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quinta-feira, 17 de junho de 2010

Oráculo Moderno


Se existisse um oráculo verdadeiro que, na maioria dos casos, pudesse dar uma resposta precisa e confiável sobre o futuro de qualquer indivíduo... Se as notícias fornecidas por esse oráculo pudessem se referir à vida ou à morte, sendo que a data desta última, uma vez informada, não tivesse mais como ser adiada... E se, além disso, nesse oráculo e nessas condições, tal informação crucial acerca do futuro estivesse ao seu alcance... Qual seria sua opção: desejaria conhecê-la ou não?

Saber a provável data do próprio fim ou a terrível natureza de um sofrimento à espreita, talvez lhe fosse insuportável e, quiçá, preferisse viver sem essa informação pelo resto da vida. Afinal, de que adiantaria saber que uma síndrome terminal qualquer lhe acometeria dentro em pouco? Sem dispor de uma alternativa plausível que pudesse amenizar o sofrimento ou adiar a data da própria morte, a precisa previsão do oráculo teria muito pouca utilidade prática.

Entretanto, de modo contrário, talvez saber do curto período de vida restante lhe servisse para alterar, drasticamente, toda sua forma de viver. Sua existência, organizada dentro de uma perspectiva mais breve, poderia se tornar muito mais intensa para si e útil para seus entes queridos, compensando, até certo ponto, a infeliz limitação do tempo. Seria possível se preparar para o sofrimento em todos os sentidos, prático e psicológico.

Ou, talvez, estando consumido pelas atrozes dúvidas sobre o próprio destino, fosse melhor colocar logo um término nas desconfianças pelo conhecimento prévio do futuro, fosse ele bom ou mau. Talvez antever um destino trágico não machucasse mais do que conviver com a eterna incerteza. Haveria, ainda, a possibilidade de se livrar definitivamente do sofrimento, como em um passe de mágica, caso a notícia se mostrasse boa.

Eis aí uma questão extremamente pessoal e delicada à qual não há uma resposta correta. Com o estudo cada vez mais avançado do genoma humano, vai aumentando a possibilidade de se prever, com precisão, o desenvolvimento de certas doenças terminais ligadas a genes específicos — não multifatoriais. Por mais curioso que isso possa parecer, o maior desafio dessa empreitada será ético: discernir claramente entre a importância de tais estudos e suas implicações na vida de cada indivíduo. Da mesma forma que não se pode decretar o fim do "oráculo" porque alguém não deseja sua resposta, também não se pode exigir que todos o consultem, simplesmente, porque existe e está disponível.

O assunto poderia render uma tragédia grega em outros tempos...


segunda-feira, 17 de maio de 2010

A Farmacogenética


O leitor, ou a leitora, já se perguntou por que o efeito de um determinado remédio ou tratamento é, às vezes, tão diferente entre duas pessoas? A resposta de que isto se deve ao fato das pessoas serem diferentes entre si pode não ser tão óbvia quanto parece, afinal, todo mundo toma os mesmos comprimidos contra dor de cabeça exatamente pelo mesmo motivo. Já imaginou se, para comprá-los, fosse necessário fazer um exame de DNA do paciente? Pois, guardadas as devidas proporções, é mais ou menos para isso que devem caminhar os tratamentos em um futuro não muito distante.

A farmacogenética estuda as diferenças na resposta ao uso de medicamentos causadas pelas variações genéticas que podem afetar o metabolismo — e, portanto, a eficácia e a toxicidade — das substâncias ativas na composição da droga. Diferenças alélicas em determinados genes podem alterar drasticamente a forma como o organismo processa tais substâncias (farmacocinética), alterando suas concentrações — logo, a ação das mesmas — ao longo do tratamento, ou, ainda, serem responsáveis pelas diferenças nos alvos posteriores da droga (farmacodinâmica), tais como os receptores, enzimas e vias metabólicas. Em suma, a depender da estrutura genética de um organismo, os medicamentos podem ser processados ou assimilados de formas diferentes daquela prevista para um tratamento bem sucedido.

O estudo da farmacogenética se dá pela identificação dos genes ligados às reações a uma determinada substância. Há, entretanto, um complicador que é a variabilidade étnica, ou seja, diferentes populações do planeta apresentando certas características em frequências distintas. Ao se ministrar isoniazida a pacientes com tuberculose, por exemplo, constatou-se diferentes respostas ao tratamento entre grupos de indivíduos. Alguns eram curados, outros não e outros, ainda, apresentavam severos efeitos colaterais devido a uma diferença alélica em um gene (da N-acetiltransferase), responsável pela significativa diferença na velocidade — e, portanto, na eficácia do tratamento — em que a droga era metabolizada pelo organismo. Posteriormente, verificou-se também que os indivíduos com processamento lento da droga eram mais comuns (mais da metade) entre as populações negra e branca, menos comuns nas asiáticas e raros entre os Inuit (Burroughts, 2002 apud Nussbaum).

Há, também, uma abordagem um pouco diferente que é a farmacogenômica. Nela, não apenas genes individuais, mas conjuntos de alelos são investigados para se identificar as causas genéticas comuns às diferentes respostas aos medicamentos. A personalização dos tratamentos, portanto, parece ser uma interessante tendência que ainda deve salvar muitas vidas e poupar muitas pessoas do sofrimento causado por efeitos colaterais. Como, infelizmente, tratam-se de procedimentos bastante caros, o sucesso da empreitada vai depender da viabilidade econômica, tanto na implementação quanto na pesquisa.

Mas quem sabe o gene dos conflitos na genética dos Estados não possa sofrer uma mutação, favorecendo ainda mais a pesquisa em saúde?


Para saber mais: Nussbaum, R. L. et al. Thompson & Thompson - Genética Médica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008. p. 429-438.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Prometa a Ana Telefonar!


A frase do título é um código mnemônico para se lembrar das fases envolvidas na divisão nuclear mitótica: prófase, metáfase, anáfase e telófase. Nem precisa dizer que é extremamente útil para memorizar, eficientemente, a ordem e os termos não muito comuns àqueles que não possuem formação na grande área das Ciências Biológicas. Para quem não se lembra, a mitose é parte do processo de multiplicação celular pelo qual células diploides (com dois pares de cromossomos) dividem seu núcleo em duas partes idênticas. No caso das células de origem animal, o ciclo se completa pela citocinese, ou divisão citoplasmática, dando origem a duas células iguais à original.

O processo de multiplicação celular é importante no reparo de tecidos, mas especialmente no desenvolvimento embrionário que transformará uma única célula em cem trilhões de outras, aproximadamente. Além da necessidade do embrião ter se formado com os pares de cromossomos saudáveis de seus progenitores, é fundamental que, durante todo o período, o processo de multiplicação celular se repita sem falhas, replicando e dividindo o material genético com precisão. Imperfeições cromossômicas podem desencadear problemas que vão desde o aborto natural do feto até a manifestação de numerosas doenças genéticas após seu nascimento, tais como várias síndromes (Down, Edwards, Patau, Prader-Willi, etc.), malformações diversas (lábio leporino, anencefalia, polidactilia, etc.) e inúmeras outras doenças congênitas (hemofilia, acondroplasia, etc.). Mas note que, à exceção dos genitores com histórico familiar de problemas genéticos, essas ocorrências são relativamente raras. As chances para uma mulher entre 35 e 39 anos gerar uma criança com Síndrome de Down (trissomia do cromossomo 21), por exemplo, é cerca de cinco vezes maior que o de uma outra mais jovem, no entanto, ainda assim é baixo, girando em torno de 0,5%.

Há características gênicas, entretanto, que não dependem do efeito de um ou outro gene específico, mas de um conjunto deles, denominando-se poligênicas. Quando essas características são afetadas por fatores externos, como o ambiente, por exemplo, diz-se tratar de uma herança genética multifatorial. Casos assim ocorrem com estenose pilórica, autismo infantil, hipertensão, derrame, etc., e podem ser analisados por meio de uma distribuição de suscetibilidade — geralmente uma curva normal — apresentando limiares para a manifestação na população. Pelo menos neste caso, é possível evitá-las por meio de hábitos saudáveis de vida, desde que o indivíduo não tenha, previamente, ultrapassado o limiar de suscetibilidade e manifestado o problema.

Há duas conclusões interessantes nisso tudo. A primeira é que, devido ao caráter multifatorial de uma série de doenças genéticas, manter hábitos saudáveis não é uma vaidade, meramente, e sim uma necessidade. A segunda é que, pelo menos para as características poligênicas (que são muitas), ainda deve levar um bom tempo até que as empresas de mapeamento genético por aí consigam determinar, com uma precisão razoável, as propensões de um recém-nascido manifestar, ou não, uma série de problemas bastante comuns na atualidade.


Para saber mais: Genética Médica. Jorde, L. B. et al. Elsevier: Rio de Janeiro, 2004.