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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Data venia


Qualquer cidadão ético, minimamente instruído, jamais compraria um número de sua própria rifa. E mesmo se fosse obrigado a fazê-lo, como no caso de não ter conseguido vender todos os números, tomaria uma série de precauções para garantir que o máximo possível de pessoas, especialmente de compradores com quem não mantém uma relação mais próxima, pudesse acompanhar o registro dos números faltantes e a apuração do resultado final. Faria tudo isto para garantir, de todas as formas possíveis, a lisura e a transparência do processo. Qualquer cidadão ético, minimamente instruído, sabe que, mesmo estando, ele próprio, absolutamente ciente da própria honestidade, quando há outras pessoas envolvidas, deve, além de possuir, também demonstrar sua retidão aos demais. Sabe que qualquer ato pouco transparente, ainda que involuntário, pode levantar suspeitas sobre suas intenções. Algumas instituições públicas no Brasil, entretanto, parecem não entender muito bem este princípio.

Pelo mesmo motivo do cidadão acima descrito, qualquer empresa privada, ao realizar uma promoção comercial, costuma estabelecer como regra precípua que nem seus funcionários, nem membros das partes organizadoras, participem do processo. Já em algumas instituições públicas, até hoje se mantêm o péssimo costume de — como se diz por aí — "colocar raposas para tomar conta dos galinheiros". Ao "sumir algumas galinhas", os responsáveis pela incompreensível situação ainda se indignam por terem a licitude de suas ações questionadas por um ou outro desavisado observador. Sabe-se que a grande maioria dos concursos públicos no Brasil são absolutamente lícitos e a transparência de seus procedimentos não deixam espaço para quaisquer questionamentos. Há outros, entretanto, que, quando não são alvos de fraudes declaradas, testam todos os limites das leis e normas existentes para, entre elas, encontrar formas de, digamos, flexibilizá-las.

Em meados de julho, a Polícia Federal indiciou 80 suspeitos por fraudar concursos públicos, entre eles, segundo a Folha de São Paulo de 16/07/2010, a segunda fase do exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em março deste ano, a prova para agente de Polícia Federal de 2009 e o concurso de auditor da Receita Federal de 1994. Neste ano, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG) vem tentando explicar ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) as razões de uma série de procedimentos deliberados pela instituição que acabaram culminando no pedido de impugnação do último concurso para magistrados substitutos no qual pouco mais de 20% dos aprovados foram confirmados, pelo próprio TJ-MG, como sendo familiares dos magistrados — inclusive do presidente da casa — e de demais membros do tribunal. Há alguns anos atrás, fortes rumores davam conta de que uma autarquia paulista teria aberto concurso público para, veladamente, regularizar a situação de alguns se seus trabalhadores mas, a falta de provas por parte dos candidatos e a nenhuma vontade dos orgãos competentes de investigar o certame, enterraram as eventuais irregularidades.

Com tudo isso, talvez fosse válido mencionar que o simples questionamento fundamentado de um concurso público é, data venia (como diriam os juristas), mais do que o suficiente para evidenciar que, no mínimo, não houve, por parte da organização, a transparência necessária.


quinta-feira, 29 de julho de 2010

Torcida pela falta de inteligência


"O difícil é você se livrar dos idiotas que pretendem lutar ao seu lado interpretando a sua negação da cultura dominante como uma afirmação de louvor à ignorância."

Millôr Fernandes

Não é muito difícil de imaginar o que Millôr deve ter ouvido antes de escrever uma frase dessas; provavelmente, muita baboseira. Interpretações equivocadas de pensamentos alheios é uma constante na vida de muita gente, especialmente de quem escreve, já que não há muito como desdizer, posteriormente, aquilo que foi registrado. Seja por uma limitação de inteligência de quem interpreta ou pela inabilidade de expressão de quem formula o conceito, a verdade é que coisas absurdas podem emergir desse processo. E talvez por isso seja tão admirável aqueles que expõem, sem rodeios, seus pensamentos e opiniões, ostentando invejáveis coragem e disposição para enfrentar a barbárie de compreensões erradas que surgirão.

Somam-se a isso, também, dois outros problemas muito comuns: a necessidade de outras pessoas que compartilhem da mesma ideia e a intencionalidade de certos "equívocos" interpretativos. O primeiro, também considerado na citação de Millôr, advém do fato de vivermos em sociedade e, consequentemente, da necessidade de uma "massa crítica" de "seguidores" para que determinados conceitos se concretizem — como disse Raul Seixas em seu Prelúdio, "um sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade". Já o segundo — o mais grave — aparece quando alguém, que deseja algo contrário ou que não deseja, simplesmente, que uma determinada ideia se concretize, lança mão de artifícios vários para induzir outras pessoas ao erro — como quando Odorico Paraguaçu, em O Bem-amado, pergunta, para a pessoa que o questiona sobre o desvio de verbas públicas para a própria campanha, se ele é contra a democracia.

A pior situação é, sem dúvidas, a última, já que o resultado final é sempre o prejuízo, tanto do autor de um determinado pensamento (o foco da deturpação) quanto das outras pessoas que poderiam dele se beneficiar. Serão, certamente, muitíssimos os exemplos desse tipo de conduta nos próximos meses de campanha eleitoral. Os mesmos candidatos terão, sempre, duas imagens absolutamente distintas: a de seus apoiadores e a de seus adversários. As ideias, também, exatamente as mesmas, serão apontadas como geniais por uns e criminosas por outros. E, assim, não cessarão as interpretações equivocadas até o final.

Pode até parecer estranho afirmar tal coisa, mas talvez o mundo fosse melhor se as distorções decorressem apenas da inteligência limitada...


terça-feira, 20 de julho de 2010

Progressos Éticos


No início de maio, 09/05/2010, a Folha de São Paulo reportou uma questão ética muito interessante envolvendo o povo ianomâmi e os "homens brancos". Segundo o jornal, o governo brasileiro vem tentando reaver amostras congeladas de sangue ianomâmi de várias instituições dos EUA. Pesquisadores estadunidenses estiveram na selva amazônica na década de 1960, coletando amostras de saliva, fezes, urina e sangue de milhares de índios. O objetivo era proceder com estudos biomédicos naquele país. Teriam, supostamente, conseguido o material por meio de escambo, com bugigangas, sem explicar como tudo seria usado — e, portanto, sem obter o consentimento expresso dos ianomâmis para tal. Anos mais tarde, os indígenas ficariam perplexos ao saberem que o sangue de seus antepassados mortos ainda era guardado em geladeiras. Desde então, lideranças ianomâmis vêm tentando recuperar as amostras para finalizar seus rituais fúnebres.

Recentemente, pressionado pelos índios, o Ministério Público de Roraima iniciou um processo administrativo para que as amostras fossem devolvidas. Das instituições estadunidenses contatadas, cinco universidades confirmaram manter, ainda, o material guardado. Se entregues, as amostras deverão ser inativadas microbiologicamente e retornadas ao seio do povo ianomâmi que tem o costume de queimar seus mortos e misturar suas cinzas à alimentação para que não sobre absolutamente nada dos falecidos — sequer seus nomes voltam a ser mencionados. Segundo sua tradição, não há mais lugar para os mortos entre os vivos. No caso das amostras de sangue, deverão ser jogadas nas águas do rio de onde, segundo a lenda, todo o povo surgiu.

O assunto é bastante polêmico, principalmente entre os cientistas que esperavam poder concluir vários testes com as amostras, desde o mapeamento genético do DNA indígena até a comparação para controle de mutações nas vítimas das bombas atômicas. Mas, além do questionável método empregado para conseguir o material, várias outras questões se colocam na relação entre a ciência e a cultura do povo ianomâmi: o potencial progresso científico pode justificar o desrespeito à vontade soberana de um povo? Caso houvesse alguma descoberta nas células dos ianomâmis que pudesse ser comercialmente explorada, de quem seriam os direitos econômicos da exploração? A crença na ciência tem maior valor que a crença nos mitos da cultura ianomâmi?

Definitivamente, a ética e a discussão de suas fronteiras continuam em franca expansão...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A "justiça econômica"


Após vários dias de trabalho duro, o cidadão se prepara para viajar com a família em um feriado municipal qualquer. Planeja a viagem, reserva a hospedagem e as passagens com antecedência e lista tudo o que vai precisar — afinal, não é sempre que surge uma oportunidade como essa. Entre as diversas atividades que antecedem o evento, entretanto, o pagamento de uma conta com o vencimento exatamente no dia do feriado passa despercebido, ficando no meio de outras que seriam pagas no dia seguinte à volta. Ao retornar, a desagradável surpresa: multa e juros de mora acrescidos ao valor original. Apesar da chateação, nada mais justo, afinal, o valor extra faz parte de um acordo entre a empresa — que não tem culpa da distração de seu cliente — e o consumidor.

Mas noutra ocasião, uma empresa debita um certo valor da conta corrente de um cidadão. Alguns dias depois, durante uma verificação de rotina do seu extrato bancário, o titular percebe o débito indevido e liga para reclamar com a empresa responsável. Após vários minutos do seu tempo, muita paciência e alguns números de protocolo depois, a empresa reconhece o erro e informa que o valor será restituído em alguns dias úteis. Então, após quase quinze dias contados a partir do débito, o valor retorna à conta do cidadão, rigorosamente idêntico ao que lhe fora subtraído de forma indevida.

Injustiças como essa ocorrem inúmeras vezes por dia, com milhões de pessoas e milhares de empresas diferentes, especialmente as de serviço. Na infinita maioria das vezes, o cidadão é lesado e deixa barato, ou melhor, paga para não ter mais um problema para resolver na sua vida. E nessa brincadeira, bilhões de reais são somados de forma absolutamente irregular aos polpudos lucros empresariais. E nenhuma autoridade do país toma qualquer atitude para resolver o problema. Até a Justiça, o último recurso do cidadão, é, quase sempre, ineficiente e omissa. Aliás, atualmente, como é praxe nas empresas campeãs em reclamações, resolve-se, quando muito, somente os problemas registrados nos órgãos competentes, utilizando, assim, o sistema e o dinheiro públicos para benefício do próprio negócio e sem o menor pudor.

Parece que a "justiça econômica" ainda será a mais justa por muito, muito tempo...


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Oráculo Moderno


Se existisse um oráculo verdadeiro que, na maioria dos casos, pudesse dar uma resposta precisa e confiável sobre o futuro de qualquer indivíduo... Se as notícias fornecidas por esse oráculo pudessem se referir à vida ou à morte, sendo que a data desta última, uma vez informada, não tivesse mais como ser adiada... E se, além disso, nesse oráculo e nessas condições, tal informação crucial acerca do futuro estivesse ao seu alcance... Qual seria sua opção: desejaria conhecê-la ou não?

Saber a provável data do próprio fim ou a terrível natureza de um sofrimento à espreita, talvez lhe fosse insuportável e, quiçá, preferisse viver sem essa informação pelo resto da vida. Afinal, de que adiantaria saber que uma síndrome terminal qualquer lhe acometeria dentro em pouco? Sem dispor de uma alternativa plausível que pudesse amenizar o sofrimento ou adiar a data da própria morte, a precisa previsão do oráculo teria muito pouca utilidade prática.

Entretanto, de modo contrário, talvez saber do curto período de vida restante lhe servisse para alterar, drasticamente, toda sua forma de viver. Sua existência, organizada dentro de uma perspectiva mais breve, poderia se tornar muito mais intensa para si e útil para seus entes queridos, compensando, até certo ponto, a infeliz limitação do tempo. Seria possível se preparar para o sofrimento em todos os sentidos, prático e psicológico.

Ou, talvez, estando consumido pelas atrozes dúvidas sobre o próprio destino, fosse melhor colocar logo um término nas desconfianças pelo conhecimento prévio do futuro, fosse ele bom ou mau. Talvez antever um destino trágico não machucasse mais do que conviver com a eterna incerteza. Haveria, ainda, a possibilidade de se livrar definitivamente do sofrimento, como em um passe de mágica, caso a notícia se mostrasse boa.

Eis aí uma questão extremamente pessoal e delicada à qual não há uma resposta correta. Com o estudo cada vez mais avançado do genoma humano, vai aumentando a possibilidade de se prever, com precisão, o desenvolvimento de certas doenças terminais ligadas a genes específicos — não multifatoriais. Por mais curioso que isso possa parecer, o maior desafio dessa empreitada será ético: discernir claramente entre a importância de tais estudos e suas implicações na vida de cada indivíduo. Da mesma forma que não se pode decretar o fim do "oráculo" porque alguém não deseja sua resposta, também não se pode exigir que todos o consultem, simplesmente, porque existe e está disponível.

O assunto poderia render uma tragédia grega em outros tempos...


segunda-feira, 24 de maio de 2010

A pichação da coroa...


Se a rainha não surtou, deve ter chegado bem próximo disso ao ver, estampada nos tabloides, a foto de uma de suas cunhadas flagradas traficando influência. Não obstante o mal-estar real, a verdade é que a ambiciosa duquesa não fez nada muito diferente do que inúmeras pessoas fazem, todo santo dia, em várias partes do mundo. Ela apenas cometera dois erros fatais: cobrou em espécies pelo favor e deixou-se ser pega por um repórter. Mas antes de julgar as asserções anteriores, saiba que não há qualquer intenção de se justificar o ato daquela senhora, mas apenas de chamar a atenção para uma hipocrisia que tem se tornando frequente nesses tempos de farta veiculação informativa.

O mesmo tipo de conduta da nobre representante pode ser encontrada toda vez que uma regra, bem estabelecida e comum a todos, é relativizada por algum plebeu para favorecer outro, simplesmente porque o conhece ou porque deseja a retribuição do "favor" em outra ocasião. Entretanto, este mesmo razoável plebeu é o primeiro a negar a "flexibilização" da mesma regra a um pobre desconhecido cuja situação de exceção assim o requeira. Não apenas isso, usualmente, posta-se sobre um pedestal de incorruptibilidade enquanto traja as vestes da "amizade modelo", concedidas em virtude de valiosos auxílios prestados aos seus mais variados "amigos".

O mercado de influências e privilégios é tão antigo quanto a própria sociedade e está longe de ser uma exclusividade de um único povo ou nação. Também não se restringe a classes sociais nem a níveis culturais. É, aliás, muito provável que esse mal sequer termine algum dia, haja vista que, tratando-se de interações entre seres humanos e não entre sistemas inanimados, sempre deverá existir exceções à regra. Logo, além de leis, para minguar o comércio de privilégios, será necessária uma constante depuração dos princípios pessoais, até o ponto em que todos os indivíduos passem a agir virtuosamente pelo amor à virtude e não pelo medo da punição.

Enquanto isso, muito longe da realeza, nos distantes bairros de São Paulo, exemplos tão similares quanto sutis se expressam nos muros e fachadas da cidade, faturas patentes desse mercado peculiar que se evidenciam pela ausência de marcas — apenas "grafites" mínimos, espécies de assinaturas — ao lado de paredes totalmente pichadas. Provavelmente se questionados, tanto quem executa quanto quem paga por tal "serviço de proteção" lançaria mão de uma infinidade de justificativas em favor das respectivas atitudes. E isto para nem tocar nos exemplos que envolvam autoridades instituídas pelo Estado.

Nada, entretanto, que não pudesse ser ofuscado por um escândalo qualquer na Casa Real...


sexta-feira, 16 de abril de 2010

Ética !Kung


Os !Kung são um pequeno grupo do povo San que vive próximo à fronteira de Botswana e Namíbia, ao norte do deserto de Kalahari no continente africano. Caçadores-coletores, originalmente nômades, os !Kung têm seu modo de vida pesquisado desde a década de 1960, especialmente por pesquisadores da Universidade de Harvard, já que seus hábitos pouco mudaram nos últimos milênios. Atualmente, há pouquíssimos povos na mesma condição ao redor do mundo, limitando os estudos de seus costumes e organização social, bastante relevantes para auxiliar na compreensão da sociedade moderna que se originou, provavelmente, a partir de grupos com padrões de comportamento similares.

No século XIX, os antropólogos ainda encaravam esses grupos com um certo preconceito, considerando-os selvagens e primitivos. A imposição de interpretações sob uma visão ocidental levava a uma série de equívocos quanto aos costumes desses povos, interpretados, geralmente, como gestos desesperados por causa da necessidade. A realidade, entretanto, era diversa e os estudos que se seguiram mostraram que tais sociedades guardavam uma rica cultura e vários conhecimentos perfeitamente adaptados às suas necessidades. No caso dos !Kung, pode-se citar, como exemplo, a constante mudança dos acampamentos para locais mais próximos aos recursos naturais que, longe de ser uma busca aflitiva por alimentos, devia-se a uma mera questão de conveniência que objetivava diminuir o percurso necessário à coleta diária.

Os !Kung apresentam uma rica cultura baseada na oralidade — já que, sendo nômades, não seria viável carregar registros materiais —, são hábeis caçadores — capazes de identificar um animal e suas condições pelo rastro —, naturalistas e botânicos, reconhecendo mais de 200 espécies de plantas, muitas delas comestíveis. Com uma dieta predominantemente vegetal, contendo apenas 30% a 40% de carne, os homens se ocupam da caça e as mulheres da coleta vegetal e do cuidado infantil.

Em "A evolução da humanidade" (São Paulo: Melhoramentos, 1981), Richard E. Leakey apresenta ainda outras interessantes características da ética !Kung. Segundo o autor, não há estocagem de suprimentos visando uma eventual escassez futura. Os recursos são igualmente compartilhados entre os membros do grupo, especialmente a carne, mais rara, que atende a redes de parentesco, alianças e obrigações, muito importantes para a comunidade. Paralelamente à reciprocidade, marco central na conduta da vida social do grupo, o igualitarismo se apresenta em alto grau, de forma a não existir chefes ou líderes. Os eventuais conflitos são rapidamente resolvidos coletivamente, antes que possam ameaçar a harmonia da comunidade. Além de um forte senso de responsabilidade individual para com o grupo, os !Kung ainda guardam alguns rituais usados para desencorajar a arrogância e a vaidade de qualquer membro. Quando um caçador é bem sucedido, por exemplo, este se manifesta de forma a minimizar suas ações e o grupo zomba e atenua seu feito, evitando prestígio ou diferenciação individual devido a talentos pessoais.

Por pressão governamental, alguns grupos passaram a adotar uma vida sedentária, baseada na agricultura e pecuária. Nestes grupos, entretanto, notou-se um aumento populacional, elevação da taxa de natalidade, surgimento de diferentes graus de hierarquização, depreciação do papel feminino no grupo, violência social, acúmulo material, etc., tornando obsoleta a antiga ética !Kung.

Qualquer semelhança com a moderna estrutura social, não será uma mera coincidência...


quarta-feira, 14 de abril de 2010

Informar pra quê?


Em 11 de fevereiro de 2010, a Folha de São Paulo noticiou a posição sobre os organismos geneticamente modificados (OGM ou, popularmente, transgênicos) do presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CNTBio) — o agrônomo Edilson Paiva, escolhido no dia anterior. Segundo ele, favorável à liberação comercial das variedades transgênicas no país, a rotulagem dos alimentos contendo OGMs, por não causarem risco nenhum, seria desnecessária. Paiva, doutor em engenharia genética, foi pesquisador da Embrapa por mais de trinta anos e substituiu Walter Colli, ex-presidente da comissão.

Os defensores dos OGMs são unânimes em garantir a biossegurança desses organismos e apresentam uma extensa lista de vantagens que os tornariam muito mais produtivos e vantajosos. O que ninguém sabe explicar é por que, sendo tão melhores economicamente, há tanta resistência em, simplesmente, identificá-los e proceder com os estudos de longo prazo requeridos pela maior parte dos grupos da sociedade civil contrários à sua liberação indiscriminada. Como já comentado por aqui em "Ética Transgênica", qual seria a justificativa plausível para se esconder dos consumidores o que, de fato, estão comprando?

Segundo a mesma reportagem, Paiva disse ainda, referindo-se aos ativistas ambientais, que "os grupos contrários são muito eficientes em assustar" as pessoas, como se alertas sobre efeitos maléficos à saúde fossem eficazes para impedir a venda de qualquer coisa. Se assim o fosse, o comércio de cigarros já teria se extinguido há tempos no Brasil após a obrigatoriedade da veiculação das fotos e advertências do Ministério da Saúde nas embalagens. A propósito, o leitor, ou a leitora, recorda-se de alguma manifestação de grupos ambientalistas nas fábricas de cigarro?!

Por detrás da resistência em rotular alimentos que contenham OGMs — exigência, inclusive, prevista em lei — esconde-se uma ética mutante sedenta por lucros auferidos pela exploração da ignorância inocente de consumidores. E qualquer tentativa de impedir, formalmente, que se tenha acesso às informações sobre os produtos que adquirimos deve ser ativamente combatida por toda a sociedade, sempre.

Ou, brevemente, salsichas de ratos ou cachorros poderão ser vendidas tranquilamente no varejo sem qualquer aviso na embalagem. Afinal, é tudo carne mesmo...


sábado, 6 de março de 2010

Governança Pública


Quem alguma vez já se aventurou pelo mundo dos concursos públicos, certamente deve ter se deparado com alguma excrescência nos editais com a única intenção, mais ou menos descarada, de burlar as regras do jogo. São inúmeros os casos comprovados de fraude, ou tentativa, além de um sem-número de outros que nunca foram questionados, seja pela mais absoluta descrença do cidadão na Justiça, "ouvidorias" e "corregedorias" por aí, seja pela inabilidade técnica de discernir o que é falcatrua do que é regra, legítima e necessária, para encontrar o melhor servidor para uma determinada função.

E antes que alguém vista a carapuça e saia encolerizado com sua foice a pedir a cabeça deste autor, é fundamental que se diga que, a despeito das aparências, a idoneidade ainda é predominante nos órgãos públicos. Se assim não o fosse, este país já teria soçobrado faz muito tempo. Portanto, àqueles em que a carapuça servir como uma luva, seria mais prudente refletir sobre o assunto sem muito alarde ou correrá um sério risco de ser identificado por seus pares idôneos, ainda em maioria.

Infelizmente, entretanto, parece que a maioria honesta só se manifestam de forma eficaz quando o problema ganha proporções assustadoras na sociedade — e talvez seja este o motivo da descrença generalizada da população. Afinal, se ações eficazes contra a desonestidade só são tomadas quando há algum grande escândalo, o que a reles denúncia de um cidadão poderia mudar na dinâmica vigente?

Mas, voltando aos concursos públicos e deixando de lado os métodos mais descarados que alguns adotam para passar um candidato específico em uma dada vaga — como o de se exigir, em edital, características profissionais absolutamente peculiares, inerentes a uma determinada pessoa —, há de se dizer, uma série de regras normalmente encontradas nos editais são ferramentas que podem, facilmente, ser usadas para se beneficiar "escolhidos". Tome-se como exemplo uma prova oral, etapa absolutamente comum para os concursos da magistratura. Sem critérios claros (matemáticos) e transparentes, verificáveis por qualquer pessoa, qual é a garantia de ausência de uma "subjetividade" voluntária na atribuição das melhores notas? Desconsidere-se, claro, o delicado fato dos julgadores de uma eventual irregularidade pertencerem à mesma classe dos que atribuem as notas.

O prejuízo talvez não seja tão grande quando as vagas disputadas apresentam condições idênticas, uma vez que, havendo mais vagas que "escolhidos", muito provavelmente alguns candidatos "apenas" competentes também entrarão na carreira em igualdade de condições. Quando, no entanto, a classificação final altera as condições da vaga a ser assumida, o prejuízo pode ser incomensurável em caso de má fé. Veja, por exemplo, o caso dos concursos públicos para notários e tabeliões que, no caso do estado de São Paulo, também passam por uma prova oral como fase classificatória. Este concurso é um pouco diferente dos demais porque, na realidade, concorre-se pelo direito de explorar o serviço cartorário de uma determinada comarca, não sendo o poder público que remunera o tabelião, mas os usuários que precisam daquele serviço. Portanto, obviamente, esta remuneração depende da área e zoneamento, quantidade de pessoas e/ou volume de negócios daquela região, podendo variar de poucos (cartórios deficitários) a muitos reais.

Acontece que, no exemplo citado, a classificação final depende do exame oral que pode fazer com que os candidatos melhor qualificados nas provas escritas e objetivas (que por sua natureza possuem critérios claros, definidos e verificáveis até pelo próprio candidato) sejam relegados às últimas colocações a depender da nota dada pela comissão julgadora. Diz uma lenda que, em São Paulo, apenas quem é do estado e/ou protegidos do Poder Judiciário conseguem as primeiras colocações nesses concursos. Claro que isto é só uma lenda... Mas o fato é que a possibilidade de manipulação existe e deveria ser eliminada a qualquer custo, necessidade que pode passar despercebida por quem organiza os concursos públicos. O mesmo Conselho Nacional de Justiça que, de forma exemplar, afastou cerca de 5000 interinos (sem concurso público) dos cartórios, contra a vontade dos respectivos tribunais, pode manter a mesma brecha do exame oral, só que agora em âmbito nacional, ao esforçar-se para uniformizar esses concursos em todo o Brasil (conforme art. 5º da Resolução nº 81 de 9 de junho de 2009).

A maioria dos servidores de conduta ética exemplar não podem se furtar à missão implícita de converter as instituições sob sua responsabilidade em referenciais éticos da sociedade, sob o risco desta se transformar em provedora de maus cidadãos que, vindo a fazer parte dos quadros dessas mesmas instituições, pode destituir a maioria honesta e de bom caráter em um círculo vicioso, péssimo para o futuro de toda a nação.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ética transgênica


O decreto Nº 4.680/03 regulamenta o direito à informação do cidadão, consumidor, sobre a utilização de organismos geneticamente modificados (OGM) — mais conhecidos como transgênicos — na composição de produtos alimentares para consumo humano e animal. Segundo o decreto, qualquer produto que apresente mais de 1% de OGM entre seus ingredientes devem ser adequadamente rotulados de forma que o consumidor possa, no momento da compra, decidir se deseja ou não adquirir o produto.

À despeito da antipatia — não sem razão — dos ambientalistas pelos OGM, uma luta atroz, entre membros da indústria agro-alimentícia e representantes de entidades civis, vem sendo travada há anos nos bastidores dos poderes Legislativo e Executivo. De um lado, um poderoso "lobby" econômico tenta, por todos os meios possíveis, derrubar empecilhos legais à comercialização de seus produtos. De outro, abnegados membros da sociedade, por vezes voluntários, apelam ao bom senso e à humanidade dos políticos que compõem ambas as casas.

Se a questão fosse a proibição total da produção e comercialização de produtos transgênicos, talvez a luta fosse até justificável, mas tentar barrar a exigência da rotulagem de tais produtos, como tentou fazer o "lobby" da indústria, denota, no mínimo, má fé. Senão, qual seria a justificativa para não querer informar o consumidor sobre o que ele realmente está comprando? Para olhos atentos, tal atitude é uma pequena mostra dos escrúpulos de alguns setores empresariais, principalmente quando se trata dos lucros em suas atividades.

Há uma série de boas razões para se tomar o máximo de cuidado com os OGM, não apenas de saúde pública, uma vez que ainda não é seguro afirmar que sua ingestão não traga consequências nocivas para os seres vivos, mas também sociais — uma plantação transgênica, geralmente, inviabiliza a produção tradicional nas adjacências — e ambientais — não se sabe ao certo as interações possíveis de OGM com o meio-ambiente. Por isso, o que vem sendo pedido, incessantemente, por diversos membros da sociedade é, simplesmente, cautela, algo que muitos empresários parecem não estar dispostos a fornecer para não ver seus lucros no mesmo patamar.

Pesquisemos, portanto, formas de manter o DNA da ética vigente, longe do RNA virótico da ganância capitalista...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa...


Você também já deve ter ouvido justificativas de ações equivocadas que se baseiam em absurdos éticos do tipo: "ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão". Antes de mais nada e correndo o risco de ser demasiadamente preciosista, há a necessidade de uma explicação: talvez isto seja algo aceitável em algum outro conjunto de costumes sociais, em algum outro mundo de algum outro universo por aí, mas, na humanidade como a conhecemos hoje, tal afirmação pode, tranquilamente, ser considerada um absurdo ético.

Pois bem, como todo dito popular, esse também reflete um padrão de raciocínio que ainda encontra algum eco na ética das pessoas hoje em dia. E não por acaso, em um momento remoto do passado da civilização, pode-se encontrar pistas se sua origem na instituição da "vingança" como uma forma válida de justiça. Talvez, os primeiros registros que se tem notícia datem de mais de 3700 anos atrás, quando, no Código de Hamurabi, surgiam os primeiros sinais do que viria a ser a Lei de Talião. Segundo esta lei, alguém que infligisse dano a outrem poderia ser punido com o mesmo dano, ou outro similar nas mesmas intensidade e condições — "olho por olho, dente por dente". Com a evolução intelectual, percebeu-se o óbvio: matar o assassino de outrem, por exemplo, não traz a vítima de volta à vida. Logo, outras formas de justiça começaram a ser empregadas para preservar a ordem e o bem-estar coletivo. Entretanto, tal sentimento parece não ter desaparecido por completo da sociedade até hoje.

Justificar uma atitude péssima com outra pior é um costume que já deveria ter sido absolutamente extinto, mas ainda está presente em diversas áreas de nossas vidas. Quando se furta material de escritório da empresa porque se sente explorado, quando se sonega impostos porque o governo não os aplica de forma adequada, quando se prejudica alguém porque foi prejudicado por ela, etc., está-se rebaixando ao mesmo patamar — ou até a um nível inferior — daquele em cujo o mal se estabelecera. E nenhum progresso ou melhoria podem surgir daí, fazendo com que o problema, ao invés de diminuir, apenas aumente, prejudicando a si e aos demais.

Outra coisa — e que nada tem a ver com a primeira — é quando a pessoa, deliberadamente, mobiliza-se por melhores condições de trabalho, quando faz campanha contra um governo corrupto, quando alerta outras pessoas contando sua própria história de prejuízo por causa de alguém, etc. Note que nestes casos, a atitude deixa de ser "vingativa" e passa a ser "inteligente", simplesmente porque gera condições para que o problema não mais se repita, nem consigo mesmo, nem com o próximo.

Mas se você ainda não adota tal atitude, não se desespere. Apesar da ideia ser simples, sua implementação está mesmo longe de ser fácil. Basta, por agora, não confundir uma coisa com outra e o primeiro passo para um futuro melhor já estará dado...


domingo, 31 de janeiro de 2010

Eles sabem o que é melhor para a gente IV


Caso você seja cliente do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco Real ABN AMRO (agora do grupo Santander) e já tenha usado um dos respectivos serviços de "home banking" pela internet, saiba que, provavelmente, já deve ter o "bichinho" rodando, sorrateiramente, no seu computador. Pior ainda, se você, como muitos, utiliza o sistema com privilégios de administrador, TODOS os perfis da sua máquina devem estar comprometidos. O G-Buster Browser Defense instala seus processos diretamente no "winlogon" (o cérebro do Windows), atingindo todos os usuários, independentemente, se acessam, ou não, os serviços bancários.

Bom, até aí, "cada um no seu quadrado": a tal da GAS Tecnologia desenvolveu um programa, usando todos os artifícios possíveis para blindá-lo, e o comercializa, sendo bem remunerada por isso. Não haveria nenhum problema se o usuário, ciente de todas as implicações, tivesse optado por este tipo de proteção no seu computador. O problema, mesmo, é quando instituições da magnitude de um Banco do Brasil se sujeitam a um papelão desses, instalando um programa — mais parecido com um virus — nos computadores de seus clientes e à revelia destes.

Tal atitude, além de absolutamente anti-ética, denota uma irresponsabilidade incrível. Como o usuário comum sequer suspeita de que o programa exista, muito menos de como age, na eventualidade de um problema externo qualquer, o sistema operacional, à mercê do programa, pode ruir, soterrando qualquer possibilidade de recuperação de preciosos dados pessoais. Sem mencionar o tempo totalmente desnecessário que pode ser perdido apenas para se descobrir o que está errado com a máquina. Além do mais, o computador com o tal "programa de segurança" está protegido apenas dos ataques mais comuns, muito distante de evitar os profissionais de invasão — ou, talvez, a GAS devesse vender seus produtos para o Governo Estadunidense que acabou de ter uma série de páginas invadidas por "hackers" brasileiros. Aliás, muito pelo contrário, como se trata de uma tecnologia comum a vários bancos, o "software" abre um perigoso precedente para ter sua segurança quebrada, expondo todos os usuários que o utilizam de uma vez só.

Para quem já está com o problema, pode tentar ligar para o atendimento do banco e exigir que o caso seja resolvido. Mas se quiser se aventurar sozinho, as melhores referências sobre a "peste virtual de segurança" estão em dois "blogs": Insane Bits e Pseudo-random tech thoughts. Não adianta tentar remover o G-Buster Browser Defense com as dicas apresentadas nos respectivos textos porque a GAS já se encarregou de eliminar as "falhas" de seu sistema na última versão. Mas não desanime! Apesar de perigoso e trabalhoso, ainda é possível eliminá-lo do seu micro. Fique ciente que, no caso particular da história, a remoção do emplastro mais recente pôde, também, ser realizada com sucesso, mas não convém publicar o método aqui. Primeiro porque equipamento em questão é bastante peculiar e, segundo, porque a raiva não permite dar a oportunidade à GAS de fechar outra porta.

No final, a conclusão é de que, hoje em dia, vale tudo, pois como diria Maquiavel, "os fins justificam os meios" e pode-se fazer o que bem entender com a privacidade e a liberdade do cidadão, ou da cidadã, desde que seja para "protegê-lo", ou "protegê-la". Afinal de contas, eles sabem o que é melhor para a gente... Nós, não.


sábado, 30 de janeiro de 2010

Eles sabem o que é melhor para a gente III


O nome do emplastro:  G-Buster Browser Defense
O nome dos criadores: GAS Tecnologia
O nome do banco:      Banco do Brasil S/A


Apesar da liguagem figurada, a história contada não é de todo ficção, senão uma dura realidade ética deste país. Tudo começa com uma tela azul (decorrente de um erro fatal de sistema) do Windows XP, logo após uma queda da rede elétrica. A primeira providência foi verificar a integridade dos dados no disco rígido através do "Scandisk" e eis que surge o primeiro sinal de anormalidade: após a verificação, sem acusar qualquer problema no disco, o sistema reinicia com um "erro de hardware desconhecido" ("Unknown hardware error"). Como se tratava de um equipamento já com uns bons anos de uso, o nível de preocupação, naturalmente, começa a aumentar. Na primeira tentativa de restabelecer o sistema, outra tela azul e o desespero já toma providências para que se anote os incompreensíveis códigos de depuração da memória da máquina.

Principia-se, então, uma longa (semanas) e exaustiva investigação das várias estranhezas que o sistema passara a apresentar, cada qual com suas minúcias, requerendo estudos específicos sobre o que e como fazer, tais como o arquivo de paginação que se recusava a ficar com o tamanho especificado, a desinstalação de programas suspeitos de estarem causando o problema, a instalação de outros programas para detecção da falha, etc. Até que, subitamente, durante um dos acompanhamentos da memória, desempenho e processos do computador, algo, até então desconhecido, é notado: um estranho serviço (ou, em linguagem leiga, um programa rodando no sistema operacional) e alguns processos, ligados a ele, que, apesar de transparentes ao usuário, consumiam quase a totalidade dos recursos de processamento nos momentos que precediam a tão apavorante tela azul.

A primeira providência, claro, foi terminar com o serviço, mas logo em seguida, lá estava ele novamente, funcionando firme e forte. A segunda, foi ir até o painel de controle do sistema para remover o programa da máquina. Outra surpresa: ele não aparecia na lista de instalação.

Começava, então, uma segunda jornada, tão custosa e ainda mais dolorosa do que a primeira: descobrir o que era aquilo e como eliminá-lo da máquina. Muitas pesquisas depois, surgem as primeiras pistas: o emplastro, melhor dizendo, o G-Buster Browser Defense é um programa de "proteção" para os navegadores da máquina. Disto decorria uma pergunta natural: como é que ele havia parado lá sem que o administrador de sistema o tivesse instalado? O leitor, provavelmente, já deve ter advinhado a resposta: através de um módulo de segurança do Banco do Brasil.

Aquele programa, furtivo e persistente como um virus, fora instalado sem prévio aviso — a página do banco solicita permissão para instalar o módulo de segurança, dando a entender que se trata de uma simples biblioteca de criptografia, sem qualquer alerta específico sobre o funcionamento ininterrupto de um programa — na máquina de um usuário comum de serviços bancários e sem fornecer qualquer opção de remoção para o dono do microcomputador. Aliás, o pateta do usuário sequer desconfia que exista um "cavalo-de-tróia" ("do bem", segundo alguns!) em sua máquina, rodando incessantemente, embaralhando dados do registro de seu sistema operacional, consumindo recursos preciosos de processamento e enviando informações pela internet, sabe-se lá para quem e para qual finalidade.

Mas, como disse um dos defensores da "inovadora tecnologia" em um comentário deixado em um "blog" que explicava o funcionamento do programa, aquilo serve para proteger as pessoas comuns dos "bandidos" virtuais, deixando subentendido que eles sabem o que é melhor para a gente.


sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Eles sabem o que é melhor para a gente II


Assim que descobre o efeito colateral do emplastro, você tenta retirá-lo, mas ele não sai. Vai, então, até o banheiro e, em frente ao espelho, tenta novamente. Dói à beça, mas o adesivo acaba saindo, junto com a pele do local. Mais aliviado que dolorido, joga tudo fora — enquanto xinga a mãe de quem inventou o tal emplastro — e vai dormir. Só que no dia seguinte, de tão exausto, nem consegue se levantar e quando, instintivamente, põe a mão no ferimento que não parava de arder, descobre, chocado, que o emplastro ainda continuava lá, grudado no mesmo lugar.

Você reúne o que lhe resta de suas forças, corre novamente para a frente do espelho e o arranca, de novo, dessa vez urrando de dor — as cabeças da mãe do criador do emplastro e do gerente do banco já não são mais suficientes para aplacar sua ira. Então, você se arrasta até a cozinha para tomar café, mas logo percebe que o emplastro apareceu grudado no mesmo lugar outra vez! Sem entender nada, corre para acessar o Google e descobrir como se livrar daquele inconveniente. Acha uma porção de coisas, tenta de tudo e, mesmo assim, não consegue se livrar do maldito emplastro — as recomendações que encontrou se tratavam de versões anteriores e o gerente do banco teve o cuidado de lhe entregar a última novidade.

Aquilo se torna uma questão de honra e você começa a pesquisar mais sobre o assunto, tentando absolutamente tudo, tanto o que leu quanto o que não leu. Como resultado, algumas vezes você desmaia e outras acha que morreu definitivamente, e sempre que recobra a consciência, descobre que o emplastro continua no lugar, firme e forte. Você luta, sozinho, bravamente contra aquele abuso, já que seus recursos financeiros já não mais permitem contar com auxílio profissional especializado — como última alternativa, deixa um guru indiano de sobreaviso para transferir sua alma a outro corpo, caso alguma fatalidade irreversível aconteça.

Finalmente, depois de meses, desde que se iniciaram os desagradáveis sintomas, você consegue se livrar da praga definitivamente. Não sem antes fazer coisas inimagináveis com o próprio corpo, coisas que jamais ousaria tentar em situações convencionais. Veio a saber, nesse ínterim, que o maldito emplastro usava uma tecnologia de integração gênica, praticamente impossível de ser dissociada do corpo da pessoa por métodos comuns. O mecanismo, furtivo como um virus, funcionava de forma a se reconstituir, indefinidamente, nem que para isso tivesse de sacrificar o próprio hospedeiro.

E você, então, pensa, por um instante, sobre o que fazer com relação ao banco, ao gerente e aos criadores de tamanha aberração, mas se lembra que a instituição bancária, com seu infinito poderio jurídico, é inatingível pelas leis de seu país e que, da mesma forma, tal proteção da justiça, inevitavelmente, também se estenderia ao gerente do banco e aos criadores do emplastro, haja vista todos estarem legalmente constituídos. Por fim, vislumbra uma certa descrença pela humanidade, conforma-se com sua própria insignificância e decide fazer a única coisa que lhe resta: contar sua história em um "blog" para que outras pessoas também possam ser alertadas.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Eles sabem o que é melhor para a gente I


Um dia você vai ao banco e o gerente, sorridente e afável, pergunta-lhe se você deseja a última novidade em proteção contra bandidos. Sem hesitar, mais do que depressa, você aceita o que lhe oferecem. O homem diz se tratar apenas de um emplastro, muito simples, que deveria ser colado à sua pele. Sem muitas perguntas, já que o banco exigia seu uso para acessar o interior de suas agências, você prende o adesivo em alguma parte escondida do corpo e vai para casa. E eis que, de fato, nenhum mal lhe acomete depois disso, se bem que nunca lhe ocorrera nada assim, afinal você já tomava todas as precauções necessárias para evitar tais dissabores.

Passado algum tempo, você nem se lembra mais que, em um dia, o gerente do banco lhe dera um emplastro para usar. Suas preocupações se voltam para problemas mais imediatos, como uma inusitada sensação de cansaço antes de terminar o dia. Parece que algo vem lhe sugando parte das forças, mas de forma tão sutil que você é incapaz de apontar a causa objetivamente. Começa, então, a tomar vitaminas, fazer exercícios mais regularmente, fazer exames com mais frequência, mas nada aparece como causa daquele incômodo. Sem muitas esperanças de resolver o problema, apela até para o sobrenatural, indo a sessões de descarrego, ouvindo e fazendo as mais diversas simpatias, ao mesmo tempo que aguente os comentários, por vezes irônicos, de familiares, amigos e conhecidos. Entretanto, nada, o esgotamento só aumenta...

Até que, em um final de tarde, alguém lhe dá um esbarrão, ocasionando sua queda e a fratura de seu fêmur. Nada que um bom gesso e uns dias de molho não resolvam. Só que, assim que tira o gesso, escorrega e quebra a tíbia, ficando mais uns dias de cama e gastando o que não recebeu. Logo a tíbia sara, mas ao descer as escadas do hospital, sente uma tontura e despenca lá de cima... À essa altura, você já encomendou a viagem de um padre do Vaticano para vir lhe exorcizar, vem tomando todas as medicações e vitaminas possíveis e tem pesquisado toda a internet em busca de um meio para se transferir para outro corpo.

Já quase sem perspectivas, observa, por mero acaso, algo estranho em suas costas, revelado por uma das ressonâncias magnéticas que fez há pouco. Corre até o espelho para verificar e, pouco abaixo da linha da cintura, redescobre o emplastro esquecido daquele gerente do banco. E, em uma louca associação de ideias, pensa que, talvez, o emplastro pudesse ser o causador de tudo aquilo e corre para o Google para saber se você não pirou de vez. A pesquisa, no entanto, é reveladora: aquele emplastro, para protegê-lo contra assaltos, consume uma pequena parte de sua vitalidade, ininterruptamente.


terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Resmungando...


Tudo bem! Pode até ser implicância, mas que a galera das grandes cidades parece estar muito louca, atualmente, isso parece. Qualquer um que resolva passear por aí pode presenciar uma extensa série de ações absolutamente ilógicas realizadas por algumas pessoas. Se serve de consolo, a falta de lógica — razão, bom senso, educação, etc. — atinge qualquer um, sem distinção de idade, sexo, etnia ou religião.

Observe, por exemplo, alguma das milhares de escadas rolantes espalhadas pela cidade. Já percebeu que inúmeras pessoas simplesmente param no primeiro degrau e esperam, pacientemente, que este as conduza para o outro piso? Não seria exagero arriscar que a condução pela escada rolante é quase um fetiche para alguns. Há quem chegue correndo, esbaforido, trombando com os demais transeuntes, para chegar a uma escada rolante e parar. Pode até reclamar do tempo que leva para um degrau da escada atingir outro andar. Tal fato passaria despercebido se fosse algo exclusivo de senhores e senhoras de idade — ou alguém com alguma limitação física — que não podem dispender o esforço em escadas, entretanto, é incompreensível que isto se passe com crianças, jovens e adultos que, por vezes, gastam pequenas fortunas para malhar todo santo dia em alguma academia da cidade.

E se restar alguma dúvida sobre estar sendo intransigente com relação às escadas, é possível observar o mesmo fenômeno nas suaves rampas rolantes de grandes supermercados. Muitos desses estabelecimentos, inclusive, já desistiram de construir escadas de acesso, disponibilizando apenas rampas, móveis ou não.

Há coisas muito mais bizarras como gente absolutamente saudável usando elevadores exclusivos de deficientes para subir ou descer um único andar! Ou pessoas, também saudáveis, estacionando nas vagas reservadas para idosos e deficientes apenas para não ter de se deslocar cinco ou seis metros a mais. Ou gente acelerando o veículo logo que percebem o sinal do motorista ao lado, pedindo passagem. Ou alguns fumantes reivindicando respeito para poderem desrespeitar quem não compartilha do "suicídio homeopático". Ou gente ouvindo som alto no meio de outras pessoas na rua, no trem, no ônibus... Enfim, a galera parece estar muito louca, mesmo.

Mas, nada é tão surreal quanto ouvir os resmungos dessas mesmas pessoas, ilógicas, reclamando quando alguém tenta passar por elas nas escadas e rampas rolantes, quando se fiscaliza o uso de elevadores apenas por pessoas com deficiência, quando se multa um carro parado em uma vaga reservada para idosos, quando se entra na frente do veículo assim que a seta é ligada, quando se proíbe fumar em locais públicos fechados, quando se multa alguém com o aparelho sonoro no último volume em coletivos...

Tomara que seja só loucura mesmo...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O Bote de Noé


Se a Arca de Noé existiu um dia, ela deve ter sido circular e não com proa e popa como frequentemente é ilustrada até hoje. Pelo menos, esta é a opinião de um especialista em Mesopotâmia Antiga do Museu Britânico de Londres, Irwin Finkel. As informações são da Sphere.com.

Traduzindo um texto com cerca de 60 linhas, em escrita cuneiforme, gravado em uma pequena tabuleta de argila com mais de 3700 anos de idade, Finkel encontrou uma referência à forma circular da arca. Segundo o texto, a embarcação deveria se parecer como uma espécie de bote circular, com lados altos e casco arredondado, feito em fibras de palmeira trançadas e impermeabilizadas com betume. Barcos assim eram usados para transportar pessoas e mercadorias de um lado a outro dos rios Tigre e Eufrates, sendo que, até hoje, eventualmente, ainda são usados naquela região — atualmente o Iraque.

O texto é, provavelmente, uma peça de ficção popular, contado na forma de poema, não sobre Noé, mas sobre um predecessor histórico chamado Atram-Hasi. Na história, um deus babilônico chamado Enki o teria orientado a construir a embarcação e, assim, poder salvar sua vida, e as de alguns animais, do dilúvio que divindades rivais planejavam realizar. A última cena ilustra bem a habilidade os babilônicos tinham em contar histórias — Aladim e Ali Babá são outros exemplos clássicos — ao terminar com um homem, comandado por Atram-Hasi, que, após a entrada de todos, selaria a entrada da arca pelo lado de fora, ficando destinado a morrer no dilúvio.

Devido à semelhança do enredo e por ser anterior a Noé, Finkel suspeita que o feito bíblico tenha sido, na realidade, uma adaptação épica, feita pelos antigos judeus ali exilados, de uma crença folclórica comum entre os povos da Mesopotâmia, sujeitos às cheias, eventualmente, catastróficas da região.

Mas, sem querer ofuscar a descoberta, há ainda outra história a ser contada, história esta que já deve estar na cabeça de quem leu "Museu da História Natural da Ética": como é que a peça de argila foi parar em Londres? Bem, a relíquia iraquiana foi cedida ao museu londrino pelo filho de um piloto da Força Aérea Inglesa que pegou a peça por lá, enquanto servia no Oriente Médio, durante a II Guerra Mundial.

Raridades arqueológicas por aí, enchentes monumentais... Os historiadores devem viver em um constante déjà-vu.



sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Museu de História Natural da Ética


Em outubro do ano passado, duas reportagens no caderno Ciências do jornal Folha de São Paulo, 13/10/2009, chamavam a atenção não só pelo interessante conteúdo, mas também por algumas peculiaridades das notícias.

A primeira falava da descoberta, por um britânico, do fóssil de uma nova espécie de pterossauro, Tupuxuara deliradamus, que habitava a região de Santana do Cariri, Sul do Ceará, há mais de cem milhões de anos atrás. Um detalhe, aparentemente sem importância, é que o nome da nova espécie, deliradamus, foi dado pelo palenteólogo, Mark Witton, que descreveu o bicho, como uma homenagem ao grupo de rock progressivo Pink Floyd — deliradamus, em latim, faz referência a "diamante louco", parte do nome da canção "Shine on you crazy diamond" do grupo.

A outra era sobre uma aranha, Bagheera Kiplingi, que parece se alimentar, basicamente, dos pontos açucarados produzidos por uma planta chamada acácia. Apenas de vez em quando, a aranha deixa sua dieta vegetariana para saborear larvas de uma formiga que habita a mesma planta de forma simbiótica — a acácia alimenta as formigas com os pontos açucarados e elas defendem a planta de outros herbívoros. O detalhe, também aparentemente desimportante, é que os seres vivos citados são naturais do México e da Costa Rica, bem distantes da Universidade do Arizona, EUA, onde trabalha o pesquisador, Chris Meehan, responsável pela publicação.

Mas caso ainda não tenha percebido a peculiaridade em ambos os casos, aí vai: os objetos de estudo estão bem longe de seus países de origem, nas mãos de pesquisadores estrangeiros. No segundo caso, pelo menos, a reportagem informa que o doutorando está aguardando autorização para importar os espécimes e, assim, aprofundar seus estudos em laboratório. O mais aterrorizante é que no primeiro caso, o brasileiro, o mesmo não acontece. O pesquisador, neste caso, disse, inclusive, que "seria possível" trabalhar "em conjunto com os cientistas do país de origem do fóssil". É bom nem perguntar como esse material chegou lá...

Para quem não sabe, o Brasil tem uma legislação específica no que se refere à saída não autorizada desse tipo de material do país: é crime e dá cadeia. Inclusive, em meados do ano passado, três pesquisadores estadunidenses e dois brasileiros foram presos em Corumbá por estarem extraindo sedimentos das lagoas do Pantanal sem autorização — a parte absurda da história é que os brasileiros eram estudantes de uma universidade pública paulista e que tinha ciência do trabalho.

Mas a despeito da pirataria que, obviamente, conta com a ajuda de "brasileiros", o fato é que nenhum país, principalmente do dito "primeiro mundo", mexe uma palha sequer para que isto não aconteça lá, bem debaixo de seus próprios narizes. Há inúmeros casos de produtos brasileiros patenteados por pesquisadores estrangeiros sem qualquer questionamento governamental ou das instituições de patente. E experimente quebrar qualquer uma destas patentes por aqui ou patentear algo típico de outro país para ver o tamanho da confusão que isto vai dar...

Será que Einstein imaginou que a relatividade poderia ser aplicada até na ética?!



quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Que Viagem!


Ontem, começaria uma bateria de testes com a SpaceShipTwo, nave comercial da Virgin Atlantic Airways que, em breve, levará intrépidos passageiros para experimentarem a gravidade zero no espaço. O projeto foi orçado em US$ 450 milhões e objetiva disponibilizar o acesso a viagens espaciais, já em 2011 ou 2012, a qualquer pessoa disposta a desembolsar US$ 200 mil, incluídos três dias de treinamento — segundo o Portal de Notícias G1, trezentos candidatos já realizaram o depósito para fazer o passeio. Há planos, também, para fornecer serviços de viagens suborbitais entre destinos longínquos do planeta, reduzindo drasticamente o tempo atual do percurso, transportar cientistas e materiais para pesquisa e fornecer uma plataforma remota para o lançamento de pequenas cargas no espaço.

Já dá para imaginar, daqui alguns anos, os relatos sobre as férias passadas no espaço, as fotos do planeta Terra tiradas pelo celular, os executivos incomodados com a demora de duas horas para chegar ao outro lado do mundo, os programas de milhas espaciais, as previsões das tempestades solares na TV, filmagens das brincadeiras na gravidade zero, etc. Com exceção do desenvolvimento tecnológico, não será nada muito diferente do que já pode ser visto hoje por aqui.

No livro "Qual é a tua obra?" de Mário Sérgio Cortella — que estou finalizando e sobre o qual devo escrever em breve —, há uma passagem na qual o autor relata a visita de dois caciques da nação Xavante na São Paulo de 1974. Conta que depois deles ficarem boquiabertos com a Avenida Paulista, o Metrô e os shoppings, foram levados ao Mercado Municipal. Lá, ficaram ainda mais espantados ao ver as enormes pilhas de alimento — que, para os indígenas, era o mesmo que "ouro" para nós. Um dos xavantes viu um garoto recolhendo alguns restos de comida do chão e, sem entender, perguntou a um dos guias o que aquela criança fazia ali, obtendo o "óbvio" como resposta: que ele estava pegando comida. Mais confuso ainda, o cacique questionou o porquê dele pegar comida estragada do chão com tanta comida boa ali disponível, no que lhe responderam que era porque a criança não tinha dinheiro para comprá-la. Ainda sem entender, o índio insistiu e perguntou se o pai da criança não tinha dinheiro, ao que, também, foi-lhe respondido que não. O xavante, então, quis saber por que ele, o guia, que era grande, tinha dinheiro e o pai da criança, que também era grande, não tinha e emendou: "De qual pilha você come, dessa daqui ou a do chão?". E, ao ouvirem a resposta, os xavantes, horrorizados, pediram para ir embora dali imediatamente...

Mas mais de trinta anos depois, muita coisa mudou! A pergunta, hoje, que não quer calar, é se haverá, ou não, serviço de bordo para os viajantes do espaço.



segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Cadê a ética que estava aqui?


Neste último final de semana, aconteceu a prova do ENEM. Lembra?! Aquela prova que foi adiada depois que uns gaiatos resolveram fazer um pé-de-meia vendendo as questões... Se não se lembra, pode dar uma olhadinha em "E... Nem...", quando escrevi algo sobre o episódio.

Curiosamente, não sei se de propósito ou não, o tema da redação foi: "O indivíduo frente à ética nacional". Achei que daria um ótimo tema para uma postagem por aqui também, assim, preparem-se! Só espero que nenhuma das professoras de redação me corrija...

Ética é algo que só o ser humano possui. Animais não possuem ética. Plantas não possuem ética. Virus e bactérias não possuem ética. São aéticos, ou anéticos. Não porque sejam vis, ou algo assim, mas, simplesmente, por não apresentarem a mesma capacidade de julgar e decidir que os homens e as mulheres possuem. À exceção destes que leem, todos os demais seres vivos no planeta Terra agem apenas por instinto — pelo menos a priori.

É justamente o discernimento que nos faz humanos e, com base nele, relacionamo-nos. A ética surge daí, de um conjunto de princípios em que o indivíduo se baseia para decidir sobre sua própria conduta e, assim, bem conviver com seus pares. As leis, códigos e preceitos apenas mostram o caminho de uma ética comum adotada por um povo ou um determinado grupo de pessoas, não sendo, porém, imanentes à ética. Isto significa que é o indivíduo quem deve moldar sua ética para que possa pertencer a uma determinada coletividade. Como exemplo disso, pode-se citar, talvez, a ética dos criminosos nos presídios.

Portanto, parodiando um conhecido adágio — mas mudando a parte do corpo humano para não ser deselegante —, "ética é como cabeça, todo mundo tem uma". A dificuldade está em fazer convergir várias éticas para uma ética comum, visto que esse movimento só pode partir do indivíduo e de ninguém mais.

Ao contrário de uma "lei" física que impõe uma impossibilidade — como a de dois corpos não poderem coexistir no mesmo lugar do espaço —, as leis humanas servem apenas para "orientar" as pessoas na busca por sua própria ética, alinhando-a à ética vigente na sociedade. Segundo as leis brasileiras, por exemplo, o roubo é punido com alguns anos de cadeia, mas, a depender das condições, da interpretação do magistrado e até da ausência do ladrão, pode ser que nada aconteça. Somente o indivíduo possui o verdadeiro poder sobre suas próprias ações, o resto é contingência.

Sendo assim, talvez a conduta ética comum devesse ser incluída como disciplina obrigatória já na pré-escola, para que o indivíduo tivesse claro, o quanto antes, que, ao longo de toda sua vida, a privação de alguns desejos seus será necessária para o bem de si e de seus semelhantes. Kant já explicitava essa idéia quando escrevia que as pessoas deveriam sempre avaliar se uma dada ação poderia, ou não, ser convertida em universal, ou seja, se todos os outros também poderiam agir da mesma forma. A negativa ao questionamento era sinal de que a ação fugiria a uma ética comum aos seres humanos. Analogamente, Mário Sérgio Cortella, um filósofo brasileiro, sugere, também, perguntar-se, antes de agir, se quer, pode e deve, não levando a cabo a ação se qualquer das respostas for negativa. Além disso, alerta que não possuir dilemas éticos é um indício de que algo vai mal.

Depreende-se de tudo isso que é, principalmente, com respeito e os bons exemplos de cada um que a ética nacional deverá mudar, acabando com ladrões de prova, guardadores de dinheiro em roupas íntimas, fraudadores de imposto de renda e estacionários jovens das vagas para idosos. A solução reside no íntimo individual de cada cidadão, ou cidadã, e não nas leis, na indignação inerte ou no "apontar de dedos". Porque, adaptando o que diz Calligaris em seu texto na proposta de redação, indignar-se só com os outros e com o mundo, "serve apenas para 'confirmar' a 'integridade' de quem se indigna", mas não contribui com a ética de seu povo.