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sábado, 31 de julho de 2010

Risco de escolha


Ainda nos domínios do português, talvez valha a pena mencionar um interessante episódio "linguístico" para ilustrar um tipo de atitude muito comum, especialmente entre pessoas com inteligência um pouco acima da média. O caso se refere a uma expressão bastante usada antigamente, mas que tem sido preterida desde o momento em que alguém apontou, nela, um suposto erro de lógica. Trata-se da expressão "risco de vida" que, à primeira vista, parece, de fato, absolutamente equivocada. Afinal, corre-se o risco é de morrer e não de viver. Acontece que a expressão, segundo o Prof. Dr. Cláudio Moreno, já era usada há tempos na forma elíptica (elipse: figura de estilo que consiste na supressão de um termo facilmente subentendido), "risco de perder a vida", inclusive por renomados e consagrados escritores como Machado de Assis e Eça de Queirós. Além da aula de português, o professor ainda encerra seu artigo com um trecho que enseja outra reflexão:

"(...) A língua não pode estar submetida à lógica porque é incomensuravelmente maior do que ela, já que lhe cabe também exprimir as emoções, as fantasias, as incertezas e as ambiguidades que recheiam o animal humano. O Português atual, portanto, é o produto dessa riquíssima mistura, sedimentada ao longo de séculos de uso e aprovada por esse plebiscito gigantesco de novecentos anos, que deve ser ouvido com respeito e não pode ser alterado por deduções arrogantes e superficiais." (Prof. Dr. Cláudio Moreno)

Quiçá involuntariamente, Moreno, em sua análise, acaba chamando a atenção de seus leitores para algo que vai muito além de um mero embaraço linguístico. Além da arrogância intelectual de quem condenou o "risco de vida", há ainda o fato da lógica e da razão, apesar de essenciais ao ser humano, não poderem nunca, por definição, abranger todo o universo de coisas que experimentamos, por mais que isto fira os nossos brios de animais racionais. Afinal, se já a língua, conforme bem esclarece o professor, é muitíssimo maior do que a lógica, o que dizer da realidade que nos cerca, então? E embora frustrante para alguns, ao que parece, o ser humano não é uma máquina, não é exato e seu universo jamais será determinístico porque, se isto acontecer, não existirá mais o ser humano.

Importante salientar, no entanto, que respeitar a posição do outro não significa, necessariamente, concordar com ela. Provavelmente não haveria problema algum se cada indivíduo defendesse o seu próprio ponto de vista sem pretender impô-lo aos demais. Afinal se, realmente, um deles for o mais adequado, cedo ou tarde, o outro também o adotará como seu. Ou, se nunca o fizer, é porque, simplesmente, decidiu seguir um caminho diferente e está disposto a arcar com todas as consequências que advirão de sua escolha.

Ou alguém tem dúvida de que o outro pode escolher também?


quarta-feira, 21 de julho de 2010

Surpreenda-se!


Na manhã de uma outra quarta-feira dessas, o Prof. Dr. Gilberto Safra, psicanalista, expunha os dados de uma pesquisa, feita já há algum tempo, que buscava identificar as características comuns a grandes personalidades da humanidade, tais como Abraham Lincoln, Spinoza, Albert Einstein, etc. A despeito das ressalvas necessárias ao se considerar este tipo de pesquisa, os resultados são bastante interessantes e merecem ser mencionados. Basicamente, foram sete as características mais comuns identificadas na personalidade desses grandes nomes:

  1. Eram pessoas profundamente centradas na realidade do evento, sem tantas interpretações subjetivas, o que implicava um certo esquecimento de si.
  2. Possuíam enorme capacidade de estarem a sós que era usada como uma forma de contemplação da vida.
  3. Apresentavam grande resistência aos processos de aculturação, ou seja, não estavam sujeitas às constantes flutuações culturais, nem eram abatidos pelas ideologias dominantes.
  4. Tinham grande senso de humor, principalmente diante de si mesmos (o humor tem a capacidade de romper com o estabelecido).
  5. Mostravam-se bastante espontâneos e viviam com simplicidade.
  6. Eram naturalmente humildes.
  7. Nunca perderam a capacidade de se surpreender e/ou de se maravilhar diante da vida, algo que implicava em uma abertura para o inédito (similar ao que se passa com uma criança).
    O último ponto, principalmente, é digno de maiores comentários. Com o passar da idade, o ser humano tende a não mais se admirar com verdadeiros "milagres" da existência, ao contrário de uma criança que começa a compreender o mundo e se maravilha com quase tudo. Os adultos que conseguem manter essa característica "infantil" de enxergar o originário são, geralmente, os artistas mais talentosos, sendo admirados por isto. Já as crianças que, especialmente no ocidente, são consideradas imaturas, guardam, naturalmente, esse olhar tão caro aos grandes artistas.

    Como foi dito, ainda naquela quarta-feira, "filósofo é aquele que está sempre surpreendido; o sábio, aquele que se deixa surpreender".


    sexta-feira, 2 de julho de 2010

    Equilíbrio


    Um aquário é um mini-ecossistema que, tal como o globo terrestre, deve funcionar em perfeito equilíbrio. Perfeito, na realidade, talvez seja um termo um tanto inadequado para um ambiente tão reduzido. Não há como mantê-lo perfeitamente equilibrado porque sempre há trocas com o meio externo: ar, comida, água, etc. Mas, na medida do possível, o aquário deveria sempre fechar um ciclo completo de transformações, no qual os resíduos dos peixes possam servir como fonte de nutrientes para as plantas e o resíduo metabólico destas, como elementos úteis aos peixes. Traduzindo em miúdos, os peixes respiram e se alimentam, excretando compostos orgânicos e nitrogenados os quais fertilizam as plantas que, por sua vez, crescem, absorvendo da água o gás carbônico e compostos nitrogenados (tóxicos aos animais), liberando, por fim, parte do oxigênio consumido pelos peixes.

    Há nessa equação, entretanto, algumas variáveis que desequilibram o sistema e outras extremamente difíceis de balancear. Algas, por exemplo, usualmente não só prejudicam a beleza do aquário, como alguns tipos podem matar plantas (por sufocamento) e peixes (por intoxicação). Virus e bactérias diversas, também, têm efeito catastrófico em um ambiente tão pequeno. Já com relação ao balanceamento, não há como saber, por exemplo, se a quantidade de gás carbônico produzido pela respiração dos peixes é exatamente a necessária para o bom crescimento das plantas, já que sua dinâmica depende também da presença de outros elementos como ferro, molibdênio, etc. Some-se a tudo isso um rígido controle de pH (acidez, neutralidade ou alcalinidade da água), da iluminação e da temperatura.

    Contudo, todo trabalho desenvolvido na manutenção do aquário é o que proporciona uma infinidade de lições ainda a serem aprendidas por cada um de nós. Com um pouco de atenção, pode-se perceber a constante lição de responsabilidade, humildade e respeito que é ensinada em cada etapa — responsabilidade porque a vida (ou a morte) não espera; humildade porque é a própria pessoa quem usualmente executa as tarefas, conscientizando-se das próprias limitações; e respeito porque não há como um ser humano, no mais profundo significado do termo, não se encantar e se surpreender com a manifestação da vida em sua plenitude naquele pequeno espaço. E mesmo quando se falha em manter o mini-ambiente saudável, extrai-se valiosas lições sobre o quão danoso um desequilíbrio mínimo pode ser para todo o ecossistema — algo que não parece muito crível para várias pessoas, mesmo sabendo que, no caso da Terra, seríamos nós os peixes a perecer.

    Há quem diga, também, que as tarefas proporcionam um verdadeiro estado de meditação, antes, durante e depois do aquário equilibrado, mas isto já é uma outra história...

    quarta-feira, 30 de junho de 2010

    A via-crúcis da comunicação


    Escrever pode parecer uma tarefa simples, mas, definitivamente, não o é — tampouco é tão complexa a ponto de se tornar proibitiva para quem quer que seja. O "problema", talvez, resida não no ato de escrever em si, mas na exposição clara e precisa das ideias, de uma forma compreensível à quem se proponha a ler o texto final — é esta, provavelmente, a intrincada tarefa a ser realizada por qualquer autor ou uma autora. Conseguir uma organização adequada da informação e delimitar as possibilidades de sua compreensão pelo outro parecem ser fundamentais para se produzir um texto bom e funcional ao mesmo tempo.

    Com respeito à organização, pode-se dizer que se trata de uma necessidade, até certo ponto, trivial para qualquer produção escrita. Sem ela, normalmente, são prejudicados o sentido, a lógica e a coerência do texto — o "começo, meio e fim", como se diz por aí — e a informação acaba sendo transferida de forma diversa daquela que se pretendia originalmente, perdendo-se ou se alterando ao longo do processo. No caso de uma obra artística como um poema, por exemplo, talvez o problema não seja, assim, tão evidente já que o resultado final — os sentimentos, o estranhamento, etc. — dependem, em grande parte, da subjetividade de quem lê. Mas em um texto mais técnico, a falta de organização é fatal para o objetivo desejado: a compreensão precisa do que está sendo comunicado.

    A delimitação do que o outro — o leitor ou a leitora — pode entender ao ler o texto é uma necessidade um tanto mais refinada. Quem já teve contato com alguma das obras de Durkheim, por exemplo, deve ter percebido o extremo cuidado com que o autor define não apenas os termos e conceitos que utiliza, mas como e em quais condições os mesmos podem ser empregados. A aparente prolixidade esconde, na realidade, uma árdua missão de evitar interpretações diversas — ou a compreensão equivocada — daquela pretendida pelo autor. Este método, infelizmente, apresenta um efeito colateral: a perda de atratividade do texto para um significativo percentual de potenciais leitores — quem não esteja interessado especificamente naquela área, claro. Se o objetivo original era o de comunicar certos conceitos ao maior número possível de pessoas, talvez essa não seja uma boa saída.

    Assim, levar em conta não apenas o que se escreve, mas também a forma como o outro compreenderá, faz com que o bom comunicador sempre oscile entre o que lhe parece excessivamente óbvio e a complexidade necessária para manter a fidelidade entre o texto e o pensamento que deseja transmitir — o que para os menos experientes é uma tortura. Não obstante, é, para qualquer escritor, um excelente exercício de humildade, pensamento crítico, auto-conhecimento, etc.

    Não seria exagerado afirmar que escrever poderia até ser considerada uma forma de ascese...


    sábado, 29 de maio de 2010

    Sociologia de boteco


    E aproveitando o clima descontraído de bate-papo, nada melhor do que propor uma tese sociológica elaborada, daquelas que requerem boas horas de discussão, em meio a petiscos e aperitivos, para serem adequadamente digeridas pelo consciente da galera. E não a prejulgue pela boemia no momento de sua concepção, pois são justamente tais condições que costumam favorecer o aparecimento dos germes primordiais que originam ideários extremamente complexos. A história mostra, aliás, que tais desenvolvimentos podem marcar, profundamente, a humanidade — não que este seja um desses casos. Basta recordar quantos partidos políticos, sociedades secretas e tantas outras organizações sociais surgiram de despretensiosas conversas em torno de uma mesa de bar.

    Pois bem, a tese de que trata esta postagem não nasceu, exatamente, em um bar, mas na mesa de um restaurante, durante a hora do almoço. Conversava-se sobre algumas das mazelas mais comuns na sociedade moderna, tais como as várias facetas da violência, a degradação do meio-ambiente pela ação do homem, a corrupção nas mais diversas instituições públicas e privadas, etc. De repente, surge o "insight" que daria origem a toda a tese: as ações de controle e reparação são, geralmente, focadas nos efeitos e, raramente, nas causas de tais mazelas. Claro que esta é uma visão determinística, idealizada, pois nem sempre um fato social tem uma causa bem definida, mas, não há como negar, que certas condições — ou combinação destas — favorecem, em maior ou menor grau, determinados padrões de comportamento na sociedade.

    Pretender lidar com um problema social apenas com a mitigação de seus efeitos é quase como, desejando se livrar das dores, tratar um infarto do miocárdio apenas pela ingestão de analgésicos. Há que se compreender o fenômeno com maior profundidade para que seja possível adotar medidas eficazes na condução do presente ao futuro desejado. A atitude mais comum, entretanto, é, justamente, o direcionamento de escassos recursos para minimizar os efeitos e não as origens do problema.

    Tomando-se a violência como exemplo, note que a solução vai muito além da mera repressão de certos comportamentos. Pode até parecer estranho à primeira vista, mas a atitude violenta que ceifa a vida de alguém em uma discussão na rua possui a mesma origem daquela que encerra a carreira de um profissional durante uma vaidosa demonstração de poder em um ambiente corporativo. Embora os efeitos sejam absolutamente diferentes, a natureza das violências é a mesma. E, ao invés de se criar mecanismos para impedir que o efeito se manifeste, como aumentar o contingente de policiais nas ruas ou burocratizar excessivamente os processos de recursos humanos, por que não investir esforços na redução — ou, pelo menos, no controle — da "natureza violenta" no ser humano? Verifica-se o mesmo padrão também nas diversas medidas anti-corrupção, leis contra intolerância, etc.

    E a hipótese para explicar o porquê desta "tese" nunca ter saído do campo sociológico dos botecos é, simplesmente, a de que seu estudo é inviabilizado, em ambientes mais "sérios", pelos elevados níveis de humildade e auto-crítica demandados no processo.

    sábado, 24 de abril de 2010

    Homem Primata — Parte IV


    Não obstante todas essas evoluções e revoluções, muito pouco — ou nada — mudou na fisiologia humana que continua praticamente igual a de nossos ancestrais primatas de dez mil anos atrás. E o fato de não ter havido uma mudança genética significativa durante esse período, sugere que o "pulo-do-gato" na distinção da espécie humana do resto do reino animal tenha se dado em um nível psico-social — como isto aconteceu, exatamente, é uma outra história que deve render um Nobel à quem descobrir. E a partir dessa mais-do-que-razoável inferência, é possível se ter uma noção do quão relevantes, para o desenvolvimento humano, são a epistemologia e a humildade.

    Com relação à primeira, pode-se dizer que não há como negar a importância de descobertas simples — e que, hoje, parece-nos banais — como saber que o fogo poderia transformar certos produtos tóxicos em comestíveis. Cada avanço, por mais insignificante que pareça, contribuiu para que pudéssemos, no atual momento, pretender enviar alguém a outro planeta. Mesmo os equívocos, evidenciando por onde não seguir, foram fundamentais para delinear o avançado estado tecnológico em que a humanidade se encontra no presente. Conceitos científicos esdrúxulos atualmente eram, em seu tempo, amplamente aceitos e defendidos de forma acalorada por muitos. Outros, considerados absurdos em um determinado período, acabaram, mais tarde, mostrando-se adequados se considerados sob uma nova perspectiva.

    Só para citar um exemplo, a força gravitacional de Newton, difícil de ser aceita em sua época, tornou-se tão comum para os mortais que seria um sacrilégio questionar sua existência. Hoje, entretanto, busca-se explicar o efeito da atração gravitacional não mais pela ação de uma força, mas pela troca de partículas subatômicas¹ entre corpos com massa. Desprezar, no entanto, a contribuição de Aristóteles porque ele acreditava que corpos com massas diferentes caiam na Terra com velocidades diferentes é, no mínimo, ignorar a forma como o saber humano é construído ao longo do tempo.

    Mas talvez a falta de perspectiva epistemológica seja apenas um efeito colateral de uma doença grave e cada vez mais comum neste momento histórico: a falta de humildade. Este é o pior inimigo da aprendizagem porque aquele que já sabe, não tem como aprender. A cada certeza científica defendida com unhas e dentes, morre a possibilidade de uma nova descoberta no futuro. A cada fato desprezado, simplesmente por não se enquadrar à metodologia científica vigente, perde-se um rico mundo de novos conhecimentos.

    Àqueles com absoluta certeza de seus próprios pontos de vista, este autor pede sinceras desculpas e lembra que não há por que se preocupar com qualquer ponto discordante deste texto, já que não existe certeza sobre o que foi exposto aqui.


    sexta-feira, 23 de abril de 2010

    Homem Primata — Parte III


    Pouco a pouco, com a popularização da escrita, foi surgindo a necessidade de se reproduzir os textos de uma forma mais eficiente e barata. Assim, é inventada a imprensa no seio da revolução burguesa, alterando, definitivamente, a forma da humanidade se relacionar com o conhecimento produzido. O intercâmbio de informações em nível mundial, ainda que restrito a uma pequena elite, passava de utopia a realidade, aumentando, exponencialmente, as conquistas tecnológicas dos H. sapiens. A isso se seguiu o desenvolvimento de todos os dispositivos de comunicação disponíveis até os dias de hoje, como o rádio, o telefone, a televisão, etc. E a cultura humana, claro, não poderia sair icólume de tudo isso e se alterou, mais uma vez, profunda e irreversivelmente. Surgia, então, a era da informação.

    Tente não aprender nada novo por um único dia e perceberá como isto é difícil na atualidade. A incessante torrente de informações lhe força a conhecer as regras de uma nova promoção — mesmo que para, apenas, decidir não participar —, as implicações do tempo na Groenlândia para o resto do globo, as potencialidades do processamento quântico na determinação de variáveis multidimensionais ou mesmo as "provas" de seu candidato ter falado, ou não, a verdade durante uma sabatina política. O acesso à informação, que antes limitava o compartilhar do conhecimento, acabou por se tornar um problema moderno ao saturar,  constantemente, a aprendizagem humana.

    Como bem lembra Pozo, nem São Tomás de Aquino, com sua prodigiosa memória (Boorstin apud Pozo, 2002), capaz de reproduzir as aulas de seus professores com tamanha precisão, poderia, nas últimas décadas, memorizar uma fração significativa de tudo a que fomos expostos. Logo, a capacidade de retenção e reprodução foi deixando de contar tanto e deu lugar à de selecionar e interrelacionar conteúdos para produzir estratégias de ação efetivas, obtendo alguma previsão e controle no ambiente dinâmico — talvez caótico — que criamos e no qual escolhemos viver. Obviamente, não se está querendo dizer com isso que o conteúdo não seja essencial na aprendizagem — na hora da cirurgia, por exemplo, um médico não pode consultar um manual de anatomia para saber se está cortando o tecido correto — mas que, apenas ele, já há algum tempo, não é mais suficiente para suprir as demandas da recente conjuntura.

    E quando a poeira da última revolução parecia ter-se assentado, eis que surge o furacão da internet para colocar tudo de pernas para o ar novamente. Nem as sagradas instituições jornalísticas mundiais restaram de pé e foram forçadas a rever completamente seus conceitos para conseguirem sobreviver. A relação com o conhecimento, mais uma vez, foi fundamentalmente alterada e, com ela, toda a humanidade e sua cultura. Basta verificar que, hoje — ainda que para uma elite restrita, como durante a invenção da imprensa —, o que renomadas instituições dizem está tão disponível quanto as opiniões pessoais de qualquer cidadão anônimo em algum lugar do planeta. Cada dia mais, obras raras e inacessíveis vêm sendo disponibilizadas para qualquer pessoa conectada à grande rede mundial de computadores e o mesmo se aplica à produção científica mundial.

    Se 2010 anos atrás já não era possível comparar a espécie humana com qualquer outro ser vivente da Terra, e agora, então?


    quinta-feira, 22 de abril de 2010

    Homem Primata — Parte II


    Pode-se dizer que a revolução humana principia, de fato, quando os grunhidos comunicativos passam a se repetir e ter algum sentido atribuído, algo que só seria possível em um grupo vivendo em sociedade — afinal, não bastaria alguém grunhir com um sentido sem que outro estivesse próximo para entendê-lo. Lenta e paulatinamente, portanto, os indivíduos que exibiam maior habilidade para articular sons devem ter sido selecionados ao longo de uns poucos milhares de anos, até que algumas conversas primitivas se tornassem possíveis. Logo, a capacidade de trocar informações legava ao grupo a possibilidade de compartilhar conhecimentos e experiências que persistiriam por gerações. Mas ainda havia uma significativa barreira a transpor: a limitação da memória. As tradições orais, além de demandar exessivamente a memória de seus seguidores, estavam sujeitas, frequentemente, a más interpretações, distorções, fragmentação e demais problemas associados à "síndrome do telefone-sem-fio".

    Eis que, então, alguns comerciantes fenícios, preocupados com o registro contábil de suas atividades, desenvolvem um conjunto de símbolos gráficos padronizados que permitia a qualquer pessoa — que obviamente conhecesse o padrão — ter acesso a informações precisas sobre as transações comerciais. Não só no oriente médio, mas, independentemente, em outras regiões do planeta, a escrita surgiu como uma das primeiras grandes revoluções da recém-nascida humanidade — note que as escritas mais antigas têm cerca de 6000 anos apenas. O conhecimento germinado na habilidade da fala, agora, florescia nas folhas de papiro, tabuletas de argila, cera, pedra e onde mais se pudesse registrar os conceitos formulados pela mente humana. A escrita passava a exercer, então, o valioso papel de "memória da humanidade".

    Mas, ainda que o avanço tivesse sido enorme, o acesso às fontes de informação era muito difícil. Um grego que quisesse estudar uma relíquia hieróglifa egípcia, por exemplo, teria de atravessar todo o Mediterrâneo para vê-la e, caso quisesse retornar com as informações para casa, teria que decorá-las ipsis litteris, como diriam os romanos. Esta dificuldade no trânsito das informações, continuava a demandar muito da memória humana, fazendo com que os métodos de aprendizagem privilegiassem a memorização literal de conteúdo. Aliás, os primeiros registros de truques mnemônicos usados até os dias de hoje datam do século V a.C. e são atribuídos ao poeta grego Simônides de Ceos (Pozo, J. I. Aprendizes e mestres: a nova cultura da aprendizagem. Artmed, 2002.). Logo, a semelhança com boa parte das metodologias modernas de ensino, como pode ser percebido, não parece ser mera coincidência.

    Assim, já no ano 0 cristão, mesmo com uma genética pré-histórica, o nível de desenvolvimento do ser "social" humano já não podia mais ser comparado ao de qualquer outro animal na Terra. Mas, além da fala e da escrita, algo mais poderia influenciar a evolução da humanidade de maneira tão significativa?


    quarta-feira, 21 de abril de 2010

    Homem Primata — Parte I


    Se uma caridosa família assumisse, hoje, a criação de um frágil rebento do tempo das cavernas — digamos, de uns dez ou quinze mil anos atrás —, ele, ou ela, poderia se tornar um distinto representante dos médicos, advogados, engenheiros, ou qualquer outro grupo profissional, sem grandes problemas. Talvez até enfrentasse algumas dificuldades mas, definitivamente, não muito diferentes das de qualquer garoto da mesma idade. Isto porque, geneticamente, não houve alterações muito significativas nesse período de tempo. Chamar, aliás, uma dezena de milênios de período de tempo já é um exagero em comparação com a idade do planeta. Uma fração de um instante seria, provavelmente, mais indicado.

    Uma das questões das provas vestibulares do ano passado falava justamente sobre isso. Colocássemos a história geológica da Terra em um período de doze horas, toda a história humana não seria suficiente para preencher sequer o meio minuto final do período. Não obstante, há ainda quem se ache absolutamente importante neste universo. Mas o que teria, em um ínfimo instante da evolução, transformado primatas que se alimentavam de tubéculos, larvas, frutos e, nos primórdios, até carniça, em seres tão evoluídos ao ponto de lhe ser possível pensar algo dessa natureza?

    Infelizmente, como tudo na vida, não há como saber a resposta com certeza. Pode-se, entretanto, inferi-la com base em uma série de achados arqueológicos e o exercício metódico da razão. Assim, suspeita-se que a organização social humana e aprendizagem diferenciada da espécie tenham lançado as bases para a revolução que nos transformou em senhores do planeta Terra.

    Antes, porém, cabe algumas observações muito pertinentes para exercitar a humildade dos mais afoitos: há várias outras espécies animais com organizações sociais bem estabelecidas, principalmente — mas não exclusivamente — entre nossos primos primatas superiores. Não somos os únicos que usam ferramentas, que se comunicam, que brincam, que aprendem, que ficam alegres ou deprimidos, enfim, não há diferenças exorbitantes entre a espécie H. sapiens e as demais da mesma ordem. Inclusive, como discutido aqui em "Medicina Evolutiva", há características que compartilhamos com todo filo dos vertebrados, como o cruzamento da traqueia com o esôfago.

    Mas fato é que nos organizamos mais eficientemente que os demais seres da Criação. Por que?


    quinta-feira, 11 de março de 2010

    O conhecimento e a sabedoria


    Talvez o leitor conheça pessoas com enorme conhecimento, porém com quase nenhuma sabedoria. Ou o contrário, pessoas extremamente sábias, mas sem muito conhecimento formal. Seja como for, mesmo que as características se apresentem em diferentes graus, ambas (não por acaso, vez por outra os termos são usados como sinônimos) são necessárias e complementares para a formação da personalidade única do ser humano.

    Apesar dos diferentes significados, não é muito fácil compreender, logo à primeira vista, a diferença entre o conhecimento e a sabedoria. Pode-se dizer que o conhecimento é adquirido pelas mais diversas formas como a leitura, a pesquisa, o estudo e até a experimentação. Trata-se de um conjunto de informações sistematicamente organizado, passível de transferência entre indivíduos, estando diretamente relacionado com o instituto da ciência. Já a sabedoria, por outro lado, surge da síntese particular das experiências vividas por um indivíduo que, formulada de um modo peculiar, não permite sua transferência direta à outra pessoa. Uma criança, por exemplo, a depender de suas experiências vivenciadas, pode ser muito sábia em determinados aspectos, mesmo sem muitos conhecimentos.

    Pelo fato da sabedoria não poder ser ensinada e nem traduzida em linguagem matemática, muitos a negam, como se não tivesse a mesma legitimidade das causalidades científicas. A ciência, entretanto, manifesta-se por outras formas além da mera explicação. Se o leitor buscar pelas causas de um texto poético, por exemplo, dificilmente as encontrará. Tampouco conseguirá, com facilidade, transmitir a outra pessoa os sentimentos e sensações experimentados durante sua leitura. Ao compreendê-lo, no entanto, pode perceber claramente seu valor, que é tão legítimo quanto a comprovação experimental de um modelo matemático.

    Ao arrogar-se a posição de única geradora de verdades, a ciência atual acaba por ocupar o mesmo lugar da inquisição religiosa na Idade Média. Por isso, hoje, mais do que nunca, a humildade e o pensamento crítico — principalmente a auto-crítica — mostram-se como essenciais ao contínuo desenvolvimento humano.


    segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

    Tanto lá, quanto cá!


    E por falar em instituições, pode-se dizer que sem a solidez e a credibilidade destas, não há como conceber uma sociedade nos moldes atuais. São as instituições científicas, religiosas, políticas, jurídicas, policiais, civis, entre várias outras, que estruturam toda a civilização moderna, fornecendo aos indivíduos as referências necessárias para seus próprios julgamentos éticos. Por isso, não há nada pior para uma instituição — e para sociedade a qual pertence — do que cair no descrédito da opinião pública, algo que, fatalmente, ocorre quando não cumpre o papel que se espera dela. E, justamente por serem referências, é que se espera das instituições atitudes e posicionamentos exemplares, não só em relação aos outros mas, principalmente, em relação a si mesmas.

    Infelizmente, como toda criação humana, as instituições também estão sujeitas a muitas falhas e limitações. Entretanto, não são estas, propriamente ditas, que comprometem a credibilidade de uma instituição, senão o não-reconhecimento desses equívocos. Ao se reconhecer um erro, abre-se a possibilidade de remediá-lo ou, pelo menos, de se tomar as providências necessárias para que outros, de mesma natureza, não se repitam. Esta atitude de humildade, referência da grandiosidade humana, é uma virtude relativamente rara nas instituições e por um motivo muito simples: também é rara nos seres humanos.

    Em 22 de julho de 2005, uma das mais famosas instituições policiais, a Scotland Yard, assassinou, por engano, com sete tiros na cabeça, o brasileiro Jean Charles de Menezes, 27 anos, depois de confundi-lo com um procurado terrorista etíope, Hussain Osman, na estação de Stockwell em Londres. O caso ganhou repercussão por aqui porque Jean era brasileiro, mas a fatalidade poderia ter ocorrido com qualquer outra pessoa de qualquer outra nacionalidade.

    A questão é que a instituição de Vossa Majestade não só se esquivou da responsabilidade pelo ocorrido, como ainda jogou a culpa em Jean por ter fugido quando viu os policiais. Fugiu, talvez, por achar que uma instituição policial de referência internacional não tentaria pará-lo com sete tiros na cabeça. No máximo alguns tiros nas pernas ou nos braços, já que o lógico seria um terrorista suicida, já dentro de uma estação de metrô e próximo dos policiais, tentasse se explodir e não fugir.

    E para quem acha que "pizza" costuma ser uma especialidade brasileira (afinal, no Brasil, não é tão raro alguém ser fuzilado por alguma autoridade, mesmo sem ser suspeito de terrorismo, e nada acontecer com o responsável), saiba que lá, como cá, tudo terminou em uma bela rodada de "pizzas" institucionais: a Suprema Corte declarou "veredicto aberto", impossibilitando qualquer condenação criminal dos responsáveis, a família de Jean teve de engolir uma indenização à brasileira (que, segundo a Folha de São Paulo de 24/11/2009, não deve chegar a R$ 300 mil) e a comandante da operação, Cressida Dick, 47 anos, ainda recebeu uma condecoração real pelos serviços prestados na polícia britânica.

    E quando instituições tão diferentes apresentam desfechos tão semelhantes, é de se suspeitar que, sobre todas as diferenças, o problema é o que há em comum entre elas, ou seja, o ser humano. E, portanto, tanto lá, quanto cá, as instituições devem ir melhorando à medida que nós também formos melhorando. Nunca o contrário...


    sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

    Maria-vai-com-as-outras


    Solomon Asch (1907-1996) foi um psicólogo polonês, nascido em Varsóvia, que emigrou para os EUA na década de 1920. Formou-se na Faculdade da Cidade de Nova York e obteve seus títulos de mestre e doutor na Universidade de Columbia na década de 1930. Entre seus relevantes trabalhos, estavam uma série de experimentos sobre a pressão social, capaz de fazer com que um indivíduo aceitasse algo evidentemente errado como certo.

    Um dos experimentos consistia em perguntar a um grupo de alunos, qual de três linhas era do mesmo tamanho de uma quarta. Todos os alunos, exceto um, eram instruídos a darem uma resposta falsa. O estudo verificou que em mais de 30% dos casos, a resposta do que não fora instruído seguia a opinião da maioria. Aumentando-se o número de alunos, desde que mantida a fração de respostas erradas, este percentual não se alterava, porém diminuía rapidamente com a redução da fração de respostas falsas.

    Os resultados foram valiosos para embasar as críticas que Asch fazia aos seus colegas comportamentalistas que separavam os fatores psicológicos de seus contextos. Muitas foram as implicações dos trabalhos também na área de sociologia, explicando alguns comportamentos sociais verificados. Em linguagem leiga e, mais uma vez, lançando mão da sabedoria popular, pode-se dizer que o trabalho respaldou, cientificamente, o perfil "maria-vai-com-as-outras".

    Mas, por favor, não entenda o termo pejorativamente, afinal, somos animais sociais e não parece, mesmo, fazer sentido que tal comportamento não se manifeste entre nós. O fato, inclusive, chama-nos à responsabilidade pelo que tornamos público e ressalta a importância do engajamento social em torno de ideias que realmente valham a pena. Isto porque, pelo menos em teoria, após algo ser aceito por uma massa crítica de pessoas, tende a ser seguido pelo resto do grupo.

    O importante é estar sempre do lado de quem pensa, tendo a humildade necessária para seguir o rebanho quando as marias estiverem indo para o lugar certo.




    segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

    Saber ou não saber, eis a questão!


    Se alguém lhe pedisse para relacionar os movimentos vegetais, você conseguiria fazê-lo prontamente? Não?! Bem, os movimentos vegetais são relacionados com o crescimento vegetal e se dividem em dois tipos, basicamente: curvatura e deslocamento. O primeiro subdivide-se em tropismo e nastismo. Ao segundo, dá-se o nome de tactismo. Pronto! E agora, com memória a refrescada, você conseguiria descrever cada um deles?

    Ora, mas talvez as ciências biológicas não sejam muito sua praia. Eventualmente, seria mais fácil se lhe perguntassem quanto vale o volume de um tronco de cone com altura h e bases paralelas de raios R, maior, e r, menor. Ou, quem sabe, qual é o cologaritmo neperiano de e elevado ao cubo. Não?! Ah, pelo menos a concentração hidrogeniônica de uma solução aquosa com pOH igual a oito, você saberia dizer... Ou a voltagem de um circuito cujas resistências iguais, ligadas em paralelo, valessem dois Ohms cada, recebendo uma corrente contínua de um Ampère...

    Caso queira alegar que sua formação tenha ocorrido na área de humanas e que, por isso, não deveria lembrar de tais assuntos tão indigestos de outras áreas, quiçá, então, possa responder como se organizava o sistema político-administrativo de Esparta nos idos do Período Arcaico. Diarquia, Gerúsia, Apela e Éforos, lembra? Ou citar duas das principais revoltas ocorridas no Brasil em meados do século XX, após a posse de Juscelino Kubitschek em 31 de janeiro de 1961? Conseguiria citar, pelo menos, as eras que compõem o período pré-cambriano?

    Perguntas difíceis, não? Pois é... Absolutamente nada além do que um aluno regular, formado no segundo grau do ensino médio, precisaria saber para prestar qualquer vestibular — como o da FUVEST que está sendo realizado desde domingo em São Paulo. Mas, permita uma última pergunta, já para ir fechando esta postagem escolar: ao entrar em contato com perguntas dessa natureza, sem qualquer especialidade superior, você não se admira com todos os seus conhecimentos?

    Este autor confessa que, após constatar a dimensão da própria ignorância em assuntos tão básicos, do colegial, desistiu — ao menos momentaneamente — de escrever sobre o Bóson de Higgs, sobre a pluripotência de células no cordão umbilical, sobre as sinédoques da filosofia laica, sobre...



    domingo, 15 de novembro de 2009

    A Ignorância Sobre a Arrogância.


    A "arrogância", assim como sua prima "ignorância", é uma palavra difícil de se utilizar. Isto se deve, provavelmente, por seu sentido estigmatizado ao longo dos anos.

    Tome como exemplo a palavra "boceta", substantivo feminino que, segundo o Houaiss, significa "caixinha redonda, oval ou oblonga, feita de materiais diversos e [usada] para guardar pequenos objetos". Segundo o mesmo dicionário, outro significado, regionalismo brasileiro do século XIX, seria o de uma "caixa de rapé". Ou uma "bolsa de borracha para guardar fumo", como terceiro significado. Mesmo assim, principalmente se você for brasileiro ou brasileira, dificilmente pensou em algum desses sentidos em primeiro lugar.

    Com a "arrogância" e a "ignorância" acontece exatamente a mesma coisa. Ignorar, por exemplo, significa desconhecer, simplesmente. Logo, poderia apostar que você, assim como eu, é ignorante! Talvez em matéria de aramaico, de ídiche, de amorfização metálica... Sei lá! Mas certamente não sabemos a respeito de tudo. Então, o que acaba dando o significado, bom ou mau, da palavra é, exclusivamente, a compreensão que cada um tem sobre a mesma.

    Uma pessoa arrogante, por exemplo, é simplesmente aquela que arroga (atribui) a si própria uma posição privilegiada em relação às demais. Isto não faz dela, necessariamente, insolente, mal-educada ou atrevida... Em maior ou menor grau, todos somos arrogantes e, por se tratar de uma característica absolutamente humana, isto não é um problema. O problema surge quando não conseguimos enxergar esta característica em nós mesmos.

    Sempre que acreditamos estarmos certos e a outra pessoa errada, estamos sendo arrogantes. Uma pessoa sem arrogância seria, digamos, indiferente a esse tipo de julgamento. A diferença entre meramente apresentar seu próprio ponto de vista e tentar fazer com que o outro pense da mesma forma é muito sutil, mas resulta em atitudes completamente diferentes.

    Uma história divertida — talvez fictícia, mas que serve para ilustrar o problema da arrogância — fala sobre uma carta que a assistência técnica de uma montadora teria recebido de um cliente, descrevendo uma falha na partida do carro novo toda vez que ele resolvia tomar sorvete de morango — e só de morango! — em um determinado local. Quando a equipe técnica, humildemente, resolveu investigar o que estava acontecendo, percebeu que a falha ocorria ao tentar religar o veículo dentro de um intervalo de tempo específico, exatamente o que era necessário para ir até a loja que vendia o sorvete de morango. Quando o cliente resolvia comprar outros sabores de sorvete em outras lojas, demorava mais ou menos que o intervalo necessário para o defeito se manifestar.

    Se, ao contrário, a equipe tivesse se mostrado arrogante, jamais teria perdido tempo para investigar o problema e desperdiçaria oportunidade para corrigí-lo. A mesma coisa ocorre com idéias e conceitos que discutimos com outras pessoas. Sem uma pré-disposição de se colocar no lugar do outro, considerando a possibilidade dos próprios conceitos estarem equivocados, não há como entender o que está sendo dito e se perde valiosas oportunidades de evolução.

    Durante a "tsunami" que varreu a costa de vários países no Oceano Índico em 2005, uma tribo local se salvou por causa de uma lenda antiga que alertava sobre o mau presságio do excessivo recuo do mar e que, quando percebessem isto, todos deveriam se refugiar nas regiões altas mais próximas. Se você estivesse lá e um nativo amigo seu tivesse invadido seu quarto lhe alertando sobre o prenúncio do mal, você teria rido de sua crença ou considerado a situação?

    sexta-feira, 23 de outubro de 2009

    Na Contramão.


    Contava a história que uma rádio noticiara a presença de um condutor guiando na contramão, em alta velocidade, em uma via expressa movimentada. Eis que ao ouvir a notícia, exclama o motorista: "Um, não! Vários!".

    A obviedade na anedota que nos faz rir usa de um comportamento humano não tão incomum como faz parecer nossa intuição. Frequentemente, estamos tão certos de uma opinião ou ponto de vista que acabamos por atropelar qualquer coisa os contradiga, sem nos permitir analisar melhor ações, ideias e situações com mais cuidado.

    Outra dessas histórias, já não engraçada, falava de um garoto que atirou um tijolo na porta de um carro importado novinho que passava pela estrada. Seu dono, transtornado de raiva, pára o carro e vai tirar satisfações com o menino que lhe explica o motivo daquilo: necessitava da ajuda de alguém para socorrer o irmão maior que caíra de sua cadeira-de-rodas e o tijolo fora a única maneira que ele encontrou para fazer alguém parar naquele lugar ermo...

    A humildade é importante não para o outro senão para nós mesmos, por evitar arrependimentos, permitir o auto-desenvolvimento e ampliar possibilidades. Na língua inglesa, por exemplo, o verbo "entender" (to understand) é formado pela justaposição de duas palavras: "under" que significa abaixo e "stand" que pode ser traduzido como ficar, permanecer. Os significados nos remete, portanto, à necessidade de nos colocarmos em um nível mais baixo para que possamos entender algo. É uma nítida alusão ao respeito e à humildade necessária ao desenvolvimento.

    Importante ressaltar, entretanto, que tolerar, compreender, respeitar, entender, etc., não implicam, necessariamente, em concordância, aceitação ou submissão. Muito pelo contrário, permite, além de identificar meios para se evitar, conter ou eliminar um problema, encontrar caminhos para comunicar um ponto de vista pessoal aos demais de maneira mais eficiente.

    Entendeu?



    domingo, 4 de outubro de 2009

    E=mc²


    No início do século passado, um físico alemão à época com 26 anos de idade, apresentou uma teoria revolucionária para toda a humanidade. Albert Einstein publicou em 1905 um artigo contendo os princípios da sua Teoria da Relatividade. Partia de duas hipóteses fundamentais: as leis da Física são iguais para qualquer observador sem importar sua velocidade e a velocidade da luz é a mesma, não interessando a velocidade da fonte.

    Parece simples, não?! Pois é muito simples mesmo! Suas consequências, porém, é que são de uma complexidade tal que até hoje não foram completamente assimiladas. A fórmula resultante do modelamento matemático indica uma equivalência entre massa e energia, relação inconcebível para a Mecânica Newtoniana.

    E para quem acha que não tem nada a ver com isto, saiba que a sua conexão via satélite para internet, TV e celular não seria possível sem o advento da Relatividade.

    Interessante notar, entretanto, como a novidade fora recebida: enquanto grandes nomes da Física mundial tentavam ridicularizar as conclusões de Einstein, outros cientistas se puseram a testar a validade da teoria, chegando a conclusão de que estava correta — ao menos dentro das condições experimentadas.

    Considerando tais comportamentos, é possível concluir que há dois caminhos apenas: o da arrogância e o da humildade. E apenas um deles leva à evolução.