Entretanto, a atitude agressiva frente a este tipo de situação, esta, sim, pode e deve ser sempre evitada. O problema é que, para isto, a pessoa tem de ser capaz de dominar suas próprias emoções, o que quase nunca é uma coisa fácil de fazer.

Um bom começo para se evitar os rompantes e suas trágicas consequências é uma espécie de condicionamento comportamental, comum na psicologia, que, como o próprio nome diz, condiciona a pessoa a tomar determinadas atitudes antes que a "explosão" ocorra. Outra forma é pelo auto-conhecimento, já que conhecendo seus próprios limites, a pessoa passa a identificar, em si mesma, sinais que antecipam a perda do controle, abrindo a possibilidade de deixar a situação antes dela degringolar.

Mas a vantagem do auto-conhecimento em relação ao condicionamento é que o primeiro, além de produzir resultados perenes, melhora constantemente a compreensão de si mesmo e, consequentemente, da realidade a sua volta. Paralelamente, cresce também a tolerância consigo e com o outro, gerando condições mais propícias ao entendimento e menos às agressões física ou verbal. A desvantagem é que os resultados vêm, geralmente, apenas em longo prazo.

Para os místicos, há também um mantra que ajuda muito quando entoado antes de um potencial desentendimento: "Eu quero estar certo ou ser feliz?".