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sábado, 21 de agosto de 2010

Utopias...


Utopia. Segundo Houaiss (2001), o termo se refere a "qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade" ou, por extensão de sentido, "projeto de natureza irrealizável; ideia generosa, porém impraticável; quimera, fantasia". A palavra já foi um neologismo no início do século XVI, quando Sir Thomas More (1480-1535) — hoje santo canonizado pela Igreja Católica — escreveu seu livro Utopia (1516), no qual descrevia uma ilha imaginária que abrigava uma sociedade perfeita. A etimologia do termo indica sua formação pela união de dois radicais gregos: ou (do advérbio de negação) e tópos (lugar), significando "em lugar nenhum".

Posteriormente, outros pensadores, como o filósofo alemão Ernst Bloch (1885-1977) e o sociólogo húngaro Karl Mannheim (1893-1947), desenvolveram ainda mais o significado do termo, atribuindo-lhe a um projeto de organização social alternativa capaz de apontar potencialidades concretas e realizáveis que poderiam contribuir para a transformação da ordem política instituída (Houaiss, 2001). Com o passar do tempo, o senso comum acabou adotando o termo como sinônimo de qualquer coisa ideal, inatingível, impossível de ser concretizada e, talvez por isso, as utopias começaram a ser consideradas devaneios inúteis em um mundo prático como o atual.

As utopias, entretanto, são absolutamente fundamentais para o desenvolvimento humano — como rapidamente mencionado no texto "O real e o utópico". São as utopias que fornecem a direção, o norte, a orientação para onde se deve seguir. Sem as utopias, o esforço de melhoria perde o sentido porque se corre o risco de assumir "o melhor" como sendo o estado final. Não fosse a utopia do determinismo científico, talvez os esforços na busca por mais explicações sobre os infinitos fenômenos já teria esmorecido. Por que razão, então, tanta relutância em se discutir utopias sobre regimes políticos, relações sociais, sistemas econômicos, etc.?

Parafraseando um general romano (106-48 aC.) que repetia para seus amedrontados marinheiros "Navigare necesse; vivere non est necesse." ou, em português, "Navegar é preciso; viver não é preciso." (Bachinski, C. Sic est in proverbio - Assim diz o provérbio. Juruá Editora, 2006. p. 93), poder-se-ia, com relação  às utopias, dizer: "Sonhar é preciso; ver realizar não é preciso."...


terça-feira, 3 de agosto de 2010

O real e o utópico


O casal passeava por entre as lojas, observando as vitrines, quando se deparam com um desses galãs de Hollywood estampado em um enorme anúncio publicitário. A garota, admirada, faz um comentário provocativo sobre os muitos atributos estéticos do modelo, ao que o rapaz, após olhar a foto, sorri e responde ser, ele próprio, muito melhor do que o outro do cartaz. A garota, já esboçando um princípio de gargalhada, arrisca perguntar em que se baseava aquela inusitada afirmação, questionamento que seu companheiro lhe responde de pronto: "Simplesmente, porque eu sou real!".

Idealizar pessoas, coisas ou situações parece ser uma tendência natural no ser humano e, apesar de não se restringir ao mundo publicitário, é nas campanhas comerciais que essa inclinação melhor se evidencia — os profissionais de publicidade sabem usá-la como ninguém. Ao anunciar um produto ou serviço qualquer, relacionam-no sempre a alguém, algo ou alguma situação "perfeita" que, na maioria das vezes, nunca existiu nem nunca existirá.

Não é na concepção do ideal, entretanto, que reside o problema da idealização — afinal, nada mais razoável do que aproveitar a única chance de uma divulgação para mostrar o melhor dos cenários possíveis —, mas na obsessão pela "realidade" do anúncio em detrimento de qualquer outra que se concretize na própria vida. Essa obsessão pelo perfeito, presente nas mais diversas situações da vida de um ser humano, é o que gera uma espécie de frustração permanente, seja no cumprimento de uma simples tarefa cotidiana, seja na busca ou manutenção de um relacionamento pessoal.

Talvez fosse o caso de se eliminar da perspectiva, simplesmente, tudo o que é considerado ideal ou utópico, mas acabar-se-ia perdendo, também, a motivação fundamental para seguir melhorando sempre naquela direção. Outra alternativa, embora aparentemente mais simples e um tanto difícil de se aplicar na prática, é a tolerância com relação às próprias limitações. O indivíduo tolerante raramente se frustra ao ter sua realidade confrontada com alguma idealização. A tolerância o faz reconhecer as próprias limitações, reconduzindo-o à realidade; faz com que — ao contrário da resignação — o indivíduo compreenda o estado das coisas, por como passageiro e mutável; mantém, também, o ideal como referência de forma a possibilitar um esforço de melhoria contínua.

Se aquele rapaz pensou em tudo isso, não se sabe, mas o fato é que, depois do episódio com o galã de Holywood, ele voltou a ser visto frequentando a academia...


sexta-feira, 23 de julho de 2010

Situação


"O rapaz se incomodou com um cheiro forte e desagradável enquanto esperava pelo café. Olhou para os lados, aguardou impacientemente pelo atendente, pegou a xícara e procurou um lugar longe dali para se sentar. Após alguns minutos, no entanto, percebeu que o cheiro não havia cessado — aliás, parecia que o tinha seguido. Tornou a olhar ao redor em busca de um novo local ainda mais distante. Ao avistar uma mesa vaga, levantou-se novamente com sua xícara de café e se deslocou até lá. Sentou-se, mais uma vez, reclamou da má sorte e, finalmente, pode saborear seu café em paz.

Outro rapaz se incomodou com um cheiro forte e desagradável enquanto passava em frente à lanchonete. Olhou para os lados procurando pela causa e logo se pôs atrás de uma caixa de papelão. Após alguns minutos, depois de encontrá-la e ainda sentindo o forte cheiro, reiniciou suas buscas, agora por sacolas plásticas descartáveis. Tornou a olhar ao redor e, também, não demorou a encontrá-las. Juntou o material, alegrou-se com a sorte de tê-lo encontrado ali, à mão, e, finalmente, foi ao encontro da origem daquele fedor.

Os olhares dos dois rapazes se cruzaram e ambos se cumprimentaram mutuamente. Conheciam-se. O que tomava café disse, admirado, que o forte cheiro que impregnava o ar era exalado por um cão, vira-lata, que, embora vivo, de tão machucado já tinha parte das feridas em estado de putrefação. O outro confirmou e mostrou o material que carregava para poder recolher o cão e levá-lo a alguns veterinários perto dali. Os dois se lamentaram pela situação e pelo cheiro tão desagradável que incomodava a todos no lugar.

Despediram-se, por fim. Um retornou ao seu café e o outro à sua ação.
"


quarta-feira, 21 de julho de 2010

Surpreenda-se!


Na manhã de uma outra quarta-feira dessas, o Prof. Dr. Gilberto Safra, psicanalista, expunha os dados de uma pesquisa, feita já há algum tempo, que buscava identificar as características comuns a grandes personalidades da humanidade, tais como Abraham Lincoln, Spinoza, Albert Einstein, etc. A despeito das ressalvas necessárias ao se considerar este tipo de pesquisa, os resultados são bastante interessantes e merecem ser mencionados. Basicamente, foram sete as características mais comuns identificadas na personalidade desses grandes nomes:

  1. Eram pessoas profundamente centradas na realidade do evento, sem tantas interpretações subjetivas, o que implicava um certo esquecimento de si.
  2. Possuíam enorme capacidade de estarem a sós que era usada como uma forma de contemplação da vida.
  3. Apresentavam grande resistência aos processos de aculturação, ou seja, não estavam sujeitas às constantes flutuações culturais, nem eram abatidos pelas ideologias dominantes.
  4. Tinham grande senso de humor, principalmente diante de si mesmos (o humor tem a capacidade de romper com o estabelecido).
  5. Mostravam-se bastante espontâneos e viviam com simplicidade.
  6. Eram naturalmente humildes.
  7. Nunca perderam a capacidade de se surpreender e/ou de se maravilhar diante da vida, algo que implicava em uma abertura para o inédito (similar ao que se passa com uma criança).
    O último ponto, principalmente, é digno de maiores comentários. Com o passar da idade, o ser humano tende a não mais se admirar com verdadeiros "milagres" da existência, ao contrário de uma criança que começa a compreender o mundo e se maravilha com quase tudo. Os adultos que conseguem manter essa característica "infantil" de enxergar o originário são, geralmente, os artistas mais talentosos, sendo admirados por isto. Já as crianças que, especialmente no ocidente, são consideradas imaturas, guardam, naturalmente, esse olhar tão caro aos grandes artistas.

    Como foi dito, ainda naquela quarta-feira, "filósofo é aquele que está sempre surpreendido; o sábio, aquele que se deixa surpreender".


    quinta-feira, 15 de julho de 2010

    O Plano


    "Todos, sem exceção, com quem havia conversado durante a semana anterior, disseram-lhe que não deveria seguir por aquele caminho. Além de extremamente perigoso, não parecia nada coerente com o objetivo que pretendia alcançar. Para alguns, chegou às minúcias de desenhar o esquema montado, enumerando os pontos favoráveis e contrários à sua opção, mas não houve quem lhe apoiasse naquela ideia. Seu plano era por demais mirabolante aos olhos de qualquer um e ninguém conseguia enxergar a oportunidade que ele avistava ali. Mesmo assim, não desistiu e ainda enquanto buscava algum suporte à sua pretensa estratégia de ação, continuou firme na análise e registro de cada uma das etapas pensadas que, vez por outra, ainda buscava aperfeiçoar.

    Naquele dia, voltou mais cedo e começou a repassar ponto a ponto tudo o que planejara fazer. Ao final, colocou as ações em marcha, uma a uma, e foi seguindo à risca seu planejamento prévio. Estava disposto a enfrentar a infinidade de opiniões contrárias que encontrou pelo caminho, bem como as consequências que um eventual fracasso seu poderia proporcionar. Conforme o tempo passava, a cada avanço, ia ganhando mais e mais segurança. Seus olhos faiscavam ante a perspectiva, cada vez mais concreta, de conquistar o objetivo final. Não faltaram, obviamente, imprevistos pelo caminho, mas nada que não conseguisse contornar com a sua determinação.

    Por fim, como desde o início imaginara, concluiu que suas previsões estavam absolutamente corretas. A despeito do percurso tortuoso e arriscado que escolhera, o seu sucesso era a prova final e inconteste de que sempre esteve com a razão. Chegara, finalmente, onde pretendia e o resultado provaria a todos, que não haviam acreditado nele, que suas posições também eram dignas de respeito. Sentia uma satisfação tão grande que seu semblante, ainda tenso, não conseguia disfarçar. Acabava de atingir uma condição jamais experimentada, uma espécie de êxtase...

    Sua mãe, então, chamou-o, da cozinha, para o jantar e exigiu que desligasse o 'videogame' pelo resto da noite.
    "

    quarta-feira, 26 de maio de 2010

    O desafio real


    "O rapaz tinha uma altivez atrevida no olhar e parecia apenas aguardar o momento certo para demonstrar toda sua capacidade. Ninguém, entretanto, conhecia-o por aquelas bandas, mas as cicatrizes, expostas pelo seu corpo como medalhas, serviam de base para os mais diversos comentários a respeito de seu desempenho. E mesmo observando os melhores, ele permanecia ali, calado, impassível. Como seu comportamento era, de fato, algo intimidador, alguns logo começaram a apostar que suas habilidades poderiam superar às dos competidores ali presentes. Assim, sua presença passou de absolutamente anônima para amplamente percebida, gerando boa parte do burburinho local.

    Mas ausentes aos comentários, as provas evoluíam mais ou menos como nos anos anteriores. Vez ou outra um competidor que ficara em segundo lugar na competição anterior tomava para si a primeira posição. Mas os concorrentes de elite eram, basicamente, sempre os mesmos. E isto, não era por acaso, afinal treinavam exaustivamente durante todo o intervalo entre os torneios para poder vencer o encontro anual; era o único prêmio que interessava depois de tanto esforço. No final, com poucas novidades na classificação geral, o primeiro lugar da competição anterior acabou por se sagrar bicampeão.

    Descendo do pódio, o vencedor caminhou até o rapaz que a tudo observava do alto de sua indiferença e o encarou. Tendo ouvido os comentários entre os espectadores, não pensou duas vezes antes de o desafiar fora da competição. O rapaz sorriu furtivamente e não titubeou em aceitar o desafio. Ambos abriram caminho entre a turba que se formava e se dirigiram ao local do confronto. A expectativa explodiu em gritaria geral, divididas entre as torcidas pró e contra o recém-sagrado campeão. E quando, finalmente, tomaram suas respectivas posições, uma apreensão geral silenciou a todos enquanto aguardavam o início do embate final.

    No primeiro movimento, o misterioso rapaz escorrega sozinho e desaba no chão. Não conseguiu mais se levantar."



    segunda-feira, 5 de abril de 2010

    Do Paraíso ao Apocalipse...


    E por falar em Páscoa, celebrações religiosas e demais manifestações de fé, citemos uma passagem do livro mais editado do mundo: a Bíblia Sagrada. Sendo cristã a absoluta maioria da população ocidental deste planeta, é bem provável que o livro do Gênesis não cause qualquer estranhamento:

    "Então a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal." (Genesis 3:3-5)

    O trecho se refere ao exato momento em que a serpente, ou o diabo, convence Eva a experimentar o fruto que Deus havia proibido tocar. O argumento do coisa-ruim era de que eles, Adão e Eva, não morreriam ao comer do fruto, mas, sim, adquiririam o conhecimento das coisas, igualando-se ao próprio Deus. O final da história todo mundo conhece: eles cedem às tentações, comem do fruto e são expulsos do paraíso pelo Criador. Obviamente que o objetivo não é catequizar ninguém com esta passagem do Antigo Testamento, senão ilustrar um drama humano interessantíssimo — aliás, só para constar, não seria nada absurdo supor que o Livro Santo se referisse exatamente a esses dramas, só que por meio de metáforas.

    Imagine-se tomando seu café da tarde, tranquilamente, em um ensolarado dia de domingo, ignorando, completamente, um míssil disparado em sua direção. Qual seria seu nível de preocupação? Zero, lógico! Sua ignorância sobre o fato o manteria lá no paraíso. Agora, imagine-se tocando no fruto proibido da televisão e descobrindo o fato pelo telejornal. Pronto! Seus últimos momentos de vida se transformaram no próprio inferno.

    Assim vive o ser humano, repetindo, eternamente, o drama de ser expulso do paraíso, toda vez que obtém o conhecimento e descobre-se equivocado quanto às suas expectativas. Despencar do céu ao inferno, entretanto, é humano e acaba por nos colocar em contato com a realidade mundana em que vivemos. Viver na ignorância, por outro lado, é não ter tocado no fruto proibido do conhecimento e não ter saído nunca do paraíso. Quem assistiu o primeiro filme da trilogia "Matrix", por exemplo, deve se lembrar do personagem Cypher dizendo aos agentes que a ignorância era uma bênção.

    Sendo assim, aqueles que têm certeza absoluta das próprias convicções, vivem tranquilos nos seus próprios paraísos pela eternidade. Resta saber apenas se o aumento deste tipo de personalidade, ultimamente, é apenas fruto do acaso ou já o prenúncio do apocalipse...


    sábado, 6 de fevereiro de 2010

    Quem tudo quer...


    A vida é única e, portanto, nada mais natural do que a urgência em se conseguir tudo aquilo que se deseja ao longo dela. Mas quem consegue obter tudo o que deseja ou, quem sabe, desejar apenas o que consegue? Pessoas assim, caso existam, devem ser muito felizes. A maioria dos mortais costuma desejar muito mais do que pode conseguir.

    Analisando por uma certa perspectiva, a ambição é até saudável, uma vez que gera a força necessária às ações essenciais ao desenvolvimento. Por outro lado, quando desmedida, pode ser também uma fonte ilimitada de problemas. Basta desejar algo que não possa conseguir, não enxergar outra alternativa e nem se conformar com o fato. Pronto! Eis o início de uma lista sem fim de problemas.

    Uma filósofa brasileira disse, certa feita, que gostaria de ter escrita, em sua lápide, a seguinte frase: "Não teria dado tempo.". O contexto era de que ela não conseguiria ler todos os clássicos que desejava, mesmo empenhando toda sua vida neste objetivo. A aparente resignação da frase, entretanto, refere-se apenas à limitação do tempo, não a da sua vontade em lê-los até o último dia de sua vida.

    Assim deveria ser a atitude de qualquer ser humano diante das limitações impostas pela vida, mas isto também é uma utopia. Não são poucos os casos em que, simplesmente, desistimos ou esmorecemos, como que aguardando algo, ou alguém, que se compadeça da situação e elimine nossos problemas para que, aí sim, o que há de melhor em nós mesmos possa aflorar sem esforço. Mais ou menos como um perfeccionista que deixa de fazer qualquer coisa para não fazer algo imperfeito ou indigno de si.

    Lida em algum recanto cibernético, uma outra frase, apesar de cheirar a "auto-ajuda", dá uma visão, digamos, positivista da realidade limitada a que estamos imersos. Isto porque dá esperança ao mesmo tempo que lembra da dura e inevitável tarefa da escolha: "Você pode até ter tudo o que quiser, mas não tudo ao mesmo tempo.".

    Dureza, né?!

    quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

    A ideia e o fato


    Há uma distância enorme entre o que se idealiza e o que, de fato, acaba acontecendo. E não seria absurdo algum resumir o mundo todo nestas duas coisas: a ideia e o fato. É como nosso universo funciona e, acaso o leitor conheça alguma exceção, esteja à vontade para apresentá-la em comentário.

    Tome como exemplo algo complexo, tal qual uma empresa. Um dia você acorda com uma ideia ótima para prestar um serviço útil à sociedade, gerar emprego e renda, além de contribuir com um futuro melhor para seu país e para o mundo. Pensa em tudo: como conseguir o capital inicial, precaver-se de depressões econômicas, manter a qualidade do produto ou serviço, etc. Aí, quando o raciocínio está redondo, fechado, vai até o órgão público competente e recebe os primeiros golpes: necessidade de prestar informações inexistentes, prazos inviáveis, impostos sobre presunção de ganhos, taxas, formulários e um mar intransponível de burocracia.

    Claro que ninguém pensou em criar leis, impostos e procedimentos para prejudicar a sua vida, assassinando sua boa ideia. Quem construiu a citada barreira burocrática tinha o louvável objetivo de prevenir os abusos das pessoas de má-fé contra a sociedade. De qualquer forma, a despeito da boa intenção, perceba a distância entre o que se pretendia — a ideia — e o que ocorre na realidade — o fato.

    Mas suponha que você seja um incansável batalhador pelos seus sonhos e ultrapasse todos os obstáculos burocráticos colocados em seu caminho. No segundo nível, você terá de colocar sua ideia para funcionar, trocando um produto ou serviço de qualidade por uma remuneração justa, da qual deverá extrair o lucro que dará o vigor necessário ao crescimento da sua empresa. Eis que você recebe outro choque de realidade, descobrindo que as pessoas não estejam dispostas, talvez, a pagar aquele preço. Subitamente, você se encontra na difícil situação de ter que escolher entre diminuir a qualidade de seu produto, ou serviço, para adequar o preço de venda ou, simplesmente, fechar as portas. E, novamente, surge a dialética entre a sua boa ideia e o péssimo fato — também conhecido como realidade.

    O exemplo é meramente ilustrativo, haja vista a ocorrência disso em qualquer aspecto da vida — inclusive os mais corriqueiros. Por exemplo, quando você não consegue dormir, ou acordar, na hora desejada, quando não dá conta dos compromissos diários com os quais acreditava poder lidar, quando não consegue dizer algo a outra pessoa, mesmo tendo ensaiado horas a fio, enfim, quando algo em que pensou não se concretiza. Não é surpreendente, portanto, que o sucesso chegue, mais amiúde, àqueles com maior habilidade em unir o que se pensa ao que acontece e vice-versa.

    Houve até quem pensasse (ideia), um dia, ser trivial a produção de um texto diferente diariamente, gerando um "blog" que fosse lido, de forma regular, por alguém em algum lugar do planeta... Mas não é trivial (fato).



    quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

    Realidade Aumentada


    Imagine se você pudesse sacar seu celular do bolso, apontá-lo para a paisagem urbana à sua frente e se, na imagem capturada pela câmera, aparecessem informações sobrepostas sobre estabelecimentos, produtos e serviços, em tempo real. Seria bem útil para um turista recém-chegado ao local, não? Este é um exemplo das inúmeras aplicações da realidade aumentada (RA) que, diferente da realidade virtual, integra elementos tanto virtuais quanto do mundo real para criar um ambiente misto, ampliado, no qual as informações são processadas em tempo real.

    Para quem gosta de filmes de ficção, há uma infinidade de outros exemplos de aplicação, alguns, inclusive, já em uso. Óculos com projeção de alvos e ameaças, teclados projetados em superfícies, composição de imagens com base em modelos reais — como um objeto que, ao movimentar-se, tem seus movimentos reproduzidos no computador, animando uma imagem virtual —, dispositivos de camuflagem que projetam sobre um objeto as imagens que estão atrás dele, lentes de contato com projeção de informações diretamente na retina, sobreposição de imagens diagnósticas — radiografia, tomografia, etc. — ao corpo dos pacientes, e vários outros usos já escaparam do mundo ficcional para o real, muitos em fase final de pesquisas.

    Aliás, o serviço descrito logo no início do texto já existe para os proprietários do Iphone 3GS ou dos "smartphones" com o sistema Android da Google. Basta baixar um programa gratuito chamado Layar para olhar através da câmera e encontrar os restaurantes, caixas-automáticos e outros serviços disponíveis nas proximidades. Infelizmente, parece que o serviço, hoje, só funciona nos países baixos, mas até o próximo ano deve chegar aos EUA, Alemanha e Reino Unido.

    Dá até para imaginar, no futuro, esse tipo de coisa sendo usada para prevenir os desavisados cidadãos dos problemas provocados por obras na cidade, congestionamentos ou eventos de massa. Mas uma pergunta ainda fica no ar: será que, nesse futuro não muito distante, outros problemas "menores" já terão sido resolvidos ou o serviço também será ampliado para abranger essa realidade um pouco mais dura?



    segunda-feira, 2 de novembro de 2009

    Temporalidades Cósmicas


    A TV Cultura está apresentando uma série chamada "Invenção do Contemporâneo" que vai ao ar às 23:59 h de segunda-feira, sendo reprisado às 3:40 h das quartas. São palestras patrocinadas pela CPFL Energia versando sobre os mais diversos temas da contemporaneidade humana. Hoje, o palestrante foi o pesquisador Dr. Darcy Pedro Svisero que falava sobre as "Temporalidades Cósmicas", apresentando teorias e evidências a respeito da dinâmica geológica terrestre e contextualizando os seres vivos, não como agentes, mas como meros participantes nessas mudanças. A palestra pode ser vista integralmente na página da cpflcultura.

    Como comentado aqui em outro texto (23/09/09: De volta à realidade!), o período de existência da humanidade é irrepresentável na escala de tempo cósmica. O que dizer, então, do tempo de vida de um único ser humano... Mais ou menos nessa linha, Dr. Svisero vai apresentando uma série de registros geológicos que embasam a divisão temporal por nós concebida, até chegar a recentes observações astronômicas e os atuais limites para o conhecimento humano. Entre esses limites, estão os tempos necessários para eventuais visitas a alguns astros. No caso da Lua, por exemplo, foram necessários cerca de dois dias para se chegar lá. Para outros planetas, voando a cerca de 40.000 km/h (velocidade aproximada de uma sonda espacial), seriam necessários nove meses para se chegar a Marte e por volta de dois anos para se alcançar Júpiter. Já para a galáxia grande mais próxima, Andrômeda, seriam necessários cerca de 68.000 anos!

    Teria Deus nos condenado a contemplar apenas uma fração infinitésima de Seu universo?!



    quarta-feira, 23 de setembro de 2009

    De volta à realidade!

    Uma das formas mais divertidas que uso para calibrar minha impressão sobre mim mesmo é contemplar o mundo à minha volta. Pode-se iniciar pensando na família, nos amigos, na cidade, no país, no planeta com mais de 6 bilhões de pessoas... Cada uma com sua importância e suas dificuldades!

    Depois pensando em algo como nos períodos de aquecimento e resfriamento ao longo da história da Terra, com cerca de 140 milhões de anos cada! Toda a história cristã possui pouco mais de 2000 anos... Toda história hebraica, pouco mais de 5700... Toda existência humana, cerca de 200 mil anos, ou seja, uns 0,14% de um único período desses.

    E qual era mesmo sua sua idade? Talvez 20, 30, 50, 80... Quem sabe 120 anos!

    Saber que toda nossa vida é irrepresentável na escala do tempo da existência, traz um certo conforto com relação aos nossos problemas e nos leva de volta à realidade — não a nossa, mas a do Universo.