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quarta-feira, 10 de março de 2010

"Homens-aranhas"


Na segunda metade do século XIX, um missionário francês, Jacob Paul Camboué, chegava na ilha de Madagascar no sudeste do continente africano. Nas décadas de 1880 e 1890, teve a inusitada ideia de produzir seda a partir das teias de uma espécie de aranha da região. Mesmo atingindo seu objetivo inicial, o sucesso de sua empreitada foi limitado, deixando pouquíssimos exemplares do tecido produzido para a posteridade. A última amostra da seda-de-aranha que se tinha notícia fora exibida em Paris, no ano de 1900, perdendo-se algum tempo depois.

Mais de um século depois, Simon Peers e Nicholas Godley, ambos empresários do ramo têxtil em Madagascar, aceitaram o desafio de produzir seda a partir da teia de uma aranha dourada da região (Nephila madagascariensis), conforme as mesmas técnicas usadas por Camboué. Foram necessárias cerca de um milhão de aranhas e o meticuloso trabalho de 80 pessoas, por quatro longos anos, para produzir um maravilhoso tecido dourado de seda-de-aranha com cerca de 3,3 x 1,2 m. Os padrões de pássaros e flores foram tecidos segundo uma tradição local conhecida como "lamba Akotifahana". O exemplar, único no mundo, está em exibição no Museu Americano de História Natural (American Museum of Natural History) desde 23 de setembro do ano passado.

Durante o período de chuvas, única época em que as aranhas fêmeas da espécie produzem teia, cerca de 70 pessoas recolhiam, diariamente, os exemplares de suas respectivas teias, construídas nos fios de telefone e energia de Antanarivo (capital do país) e redondezas, levando-as a um local onde podiam continuar produzindo a teia. Outra dúzia de pessoas eram responsáveis por extrair os filamentos que, para cada aranha, chegavam a cerca de 24 m de comprimento. Trançados com dezenas de outros (entre 96 e 960), davam origem aos delicados fios de seda usados na confecção. Após todo o processo, as aranhas eram devolvidas à natureza.

E se o trabalho dos homens já é impressionante, o da natureza é ainda mais. A resistência específica (relativa ao peso) do material da teia é maior que a do aço, com a vantagem de poder esticar até 40% de seu comprimento original sem se romper. Já há algum tempo os cientistas vêm tentando sintetizar o composto que poderia ter aplicações — se não menos nobres, certamente menos poéticas — na área militar e aeroespacial. Um dos principais problemas em produzir artificialmente o material em laboratório, no entanto, é entender como exatamente a teia se processa, já que começa líquida em uma glândula interna e, após complexos processos nas entranhas da aranha, acaba por se tornar sólido, altamente resistente e à prova d'água, em seu exterior.

Sinal de que ainda levará algum tempo para nós, engenheiros, superarmos os conhecimentos da natureza, adquiridos em milhões de anos de pós-graduação. Mas isto já é matéria para outro texto...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Na Natureza Selvagem


Há vinte anos atrás, um jovem, Christopher McCandless (Emile Hirsch), 22 anos, larga tudo e parte para uma experiência única em busca de si mesmo. Inconformado com as mentiras em seu próprio meio familiar e com o materialismo a que a sociedade se condenou, Christopher abandona seu carro, doa todas suas economias à caridade, queima o dinheiro que carregava, muda de identidade, adotando o nome de Alexander Supertramp, e passa a vagar pela América do Norte apenas com o mínimo necessário, longe aos olhos da formalidade, desaparecendo, assim, para seus familiares.

Ao longo de sua jornada — empreendida à pé, de carona, ou mesmo clandestinamente de trem e de caiaque, estendendo-se até o México — vai se relacionando com várias pessoas que o influenciam e também são influenciadas por ele, porém somente alguns clássicos literários, como Thoreau e Tolstoi, acompanham-no, efetivamente. Seu objetivo final era o Alasca, onde poderia viver por algum tempo completamente isolado e em absoluta comunhão com a natureza selvagem.

O filme, dirigido por Sean Penn, baseia-se no livro homônimo do jornalista Jon Krakauer que conta a história real de Christopher Johnson McCandless. Na Natureza Selvagem ("Into The Wild") foi produzido em 2007, depois que a família do jovem finalmente concordou ceder os direitos da história para o cinema. O trabalho não decepcionou e, além da deslumbrante fotografia e da premiada trilha sonora, ainda conta com a atuação de destaque de Emile Hirsch.

O drama também abre espaço para uma série de reflexões relevantes sobre as várias facetas do ser humano e suas relações sociais, como sobre o modo de vida a qual sociedade moderna se condenou, as atitudes de cada um com relação à própria existência e a revelação de verdades pessoais que só o auto-conhecimento pode trazer. Tal como no final quando o jovem compreende que, apesar de condenar a arrogância de seu pai, não havia tido uma atitude muito diferente ao deixar sua família completamente sem notícias, registrando, então, em seus apontamentos: "happiness only real when shared" (ou em tradução livre, "a felicidade só é verdadeira quando compartilhada").

sábado, 3 de outubro de 2009

Haikais.



O haikai é um poema de apenas três versos, formado por uma métrica rígida — sete sílabas poéticas no segundo verso e cinco nos demais. O estilo de origem japonesa, criado no século XVII pelo poeta e monge budista Bashô, é de difícil tradução quanto à sua forma, mas a simplicidade sintética e o belíssimo resultado poético persistem em sua essência, qualquer que seja a língua.

Descobri os haikais com a melhor professora de português que eu conheço atualmente, enquanto ela selecionava poesias para suas turmas da sexta série do ensino fundamental. Para um fã de sonetos, os haikais são quase que uma chave para o nirvana.

Poder-se-ia descrever os haikais como imagens de momentos únicos, capturados por uma máquina poética...