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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Haikai do Fim



O alfa e o ômega, o princípio e o fim... O ser humano se acostumou tanto às suas próprias definições sobre aquilo que o cerca que se esqueceu tratar-se apenas disso: definições. Onde começa o céu? Onde termina o mar? Em que ponto principia a vida? E em que momento, exatamente, encerra-se? São respostas fáceis de se dar quando se termina de pensar, mas muito difíceis quando se começa... Fim.



sábado, 30 de abril de 2011

Encontros


"— Como?!

A pergunta, apesar de sinceramente interessada, não deixava dúvidas quanto à incredulidade que lhe ia no ser. E a despeito da proposta estapafúrdia que recebera, ainda não havia conseguido identificar ao certo se seu interlocutor estava caçoando dele ou não, tamanha era a sobriedade com que lhe fora colocada.

— O que, exatamente, o senhor não compreendeu?
— Por um instante me pareceu que o senhor propunha comprar meu tempo, literalmente?!
— Sim. E que mal há nisso?
— Que conversa mais absurda! Desde quando é possível para alguém adquirir o tempo de outrem?
— Desculpe, mas isto é um problema meu. Deseja vendê-lo ou não? Pago por minutos e pago muito bem...

Pensou em reagir, mas encerrou aquela conversa bizarra de forma educada, imaginando que, talvez, aquele senhor pudesse sofrer de algum distúrbio mental. Seguiu seu caminho, mas logo foi detido, um pouco mais adiante, por um antigo conhecido seu.

— Ora, mas que surpresa agradável encontrá-lo por aqui! Há quanto tempo não nos falamos!
— Pois é... Muito, não?! Como vai a família?
— Ótima! Meus filhos se casaram há alguns anos e meus netinhos já estão a caminho...
— Mas já? Ainda ontem eu os carregava no colo!
— As décadas voam, não? E aquele seu projeto da grande viagem com toda a família, realizou?
— Infelizmente, não. Ainda não tive uma folga no trabalho...
— E aquela sua ideia de criar uma fundação beneficente?
— E lá tive algum momento meu para pensar nisso? Tenho trabalhado demais...
— Bom, pelo menos deve estar bem financeiramente. Logo, logo poderá diminuir o ritmo e aproveitar o que a vida tem de melhor...
— Sem dúvida que sim! Mas, agora, com licença. Estou com um pouco de pressa pois tenho de chegar no banco antes que termine o expediente. Hoje é o último dia para aproveitar umas taxas de juros diferenciadas em empréstimos pessoais. De qualquer forma, foi ótimo nos encontrarmos por aqui! Nunca sobra tempo para colocarmos a prosa em dia, não é mesmo?! Lembranças à família!

Despediram-se apressadamente enquanto, ao longe, um senhor sóbrio os fitava demoradamente...
"

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A paradoxalidade humana


Pessoas são paradoxais. Para quem não sabe, paradoxal é algo que não parece ter um sentido lógico ou é, à primeira vista, contraditório. Essa paradoxalidade acaba se manifestando no comportamento humano nas mais variadas formas. Um caso típico é quando uma pessoa age de uma forma diversa daquela que diz, quer ou pensa que deveria agir. Quem não tem, por exemplo, um conhecido que, preocupado em preservar a saúde, ingere exclusivamente alimentos orgânicos, mas fuma? Ou que, visando a boa forma física, troca o açúcar do cafezinho pelo adoçante, após um lauto jantar em um rodízio de pizzas? Ou que trabalha em uma função que não suporta, ou que se divorcia por medo de se separar do cônjuge, ou que professa uma religião na qual não crê, ou que se gradua em uma área que já se decidiu por não seguir, enfim, há uma lista tão ordinária quanto extensa de situações humanas que permitem dispensar quaisquer referências científico-acadêmicas para embasar a afirmação feita no início do texto.

Ainda nesse campo das "informalidades científicas", pode-se dizer que há duas características nos paradoxos humanos que costumam deixá-los ainda mais intrigantes. A primeira, intrínseca à própria concepção do termo, é que não existe, necessariamente, contradições ou falta de lógica nesses comportamentos. Há, sim, uma certa "intencionalidade" que procura conduzir os mais incautos — inclusive o próprio autor do paradoxo — a equívocos de raciocínio que levam a uma falência lógica da conclusão. Em outras palavras, a situação proposta esconde, ou omite, propositalmente, informações essenciais para que se possa chegar a uma conclusão logicamente adequada. Não por acaso, a teoria sobre o inconsciente, proposta por Freud, há quase dois séculos atrás, ainda é inspiração para inúmeros estudos até os dias de hoje.

Já a segunda característica, mais complexa, reside no âmago da natureza humana e se refere à forma como tais comportamentos são notados pelas pessoas. A paradoxalidade costuma ser mais facilmente percebida nos outros e menos em si mesmos. Identificar os próprios comportamentos como paradoxais exige um certo grau de auto-conhecimento difícil de se adquirir. Talvez esta seja uma razão das muitas que expliquem o porquê de, quase sempre, percebermo-nos mais normais, mais justos, mais corretos, etc., que os demais. Seria fácil acreditar que isto é verdade, não fosse o fato de que somos os outros na visão dos outros... Paradoxal, não?!

Este autor será, por exemplo, obrigado a reconhecer que, se esta não fosse sua própria postagem, seria bem mais fácil divisar as razões que a levaram ser publicada tão tardiamente, mesmo tendo sido pensada tanto tempo atrás...


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Fim


"Ele terminou de almoçar e desejou sentir na comida algum sabor diferente que tivesse a capacidade de lhe marcar, de alguma forma, aquela última refeição. Apesar de conformado quanto a inevitabilidade do fim, não conseguia afastar, de forma eficaz e duradoura, os sentimentos mais profundos que insistiam em lhe sufocar. E ao mesmo tempo que seu lado racional o apressava, sua alma suplicava, lamuriosa, para permanecer ali por mais alguns instantes apenas. A despeito de toda emoção, externamente, não escapava sequer uma brisa de todo o furacão de pensamentos que lhe varria os cantos da mente, tanto que sorriu e respondeu com naturalidade a quem lhe dirigiu um amistoso 'até amanhã'. Era curioso que só agora notasse o quão especial eram aquelas palavras tão triviais...

Seu humor lhe deixou ficar, por alguns minutos, com o olhar vago, mas o senso de responsabilidade logo o alçou daquele estado inerte, jogando-o, novamente, na amarga realidade a ser enfrentada, afinal, ainda havia muito o que fazer antes do momento derradeiro. Ajeitou suas coisas, levantou-se da mesa já arrumada e seguiu o caminho que lhe era tão familiar. Condenava-se por não ter reparado mais, ou se espantado mais, com as peculiaridades dos detalhes banais que abundavam naquele lugar. Cada ressalto no chão, cada objeto comum, cada odor conhecido, cada ruído que tantas vezes ouvira, despertavam-lhe, naquele momento, uma saudade imensa, sem sentido, irracional e incontrolável. Sentindo o coração apertar, sacudiu involuntariamente a cabeça a fim de espantar o arrependimento que lhe absorvia e tornou a se concentrar no seu caminho.

Quem o visse sozinho, guiando o carro em direção de casa, perceberia, sem dificuldades, a tristeza que se manifestava, transfigurando sua fisionomia. Considerava intrigante que dentre tantas reflexões que lhe assaltavam de modo recorrente, uma lhe fosse, particularmente, dolorosa: a percepção de que nada mais seria igual a partir de então. 'Bobagem!', ouviu-se gritar, pois, no fundo, sabia perfeitamente que os acontecimentos sempre mudam o futuro de forma definitiva. A dor que lhe incomodava, efetivamente, talvez se originasse da constatação de só ter aceitado a ideia, assim, tão tarde e somente no fim...
"


domingo, 5 de setembro de 2010

Haikai do Absoluto



Lá em Jericoacoara, no município de Jijoca de Jericoacoara no Ceará, o andarilho pode, eventualmente, cruzar com alguns equinos (jumentos ou burros) que vivem soltos, pastando entre as dunas e as formações rochosas da região. De vez em quando, como qualquer ser vivo, um ou outro acaba cometendo algum erro fatal, ou simplesmente envelhece, chegando ao final de sua existência terrena. Ainda não se sabe se enquanto vivos, analogamente ao ser humano, eles manifestam, intimamente, alguma preocupação com a relação à cronologia (passado, presente e futuro). Seja como for, no fim de ambas as espécies, isto certamente deixa de ser importante para o indivíduo que o experimenta...


terça-feira, 17 de agosto de 2010

A pedra


"O rapaz ia pisando firme pelo caminho, irado com os últimos acontecimentos em sua vida. Poucas coisas vinham ocorrendo da forma como ele, tão cuidadosamente, havia planejado e, não bastasse isso, os revezes ainda pareciam assumir propositadamente — como se isto fosse plausível — a pior configuração possível. E por mais que pensasse, não conseguia entender como tudo aquilo podia estar acontecendo. Tampouco podia se ver como responsável por qualquer uma daquelas dificuldades. Suas simulações mentais teimavam em apontar sempre um ou outro culpado pelos dolorosos percalços que vinha enfrentando. Afinal, como poderia, ele, ter previsto ações, assim, estapafúrdias de outrem.

Tão entretido estava com sua ruminação mental que não percebeu uma pedra que se aproximava. Topou com ela, caiu e se feriu em várias partes do corpo. Levantou de supetão, esbravejou, gritou, esperneou, chutou a pedra, cobriu-a com todos os impropérios conhecidos, enfim, extravasou todo o sentimento reprimido ao longo dos últimos dias. A pedra, como é do feitio das pedras, permaneceu ali, apenas, calada e inerte, sem esboçar a mínima alteração, até que a última gota de ódio do rapaz tivesse sido destilada contra ela. Cansado, ele se deixou cair sobre os próprios joelhos, começando a chorar.

Depois de alguns minutos, já recomposto, embora ainda dolorido, levantou-se e olhou para a pedra que, inabalável, permanecia exatamente no mesmo lugar. Aquela passividade, por um instante, remeteu-o a si mesmo e acabou por se arrepender profundamente de sua perda de autocontrole. Compreendeu, então, a lição que aquela pedra lhe ensinava: não importaria o que fizesse, nada poderia atingi-la. Mesmo que a destruísse, ela jamais deixaria de ser uma pedra por causa disso. Logo, fez como se pretendesse agradecer o ensinamento e seguiu seu caminho, agora bem mais calmo.

Já a pedra, sequer ameaçou se mover...
"

domingo, 15 de agosto de 2010

Passagem


Poucos não experimentaram as agruras da pressão para que certos prazos fossem cumpridos, desde um simples horário de partida de algum transporte coletivo até a data de conclusão de um grande projeto. De fato, o tempo é implacável e não espera por ninguém! Mas ao mesmo tempo que a urgência nos agride com uma espécie de "reminiscência inconsciente" do sempre limitado tempo de vida, pode também, muitas vezes, exagerar quanto às projeções das consequências de algum prazo perdido. Mesmo porque tais considerações são exclusivas do universo humano...


terça-feira, 10 de agosto de 2010

Educação pela vida


Todo conhecimento adquirido pela vida é útil. Alguns mais, outros menos, mas, no geral, atendem à principal demanda que é organizar a existência de um indivíduo em seu meio. Se tudo o que uma pessoa aprende durante seu desenvolvimento não servisse de alguma forma, ela simplesmente não existiria, já não estaria mais compartilhando uma mesma realidade com os demais. Assim, não importa o quão incapaz alguém julgue o outro, a mera existência da pessoa é prova irrefutável de que seu jeito particular em lidar com a realidade que a cerca foi bem sucedido, pelo menos, até aquele momento. Desprezar todo esse aprendizado, além de um desrespeito com o semelhante, não é nada produtivo nem para quem aprende, nem para quem ensina e muito menos para a sociedade que se priva de melhorar ao longo desse processo.

O filósofo e educador Paulo Freire (1921-1997), por exemplo, sabia muito bem disso. Nos seus trabalhos com educação popular, fazia questão de usar todo o conhecimento prévio de seus aprendizes para otimizar o aprendizado daquilo que ensinava. Em seu livro "Educação como prática da liberdade", o autor não só relata vários casos de adultos analfabetos que aprenderam a ler e escrever em pouquíssimo tempo, usando seu método de trabalho, como, também, conclui que era ele próprio quem mais aprendia na interação. Outros autores, como Eduardo Garcia¹, também defendem a ideia de transformar — ao invés de desprezar — os conhecimentos adquiridos no cotidiano. Sugerem que a educação formal, ou científica, seja construída — e não imposta — sobre o conjunto de conhecimentos prévios de cada indivíduo.

Há quem tenha uma impressão equivocada sobre esses conhecimentos do cotidiano, considerando que se referem apenas a situações simples e comuns do dia-a-dia, tal como trocar o pneu de um carro ou tirar a mancha de um tecido. Entretanto, seu repertório abrange, também, situações extremamente complexas como lidar com as relações sociais ou escolher os melhores candidatos a cargos públicos para votar. Nota-se, portanto, que o conhecimento do cotidiano, apesar de menos delimitado e organizado conceitualmente, quando comparado ao científico, apresenta um alto valor porque lida com situações difíceis e incertas, não podendo ser, desse modo, simplesmente descartado.

Afinal, o objetivo é que aprendamos a fazer melhor ou a fazer como os outros acham melhor?


¹ Garcia, E. A natureza do conhecimento escolar: transição do cotidiano para o científico ou do simples para o complexo. In: Rodrigo, M. J.; Arnay, J. (Org.) Conhecimento cotidiano, escolar e científico: representações e mudança. São Paulo: Ática, 1999.

sábado, 7 de agosto de 2010

Nosso tempo acabou!


Dr. Leonard Stern (Kevin Pollak) é um bem sucedido psicanalista, dono de uma vida rigidamente organizada e previsível. No seu cronograma, o mesmo tempo que falta para as amenidades da própria vida sobra para o tratamento de seus pacientes, cujas análises são conduzidas por anos a fio. Mas a súbita notícia de que lhe restam apenas seis semanas de vida altera dramaticamente sua rotina e seus métodos. Sob essa nova perspectiva, acaba por redefinir suas prioridades pessoais e a tratar seus pacientes com uma brutal honestidade, buscando ajudá-los, dentro do curto período de que dispõe, a superar as próprias dificuldades de uma vez por todas.

Esta é a história do curta-metragem "Our Time is Up" ("Nosso tempo acabou"), 2004, escrito, produzido e dirigido por Rob Pearlstein, um produtor estadunidense de televisão, com a colaboração de Pia Clemente e Loren Mendell. O filme, que também conta com a participação especial de Jorge Garcia da série Lost, recebeu a indicação ao Oscar de melhor curta-metragem em 2005. Apresentando um bom compromisso entre dois gêneros distintos, drama e comédia, o filme trata, com muito bom humor, de um tema caro a qualquer ser humano: a finitude da própria vida. Seus cerca de quinze minutos de duração conferem a necessária objetividade à produção, mas sem comprometer a profundidade da reflexão que o tema enseja.

Afinal, apesar das peculiaridades da história, o destino do Dr. Stern é idêntico ao de qualquer outro mortal. A única diferença é a consciência adquirida sobre a insuficiência do tempo de vida disponível para se dar conta de tudo o que se pretendia. Se fôssemos, talvez, mais cientes da inevitabilidade e da proximidade da própria morte, muitas das prioridades a que nos apegamos perderiam completamente o sentido. Se soubesse que lhe resta apenas uma semana de vida, faria as mesmas coisas que fará amanhã?

Aproveite enquanto seu tempo ainda não acabou!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O Encontro


"Ajeitou a camisa e se olhou no espelho como que por reflexo, já que sequer notou a mancha de creme dental no colarinho. Dirigiu-se apressado para a porta. Já estava atrasado e não poderia mais adiar aquele encontro, afinal, era a terceira vez que o remarcava e não saberia como fazê-lo mais uma vez. Havia algum tempo que vinha adiando o momento repetidamente. Pensara durante toda a noite nas ocasiões anteriores e chegara à conclusão de que se tratava de uma espécie de auto-boicote. Evidentemente, não era algo perceptível no nível da consciência, mas bastou uma única e corajosa reflexão para entender todo o mecanismo: o inesperado incidente com o carro, a hora-extra no trabalho e até aquela batida policial na qual foi parado... Tudo, agora, fazia sentido.

Calçou os sapatos, colocou os objetos pessoais no bolso, bateu a porta e quis trancá-la tão rápido que a chave travou na fechadura. Após algumas tentativas infrutíferas de soltá-la, usou a blusa que carregava nas mãos como proteção e tentou girar com toda a força que dispunha, ao que a chave acabou se quebrando. Verificou a maçaneta e notou que a porta, pelo menos, estava trancada. Guardou o pedaço da chave no bolso e correu para a garagem, pensando que após consumado o encontro resolveria aquilo, nem que precisasse passar a noite na casa de algum conhecido. Estava decidido a não deixar que nada o impedisse de cumprir com sua palavra novamente.

Deu-se por falta da chave do carro apenas quando nele chegou. Revirou a carteira, os bolsos, mas nada; a chave do carro havia, provavelmente, ficado no seu mais costumeiro lugar, ou seja, sobre o aparador da sala-de-estar. Começou a desesperar-se com o exíguo tempo disponível. Pensou em várias possibilidades de como entrar novamente na residência, mas não encontrou nada que fosse viável em tão curto período. Correu, então, para a rua em busca do primeiro transporte que encontrasse e viu o ônibus virar a esquina. Procurou por um táxi, mas não havia sinal deles em nenhuma das ruas do quarteirão. Sentou-se, por fim, no meio-fio, sacou o celular e ligou para desmarcar o encontro pela quarta vez.

Alguns minutos depois, um chaveiro conhecido apontava ao final da rua...
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domingo, 13 de junho de 2010

Haikai dos Contrastes



O outono é uma estação de contrastes. Em São Paulo, principalmente, os dias claros, ensolarados e de temperaturas amenas, intercalam-se às súbitas chegadas de frentes frias que, embora geralmente não diminuam a beleza dos dias curtos, transformam as horas dos menos precavidos — aqueles que dispensaram a segurança dos agasalhos extras — em vislumbres de um inferno nórdico. E em alguns aspectos, a vida humana guarda certas similaridades com a estação. Como quando certas notícias e decisões congelam o espírito de quem, até então, estava alheio, contemplando a beleza de sua própria existência...


domingo, 6 de junho de 2010

Vida


Quando se pensa na vida como um todo, ou seja, como um acontecimento no universo, não há como deixar de perceber o contraste entre sua fragilidade e permanência. Na Terra, por exemplo, embora haja registros fósseis de diversas extinções em massa ao longo de bilhões de anos, não há qualquer sinal de que, após surgida, a vida tenha deixado o planeta por completo. Tal força, capaz de criar-se e manter-se indefinidamente, não pode ser frágil. Mas basta o acaso alterar, minimamente, determinadas condições para se ter a vida desaparecida para sempre. Ainda bem que, para o universo, "sempre" pode não ser tanto tempo assim...


sábado, 8 de maio de 2010

Nostalgia complicada!


Quem já teve a oportunidade de ler um artigo científico — desses que são publicados em revistas especializadas — deve ter percebido que, em geral, não são de muito fácil compreensão para quem não vivencia aquela área do conhecimento. Os motivos são vários: o uso intenso de jargões — conforme comentado em "Compreensões resilientes" —, a pressuposição de conhecimentos prévios indisponíveis no momento da leitura, o próprio desconforto de quem está lendo com relação àquela grande área da qual trata o assunto, entre muitos outros. Há quem se arrepie apenas em ouvir falar de "física"...

Mas, relativizadas as especificidades, a lógica matemática é tão necessária às humanidades quanto a metodologia humanística às ciências exatas. Um exemplo disso é o das ciências biológicas que — claro, além de suas próprias peculiaridades — reúnem ambos os perfis — de exatas e humanas — de forma bastante equilibrada. As áreas frequentemente se mesclam e, talvez por isso, tem havido uma certa tendência para o surgimento de cursos de graduação com um alto nível de interdisciplinaridade. Logo, seria de se esperar que já pudéssemos ler, confortavelmente, os trabalhos de pesquisa produzidos em qualquer ramo da ciência.

Geralmente, são os jornalistas quem têm a ingrata missão de transformar informações quase incompreensíveis em textos facilmente digeríveis por um grande número de pessoas. Às vezes são cientistas capazes de escrever de forma simples sobre assuntos bastante complexos que assumem esse papel. Em ambos os casos, no entanto, o tiro pode sair pela culatra. De vez em quando, um jornalista não consegue entender direito sobre o que está escrevendo e algumas confusões acabam surgindo nas matérias científicas por aí. Noutras vezes, é o cientista que no afã de simplificar os conceitos ao máximo, acaba por torná-los confusos até para quem é daquela área de estudo.

Em uma das primeiras edições de "Uma Breve História do Tempo", Stephen Hawking, por exemplo, escreveu sobre um certo valor cosmológico, referindo-se a ele como "...milhão de milhão de milhão...", algo difícil de compreender, especialmente para quem não tem fobia de números. Dizer que a constante de Avogrado (número de átomos, ou um mol, de carbono em 12 g da substância pura) equivale a, aproximadamente, seiscentas mil vezes um milhão de milhão de milhão parece mais complexo do que se referir ao número como 6·10²³, mesmo para quem é leigo em exatas. Afinal, se dez elevado ao cubo (3) é o mesmo que mil, dez elevado a vinte e três deve dar uma clara noção da dimensão desse número. Como diria um saudoso professor de química do cursinho, "se houvesse 1 mol de pessoas na Terra, haveria gente dependurada no planeta!".

Contudo, era um professor de diagramas de fases quem tinha a melhor dica para quando tiver de enfrentar algo muito complexo — no caso, em particular, ele se referia a diagramas de fases ternários ou quaternários. Segundo ele, a primeira atitude deveria ser o de "no panic!" (ou "sem pânico!"). Afinal, com um pouco de calma, tudo poderia ser reduzido a formas mais simples.

Mas complicar assuntos é tão mais fácil que simplificá-los, não?

terça-feira, 4 de maio de 2010

Conversa ao pé do lírio


"Noutro dia, enquanto andava pelo jardim, um lírio dourado me fitou por um instante — decerto percebera minha angústia por mais que eu disfarçasse. Meneou com suas pétalas em sinal de reverência, mas não deu qualquer outro indicativo que pudesse comprovar sua atenção em mim. Os lírios não são muito afeitos a satisfazer caprichos humanos.

De qualquer forma, sentia que ele me observava com particular interesse e lamentava meu estado de espírito. Sua simples presença, ali, denunciava parte do que refletia: apesar de compreender as necessidades próprias dos seres humanos, não conseguia entender como algo criado por nós mesmos podia perturbar tanto nossos espíritos. Provavelmente, ao longo de sua breve existência, viu passar muitas outras almas como a minha, vagueando perdidas por aquelas bandas.

Sorri e, sob o sol, sentei-me de fronte a ele. Passamos, então, a conversar. Não como se faz com outro semelhante, mas de uma forma diferente, em uma espécie de linguagem universal. Claro que ouvia apenas minha própria voz na minha mente, mas, pelo menos naquele instante, tinha certeza de que era o lírio quem falava. Disse-me que seus pares, lírios, também tinham de enfrentar várias dificuldades para sobreviver, mas isto não lhes impedia de se fazerem tão belos quanto possível assim que a época da floração chegava. E faziam isto porque, de alguma forma, sabiam que doar sua beleza àquele mundo era essencial para a existência deles. Não se preocupavam se choveria no dia seguinte, se alguém os arrancaria em alguma manhã ou se algum outro ser os perturbaria em busca de néctar, pois confiavam em um propósito muito maior do que eles próprios.

E enquanto eu, sem dizer palavra, ouvia tudo o que me dizia, fui me confortando. Até que, de súbito, olhei ao redor e voltei a mim. Senti-me um tanto desconfortável com a ideia de estar ali, conversando com uma flor, afinal, lírios não falam!

Mas era tarde. Meu ânimo já havia melhorado...
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sexta-feira, 30 de abril de 2010

Viagens Cronológicas


O leitor ou a leitora talvez discorde, mas parece ser bem mais comum a ideia de que o passado determina o presente e que este, por sua vez, determina o futuro. Isto talvez se deva à direção temporal única, direta e linear, segundo a qual a cronologia é construída. E as implicações desse tipo de visão são várias, entre elas, a de que o presente pode ser justificado pelo passado e a de que o futuro apenas reflete o presente. Ambas são razoavelmente aceitáveis e explicam uma variedade de atitudes humanas com relação ao próprio viver, mas, decerto, essa não seriam a única forma de se compreender a existência.

Durante uma discussão sobre as diferenças entre o pensamento de Wundt e James, adveio uma visão de mundo absolutamente excêntrica à luz do senso comum, mas que, talvez, reflita com maior precisão o transcorrer cronológico e suas consequências. Para Simão, L. M., o futuro determina o presente e este, o passado. Em outras palavras, as realizações presentes se baseiam nos objetivos de um futuro projetado que, apesar de ainda inexistente, determina o que fazemos hoje. E o passado, escravo das interpretações, é sempre descrito com base em nosso presente estado de conhecimento, alterando-se constantemente.

A ideia, entretanto, não é de todo nova, conforme advertido pela própria autora. Já na metade do século passado, George Orwell escrevia em seu livro 1984: "Who controls the past controls the future: who controls the present controls the past." (ou em tradução livre: "Quem controla o passado, controla o futuro: quem controla o presente, controla o passado."). O trecho ficou famoso o que nos leva a crer que, de alguma forma, uma alteração na linearidade de pensamento tem o poder de fazer com que compreendamos além do que nos permitiria o mero mecanicismo científico.

Mas se nada o que foi aqui escrito lhe fez muito sentido, não há com que se preocupar. O texto de hoje era apenas uma utópica tentativa de se compartilhar um "insight" que, por definição, não pode ser compartilhado. Pode-se, no máximo, acusar-lhe a existência, cabendo a cada um buscar o seu já que, infelizmente, não há fórmula para isso.

Mas, creia ou não, essas coisas existem...


terça-feira, 27 de abril de 2010

Problemas de atualização e cache...


Há uma visão psicanalítica de que o mundo humano, como construído, espelha o próprio organismo: entradas, saídas, janelas, interior, exterior... Seja como for, fato é que analogias entre os seres humanos e a infinidade de objetos que permeiam nosso cotidiano é algo relativamente comum de se encontrar, especialmente no que diz respeito aos nossos tão úteis e, hoje, praticamente indispensáveis, microcomputadores com seus programas incríveis. E a relação entre máquina e ser humano anda tão próxima que as analogias aparecem em qualquer direção, tanto do homem para a máquina quanto vice-versa. Já ninguém mais se assusta quando alguém, sob grande tensão, "dá pau" ou quando o micro do escritório "surta".

Alguns dizem, inclusive, que não se pode demonstrar pressa ao lidar com computadores para que eles não comecem a se comportar de maneira estranha, deixando qualquer usuário maluco. Um exemplo típico dessas formas estranhas surge quando um sistema baseado em ambiente de rede — como a internet ou intranet — deixa, subitamente, de funcionar adequadamente. Aqueles com um pouquinho de experiência em informática, já sabem que um grande candidato a causador do misterioso mau funcionamento é o bendito "cache" do navegador. O cache nada mais é do que um entreposto, entre o servidor do sistema e a interface manipulada pelo usuário, responsável pelo armazenamento temporário de arquivos mais frequentemente usados. Apagar todo o conteúdo do cache obriga o programa a recarregar todos os arquivos necessários ao funcionamento do sistema, inclusive aquele que, por estar desatualizado, estava impedindo a realização adequada da operação.

Guardadas as devidas proporções, o ser humano também tem um cache, constituído por uma série de conceitos frequentemente utilizados nas análises de situações e tomadas de decisão. Vez por outra, algo que já estamos cansados de fazer, simplesmente não se desenvolve e, por mais que procuramos, as razões da falha não aparecem. Usualmente, quando isso acontece, estamos cansados e precisamos parar o que estamos fazendo, respirar e apagar nosso cache de ideias previamente concebidas. Sem a devida atualização, uma alteração sutil na realidade pode não ser percebida e ocasionar grandes problemas.

Assim, aqueles com um pouquinho de experiência no "help desk" da vida, recomendariam reavaliar constantemente os próprios conceitos, evitando problemas de atualização e cache ao longo da existência.

sábado, 17 de abril de 2010

O lado B.


Poucos devem se lembrar, mas existiu, em um tempo remoto, uma forma um tanto arcaica de se comercializar músicas e que fazia a alegria da grandes gravadoras: os discos de vinil. Naquela época, a pirataria musical era incipiente — se é que existia — e, com pouquíssima concorrência, o negócio musical era altamente rentável. Mas, aos poucos, as estrias no plástico que produziam o som pela vibração foram substituídas por estrias no plástico que produziam o som pela interferência do raio laser na forma digital. Hoje, praticamente, não há mais discos, estrias ou laser e as músicas vagam eletronicamente, transmutando-se entre ondas eletromagnéticas, registros magnéticos e, claro, som.

Nessa transição, enquanto as crianças aprendiam a dominar seus "MP3 Players" com maestria, a indústria fonográfica surtava em desespero e usava, mundialmente, tudo o que lhe restava de poder político-econômico para criar dificuldades legais ao compartilhamento de músicas, sob a alegação de proteger os direitos autorais. Logo, fiscais autuando escolas, por tocarem músicas de quadrilha nas festas juninas infantis sem o devido pagamento dos direitos autorais, tornou-se uma cena corriqueira. Mas, tal como os vinis, a história também tem um outro lado que proporcionou uma maior democratização musical, a redução de monopólios culturais, uma certa melhoria da obra musical — ninguém mais vende um disco inteiro por causa de uma única boa música —, a criação de formas mais inteligentes de comercialização musical, etc.

Mas, na realidade, toda essa palração era só para introduzir o real motivo desta postagem: o lado Bom. Procurando com cuidado, consegue-se achar coisas realmente muito boas onde menos se espera. A música de abertura da novela das oito é um bom exemplo disso. A composição de Toquinho e Vinicius de Moraes é de beleza e profundidade singulares. Tão bela que vale a pena até parar o que se está fazendo por alguns instantes só para ouvir, ao longe, a novela começando...


Sei lá a Vida Tem Sempre Razão
Composição: Toquinho / Vinicius de Moraes

Tem dias que eu fico pensando na vida
E sinceramente não vejo saída
Como é por exemplo que dá pra entender
A gente mal nasce e começa a morrer
Depois da chegada vem sempre a partida
Porque não há nada sem separação

Sei lá, sei lá
A vida é uma grande ilusão
Sei lá, Sei lá
A vida tem sempre razão

A gente nem sabe que males se apronta
Fazendo de conta, fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe
E o sol que desponta tem que anoitecer
De nada adianta ficar-se de fora
A hora do sim é o descuido do não

Sei lá, sei lá
Só sei que é preciso paixão
Sei lá, sei lá
A vida tem sempre razão

terça-feira, 13 de abril de 2010

É Hora...


"— Vamos, deixe tudo como está e venha comigo.
— Não posso, há muito o que fazer ainda...
— Não há mais tempo. Venha...
— Minhas coisas... Todas minhas coisas ainda estão aqui!
— Olhe ao seu redor. O que vê?
— Além de minhas coisas? Nada...
— Pois, então. Não há mais ninguém aqui. Desapegue-se e venha comigo.
— Não posso! Minha vida está aqui!
— Você não é o que tem de carregar. Venha...
— Por que eu tenho de lhe obedecer? Você não manda em mim...
— De fato. Se eu tivesse poder sobre você, já o teria tirado daqui por minha conta. É porque não tenho que ainda estou aqui, conversando... Quero apenas o seu bem, mas não lhe posso provar. E a opção é sua, só sua. Você pode confiar em mim ou não. É um risco que terá de correr...
— E se eu não for?
— Continuará aqui. Só isso... É o que deseja?
— Não, não quero ficar só! Mas tudo o que é meu está aqui! O que eu fiz, o que deixei de fazer e o que eu ainda gostaria...
— Como lhe disse, não há mais tempo. É hora de escolher se quer ficar aqui ou seguir adiante. Se resolver ficar, terá tudo a que tanto se apega, mas não estará com aqueles com quem deseja compartilhar sua existência. Se decidir seguir, entretanto, terá de deixar tudo para trás, porém estará com os demais.
— Não posso seguir levando minhas coisas?
— Infelizmente, não. É muito peso para voar como os outros.
— É muito doloroso...
— Mas compensador!
— Bem... Vamos, então! Mas para onde?
— Para o presente...
"


domingo, 11 de abril de 2010

Tudo Igual


Outro domingo, outro soneto. Continuemos igualmente poéticos toda semana...


sábado, 27 de março de 2010

Desencontros pela vida...


Ela estava especialmente linda naquela manhã de terça-feira, sem qualquer razão aparente. Trajava um vestido azul de um tecido misto que parecia tocar seu corpo delicadamente, realçando e disfarçando exatamente o que deveria. Decidira ir a pé para o trabalho, aproveitando o dia ensolarado mas ainda fresco pela manhã. Caminhava de forma segura e com uma postura altiva, chamando a atenção de um ou outro transeunte que por ela passava. Seus negros cabelos, ainda úmidos, iam exalando um suave aroma de lavanda e completavam o quadro de beleza e simplicidade que desenhava involuntariamente com seu caminhar.

Já havia algum tempo que mergulhara fundo no trabalho depois de um frustrado relacionamento. Curara-se, finalmente, e talvez por isso sentia-se algo especial naquela manhã. Quem sabe não seria aquele o dia em que conheceria alguém legal e descomplicado para compartilhar seus sucessos e fracassos? Enquanto caminhava, divertia-se pensando que aquela sensação de bem-estar, talvez, pudesse ser também o prenúncio de alguma outra grande encrenca no escritório e, assim, ia sorrindo furtiva e esporadicamente pelo caminho.

Ele acordara de bem com a vida, tão de bem que pressentia ser aquele o dia em que encontraria seu par ideal. Estava cansado da vida boêmia que vinha levando e pretendia encontrar alguém legal e descomplicada, como ele, para que pudesse, finalmente, estabilizar-se na vida. Vestiu uma camiseta branca e a única calça jeans limpa do seu guarda-roupa, calçou o tênis e juntou o monte de roupa suja que trouxera da última viagem no final de semana. A segunda-feira havia sido deveras difícil na empresa e não houve tempo para arrumar aquela bagunça toda na noite anterior. Além disso, viriam hoje limpar o apartamento e sua consciência o proibia deixar tudo como estava. Olhou para o relógio e se apressou, mas na garagem, uma surpresa: o pneu dianteiro do carro estava totalmente vazio. Olhou de novo para o relógio e desistiu de trocá-lo. Pegou as coisas e decidiu ir andando, afinal, o tempo que perderia no trânsito por causa de dez minutos de atraso equivaleriam ao percurso feito a pé. Acenou para o porteiro e saiu apressado.

Correu para aproveitar o semáforo de pedestres aberto e, no meio da rua, esbarrou de leve em uma moça. Desculpou-se, mas ao olhar para ela, não conseguiu dizer mais nada. Ela era linda em seu vestido azul, cabelos pretos e ondulados recém lavados e um ar que misturava altivez e simplicidade. Teve até a impressão de ter sentido um suave aroma de lavanda no ar. E, apesar de não ter conseguido identificar a expressão em seu semblante, ela parecia ostentar um suave sorriso.

Ela, distraída em seus pensamentos, desculpou-se quando sentiu um esbarrão, mas ao olhar para o rapaz que também se desculpava, sentiu um frio na espinha. Ele se parecia  muito com a pessoa que ela idealizara encontrar: trajes simples, aparentemente bem educado e com uma aura de responsabilidade incomum naqueles dias. Ela tentou dizer alguma coisa, mas nada lhe ocorreu, a não ser que já estava encima da hora para chegar no escritório.

As buzinas tocaram e ambos, percebendo-se no meio da faixa de pedestres, correram cada um para um lado.  Olharam para trás, em busca um do outro, mas o fluxo contínuo de veículos e pessoas bloquearam as respectivas visões. Olharam novamente para os próprios relógios e correram para nunca mais se encontrar...