quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Burrice


Se fosse possível mensurar a injustiça de um termo para com o objeto que o origina, "burrice", provavelmente, seria um dos mais injustos. Definido por Houaiss como a "qualidade, caráter ou condição de burro", o termo não faz jus ao simpático animalzinho a que se refere — equino híbrido, estéril, fruto do cruzamento de um cavalo com uma jumenta, ou de um jumento com uma égua. O bichinho, que de "burro" só tem o nome, auxilia os seres humanos desde os mais antigos e remotos agrupamentos sociais até grupos de elite da sociedade moderna. Na história cristã, por exemplo, carregou Maria grávida em sua fuga da cidade e ainda ajudou a aquecer, na manjedoura, o próprio recém-nascido menino Jesus. Mais recentemente, já neste século, durante a guerra no Afeganistão, as forças militares estadunidenses escolheram a eficiência dos burros para carregar suprimentos pelas acidentadas terras daquele país.

O curioso é que a fama de pouca inteligência dos burros vem, justamente, de um hábito muito perspicaz e saudável que esses animais possuem de tomar cuidado em qualquer lugar por onde passam. Entretanto, mesmo poupando a espécie de vários problemas potencialmente fatais, como quedas e fraturas, houve quem julgasse a peculiar característica como um sinal de estupidez, apenas porque confere à classe uma lentidão e "teimosia" não percebida no comportamento usual dos cavalos, por exemplo, por vezes considerados mais "inteligentes". Assim, parece evidente que se a questão for considerada sob uma perspectiva "darwiniana" de preservação da vida, a ideia de burrice dos burros, tão amplamente difundida pelo senso comum, está fundamentalmente errada.

Mas é na contemplação de uma sociedade cosmopolita, existente em megalópoles como São Paulo, e de inúmeros detalhes do seu cotidiano que se pode constatar tão patente equívoco. Basta usar algum dos precários serviços de transportes público da cidade para notar que nunca há burros — animal — ocupando assentos reservados enquanto idosos, gestantes e portadores de alguma deficiência se sacrificam na viagem em pé nos veículos lotados. Também não se vê um único burro sequer empacando o fluxo de pessoas que tentam entrar nos vagões de trem antes do desembarque dos passageiros que ali estão. Não se vê pares de burros estacionados nas escadas e esteiras rolantes barrando a passagem, nem bloqueando acessos a qualquer outro veículo ou lugar. Os burros também não ameaçam, avançam ou atropelam pedestres cruzando as vias nas faixas de segurança, nem votam, perpetuando pessoas, ideologias e partidos que atravancam um consistente desenvolvimento social, econômico e ambiental da cidade e do estado.

Ainda bem que os burros não costumam reclamar...


domingo, 31 de julho de 2011

Sob a Cidade


Ao caminhar apressadamente pelas ruas da cidade, como costuma exigir nosso moderno cotidiano, é difícil dar-se conta de quanta coisa jaz sob esse cenário aparentemente tão trivial e estéril de uma metrópole. Mas com um pouco de atenção, é possível perceber o mosaico de existências dos tantos que por ali passaram, viveram e morreram, vindo, daí, uma nuança de sentido da cidade ser como a percebemos hoje: consciente ou inconscientemente, assim a imaginaram um dia... E como tudo estará daqui alguns séculos?


domingo, 5 de junho de 2011

Meia-esperança


Esperança é o nome vulgar dado aos insetos ortópteros da família dos tetigoniídeos mas, também, designa um sentimento humano valiosíssimo, capaz até de manter vivo alguém que se encontre em situações praticamente insuportáveis. Contrastando com essa concretude do inseto, não seria exagerado dizer que o sentimento de esperança é quase tão abstrato quanto um ato de fé, nem seria de se admirar se acaso o reivindicassem como autêntica instituição cristã. Afinal, o que melhor traduziria a disposição de se suportar agruras presentes sem reais evidências de um futuro melhor? Seja como for, fato é que esperança não pode nunca faltar no repertório emocional humano. Quem nunca ouviu a famosa máxima popular: "a esperança é a última que morre"? Basta que a pessoa que já tenha experimentado certas situações na vida para saber que, sem esperança, tudo parece mesmo perder a importância, inclusive a própria vida.

Para não se apagar, entretanto, a chama da esperança parece necessitar de algum combustível. O solitário que tem um sorriso retribuído, por exemplo, mantém a esperança de, algum dia, deixar para trás a solidão. O moribundo que se sente um pouco melhor guarda a esperança de se recuperar definitivamente. O miserável que consegue se alimentar sente aumentar sua esperança de não mais passar fome. Ao ser chamado para uma entrevista, o desempregado renova suas esperanças de permanecer com sua dignidade. É o melhorar, o progredir no sentido de uma situação mais adequada, portanto, que acaba servindo como "evidência" de que um futuro melhor seja possível, alimentando, assim, a esperança dos seres humanos.

O regredir, por outro lado, vai corroendo qualquer vestígio de esperança que insista em resistir. Ao ver milhões de reais sendo usados para concretar o que restou de terra nas marginais dos rios, ao sofrer com o aumento dos carros devido à precariedade do transporte público nas grandes cidades, ao constatar o pouco caso da administração pública e de muitos cidadãos com toda e qualquer questão que envolva a sustentabilidade das zonas urbanas, ao acompanhar um código florestal ser transfigurado ao sabor de interesses político-econômicos pela casa que representa o povo, a esperança de que nosso meio se tornará melhor vai minguando, pouco a pouco. Tudo, talvez, não passe de mero detalhe, tal como um hífen entre duas palavras, mas que, para mentes mais atentas, pode fazer toda a diferença para se manter viva a esperança neste meio ambiente.

Viva o Dia do Meio-ambiente!

domingo, 15 de maio de 2011

Filme de terror moderno


Imagine se, algum dia, uma potência mundial declarasse um único homem culpado por um dos maiores atentados terroristas que se tivera notícia na história da sociedade moderna, mesmo não havendo compatibilidade entre sua condição de vida e o grau de sofisticação necessário para organizar uma ação de tamanha complexidade e magnitude. Imagine, ainda, se o acontecido fosse usado para justificar, não apenas a aprovação de leis que cassassem inúmeros direitos civis individuais de toda a população, como também uma série de intervenções militares desse país em outros, soberanos, que coincidentemente guardassem recursos naturais preciosos, escassos e estrategicamente relevantes.

Imagine se, por causa disso, boa parte da riqueza do planeta fosse destinada às atividades bélicas e não à saúde, educação, assistência social, cultura e meio-ambiente. Se os jornais e os veículos de informação de massa deixassem de denunciar condições sub-humanas de existência, mau uso de recursos públicos e tantos outros problemas sociais, para noticiar, exclusivamente e por anos, cada uma das razões que justificassem as ações arbitárias decorrentes daquele fatídico evento, procurando convencer veladamente a maioria da população de que a saída adotada era única e, inquestionavelmente, a melhor.

Imagine se, depois de tudo isso, militares daquela mesma potência invadissem outro país soberano, sem qualquer aviso ou consentimento, para assassinar aquele homem, sumir com o seu corpo e ainda acusar o país invadido de colaboração com o terrorismo. E se, à medida que a opinião pública mais esclarecida condenasse tal atitude, aquele país começasse a divulgar supostos acordos secretos firmados com o país invadido que pudessem legitimar suas ações. Pior, imagine se parte de sua população literalmente festejasse nas ruas o assassinato daquele homem, se a popularidade do presidente aumentasse e se praticamente toda a mídia, que — misteriosamente — noticiava sobre o personagem que seria morto semanas antes, também manifestasse apoio a tudo aquilo...

Daria um filme, não?! Ainda bem que esse tipo de coisa não acontece na vida real...


sábado, 30 de abril de 2011

Encontros


"— Como?!

A pergunta, apesar de sinceramente interessada, não deixava dúvidas quanto à incredulidade que lhe ia no ser. E a despeito da proposta estapafúrdia que recebera, ainda não havia conseguido identificar ao certo se seu interlocutor estava caçoando dele ou não, tamanha era a sobriedade com que lhe fora colocada.

— O que, exatamente, o senhor não compreendeu?
— Por um instante me pareceu que o senhor propunha comprar meu tempo, literalmente?!
— Sim. E que mal há nisso?
— Que conversa mais absurda! Desde quando é possível para alguém adquirir o tempo de outrem?
— Desculpe, mas isto é um problema meu. Deseja vendê-lo ou não? Pago por minutos e pago muito bem...

Pensou em reagir, mas encerrou aquela conversa bizarra de forma educada, imaginando que, talvez, aquele senhor pudesse sofrer de algum distúrbio mental. Seguiu seu caminho, mas logo foi detido, um pouco mais adiante, por um antigo conhecido seu.

— Ora, mas que surpresa agradável encontrá-lo por aqui! Há quanto tempo não nos falamos!
— Pois é... Muito, não?! Como vai a família?
— Ótima! Meus filhos se casaram há alguns anos e meus netinhos já estão a caminho...
— Mas já? Ainda ontem eu os carregava no colo!
— As décadas voam, não? E aquele seu projeto da grande viagem com toda a família, realizou?
— Infelizmente, não. Ainda não tive uma folga no trabalho...
— E aquela sua ideia de criar uma fundação beneficente?
— E lá tive algum momento meu para pensar nisso? Tenho trabalhado demais...
— Bom, pelo menos deve estar bem financeiramente. Logo, logo poderá diminuir o ritmo e aproveitar o que a vida tem de melhor...
— Sem dúvida que sim! Mas, agora, com licença. Estou com um pouco de pressa pois tenho de chegar no banco antes que termine o expediente. Hoje é o último dia para aproveitar umas taxas de juros diferenciadas em empréstimos pessoais. De qualquer forma, foi ótimo nos encontrarmos por aqui! Nunca sobra tempo para colocarmos a prosa em dia, não é mesmo?! Lembranças à família!

Despediram-se apressadamente enquanto, ao longe, um senhor sóbrio os fitava demoradamente...
"

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A paradoxalidade humana


Pessoas são paradoxais. Para quem não sabe, paradoxal é algo que não parece ter um sentido lógico ou é, à primeira vista, contraditório. Essa paradoxalidade acaba se manifestando no comportamento humano nas mais variadas formas. Um caso típico é quando uma pessoa age de uma forma diversa daquela que diz, quer ou pensa que deveria agir. Quem não tem, por exemplo, um conhecido que, preocupado em preservar a saúde, ingere exclusivamente alimentos orgânicos, mas fuma? Ou que, visando a boa forma física, troca o açúcar do cafezinho pelo adoçante, após um lauto jantar em um rodízio de pizzas? Ou que trabalha em uma função que não suporta, ou que se divorcia por medo de se separar do cônjuge, ou que professa uma religião na qual não crê, ou que se gradua em uma área que já se decidiu por não seguir, enfim, há uma lista tão ordinária quanto extensa de situações humanas que permitem dispensar quaisquer referências científico-acadêmicas para embasar a afirmação feita no início do texto.

Ainda nesse campo das "informalidades científicas", pode-se dizer que há duas características nos paradoxos humanos que costumam deixá-los ainda mais intrigantes. A primeira, intrínseca à própria concepção do termo, é que não existe, necessariamente, contradições ou falta de lógica nesses comportamentos. Há, sim, uma certa "intencionalidade" que procura conduzir os mais incautos — inclusive o próprio autor do paradoxo — a equívocos de raciocínio que levam a uma falência lógica da conclusão. Em outras palavras, a situação proposta esconde, ou omite, propositalmente, informações essenciais para que se possa chegar a uma conclusão logicamente adequada. Não por acaso, a teoria sobre o inconsciente, proposta por Freud, há quase dois séculos atrás, ainda é inspiração para inúmeros estudos até os dias de hoje.

Já a segunda característica, mais complexa, reside no âmago da natureza humana e se refere à forma como tais comportamentos são notados pelas pessoas. A paradoxalidade costuma ser mais facilmente percebida nos outros e menos em si mesmos. Identificar os próprios comportamentos como paradoxais exige um certo grau de auto-conhecimento difícil de se adquirir. Talvez esta seja uma razão das muitas que expliquem o porquê de, quase sempre, percebermo-nos mais normais, mais justos, mais corretos, etc., que os demais. Seria fácil acreditar que isto é verdade, não fosse o fato de que somos os outros na visão dos outros... Paradoxal, não?!

Este autor será, por exemplo, obrigado a reconhecer que, se esta não fosse sua própria postagem, seria bem mais fácil divisar as razões que a levaram ser publicada tão tardiamente, mesmo tendo sido pensada tanto tempo atrás...


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Feliz Aniversário!


Pode-se dizer que praticamente todos os paulistanos e paulistanas, compreendem bem o significado do termo "mulher de malandro", porque não importa o quanto a cidade os maltrate, o amor por São Paulo não termina nunca. Curiosamente, esse termo foi popularizado, na década de 1930, por dois cariocas, o compositor Heitor dos Prazeres (1898-1966) e o intérprete Francisco Alves (1898-1952), que gravaram o samba Mulher de Malandro, em 1932, ganhando o primeiro prêmio oficial de músicas carnavalescas. A letra da música dispensa quaisquer comentários explicativos:

"Mulher de malandro sabe ser
Carinhosa de verdade
Ela vive com tanto prazer
Quanto mais apanha
A ele tem amizade
Longe dele tem saudade
(...)
Ela briga com o malandro
Enraivecida, manda ele andar
Ele se aborrece e desaparece
Ela sente saudade
E vai procurar
(...)
Muitas vezes
Ela chora
Mas não despreza o amor que tem
Sempre apanhando e se lastimando
E perto do malandro
Se sente bem
"

Hoje, por exemplo, no dia do 457º aniversário da cidade, São Pedro — colega de trabalho de São Paulo — mandou uma chuva de verão básica, no final da tarde, só para refrescar o dia quente de verão que alegrou todo o feriado paulistano. Nada muito diferente dos anos anteriores, mas o suficiente para instalar o caos em muitas regiões da cidade, principalmente na periferia, onde reside a maior parcela da população menos favorecida. Como bons sofredores, a maioria dos paulistanos e paulistanas sabem que a administração pública nada teve a ver com tudo isso, afinal, vêm, democraticamente, reelegendo os mesmos representantes há anos. A culpa, obviamente, é de São Pedro que errou a mão outra vez...

Mas se sobra sofrimento com o transporte público caro e precário, com os congestionamentos, com a poluição, com a sempre deficitária assistência social e de saúde, com a violência e com tantas outras mazelas típicas do maior agrupamento urbano da América Latina, sobram, também, oportunidades, disponibilidade de serviços, vanguardas empresarial e econômica, diversidade ideológica, cultural, política, social, étnica, religiosa, além de todo amor dos que, apesar de sofrerem, não pediram para sair mas, ao contrário, continuam aqui, trabalhando muito para melhorar São Paulo e o Brasil. Porque, como lembrado na bandeira*, os verdadeiros paulistanos e paulistanas não têm a menor vocação para "mulher de malandro" e conduzem a cidade para que melhore sempre, não sendo nunca conduzidos por ela. Então:

Parabéns, São Paulo!


* Non ducor duco (não sou conduzido, conduzo): lema inscrito no brasão da cidade de São Paulo.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Votos na Véspera


Papai Noel, leitor do Automorfo, mesmo absolutamente assoberbado com todas suas obrigações natalinas, arrumou um tempinho para questionar este autor sobre o porquê do sumiço. Recebeu como resposta o mesmo que a maioria dos seres humanos contemporâneos respondem ao terem alguma falta de suas ações questionada, a saber: falta de tempo. Logo começou um verdadeiro debate sobre as diferentes visões sobre o modelo de vida ideal que as pessoas ditas "normais" deveriam levar ao longo de suas existências.

Papai Noel é um excelente interlocutor e costuma apresentar inúmeros argumentos lógicos para sustentar seus pontos de vista em qualquer discussão, mas nunca se limita a isso, acrescentando, com maestria, uma série articulada de raciocínios que, apesar de serem passíveis de refutação por petição de princípio em interpretações estritamente cartesianas, mostra-se absolutamente válida em um contexto social e humano. Na ocasião, entretanto, todas suas objeções quanto à impossibilidade de se encontrar algum tempo disponível para se postar algo foram rebatidas, uma após a outra. Não havia, de fato, a menor chance de ele estar com a razão se fosse considerada a conjuntura como um todo.

No final da conversa, já preocupado com o crescente atraso na programação de suas tarefas, Papai Noel disse que, simplesmente, era uma questão de prioridades, não havendo, portanto, qualquer justificativa válida que pudesse ser apresentada contra tudo o que havia falado. Ouviu como explicação que esse era, exatamente, o problema e ainda recebeu como pedido de natal mais algum tempo, além do que era destinado a todos os seres. Disse que, tempo para dar, não tinha nem para ele, mas que adiantaria, como presente, um pouco da sua própria experiência, explicando que o estabelecimento de prioridades era responsabilidade exclusiva da própria pessoa. Já montava em seu trenó quando este autor sorriu e disse: "Papai Noel, você não existe mesmo!".

Assim sendo, decidiu-se que o Automorfo não deixaria de lhe desejar um excelente natal e dias ainda melhores que os anteriores nesse ano que se achega, extensíveis, claro, a sua família e entes queridos! Boas festas!


domingo, 17 de outubro de 2010

Haikai Narcísico



O mito de Narciso nasceu na mitologia greco-romana, tendo atravessado os séculos e influenciado sobremaneira a cultura ocidental. Conta a história que Eco, uma bela jovem apaixonada por Narciso, definhou até a morte por não ter seu amor correspondido. A deusa Nêmesis, então, condenou Narciso a se apaixonar por seu próprio reflexo na água, levando-o ao mesmo destino de sua pretendente. Muitos anos mais tarde, em 1914, Freud acabou se inspirando na história para lançar seu modelo psicanalítico: o narcisismo. Ele acabou concluindo que não é bem com os olhos que o Narciso em nosso interior enxerga o próprio reflexo...


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Mensagens das urnas...


A primeira etapa da grande "festa" democrática terminou e o resultado, surpreendente ou não, pode revelar muito sobre o pensamento atual dos eleitores brasileiros. Há que se tomar um certo cuidado com análise, entretanto, uma vez que, visível apenas de uma ótica estatística, nada, ou muito pouco, tem a dizer sobre pensamentos individuais ou de minorias. Por outro lado, sem se adotar uma perspectiva distante, jamais seria possível vislumbrar, no conjunto, as inclinações ideológicas que orientam toda a nação. A extrema relevância deste ponto de vista se justifica pelo fato de, na vida em sociedade, todo poder emanar das maiorias. E como suas opções visam atender, justamente, a maioria desses interesses, pode-se dizer que, tecnicamente, sempre estarão com a razão.

Um excelente exemplo a ser analisado é o do estado de São Paulo, onde não haverá segundo turno nestas eleições. Pode-se afirmar, de forma pragmática, que a maioria absoluta dos eleitores acreditam que a situação em que o estado se encontra, já há décadas, está adequada e atende às necessidades de sua população. Mais da metade dos eleitores escolheram manter os rumos das políticas públicas atuais, utilizadas pelo estado mais rico da federação para solucionar questões como o baixo nível da educação pública paulista, o aguçamento das desigualdades sociais no estado, a banalização da violência urbana, a degradação do meio ambiente, a dificuldade no acesso da população mais carente a serviços públicos essenciais, etc. Não há muito o que se discutir, o resultado é suficientemente sucinto e claro: a maioria dos eleitores acha que nada deve mudar na política estadual nos próximos quatro anos.

Já no cenário nacional, parece que não foi bem esse o consenso. A mensagem implícita no resultado da votação foi tão clara quanto a outra: mais da metade dos eleitores não deseja que as políticas públicas federais continuem, exatamente, da mesma forma. A ampla maioria dos eleitores entendem que, a despeito das inúmeras conquistas sociais e do desenvolvimento econômico singular do Brasil, não há mais como tolerar o descaso com o meio-ambiente, a canalização de dinheiro público para o setor privado por meio do pagamento de juros abusivos, a negociação de posições em troca do apoio de partidos e políticos oportunistas, etc. A diferença da esfera estadual é que, no segundo turno, a escolha se polarizará e os eleitores se verão na difícil tarefa de escolher, não entre dois candidatos, mas entre duas propostas distintas de governo. Como os partidos de ambos os candidatos já exerceram as mesmas funções no Poder Executivo, pode-se ter, pelo menos, uma noção prévia do desempenho de cada um.

E em 31/10/2010, dia do segundo turno das eleições, caberá novamente à maioria decidir se prefere que o país siga na direção em que está ou retorne àquela adotada há oito anos atrás.


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Dilema ideológico


A caminho das eleições, as caixas de mensagens eletrônicas vão se abarrotando e se pode encontrar de tudo: pesquisas amadoras contradizendo pesquisas profissionais, comparativos "imparciais" entre históricos dos candidatos, interpretações inéditas da legislação, enfim, uma enxurrada de propagandas políticas travestidas de argumentos lícitos e imparciais. No embate ideológico virtual, usualmente envolto em uma anonímia conveniente, defensores de todos os lados opinam tão livremente que é possível, ao leitor mais atento, ter uma boa amostra do que se passa na cabeça de uma parte da sociedade. O amplo espectro de opiniões trazem à tona o que há de melhor e de pior nos seres humanos, tal como visto em uma das mensagens, digna de destaque por, primeiro, carregar um ranço preconceituoso repugnante e, segundo, porque o autor, anônimo, provavelmente sequer deve suspeitar que carrega tal preconceito em si, ou teria vergonha de ter escrito tamanha estupidez.

O referido texto chamava à ação os eleitores do candidato que representa a social-democracia, segundo melhor colocado nas pesquisas de intenção de voto, devido ao iminente risco da candidata da situação ganhar as eleições em primeiro turno. Propunha que eles, o autor e seus amigos, parassem de trocar mensagens eletrônicas sobre "o que já sabiam" e passassem a conversar com pelo menos duas outras pessoas por dia para convencê-las a votar no dito candidato. Não bastasse isso, ainda especificava quem seriam essas pessoas: "sua" assistente doméstica ou diarista; "seus" funcionários; o guarda e as "tias" da escola e da cantina; o porteiro da "sua" casa e trabalho; o manobrista do "seu" carro; o ascensorista do prédio do "seu" dentista, do "seu" advogado e do "seu" cliente; o frentista; a caixa do supermercado, da farmácia e do sacolão; a recepcionista da empresa do "seu" cliente; a vendedora da loja de sapato e de roupa; o garçon [sic]; o cabeleireiro; a manicure; a fisioterapeuta; a massagista; o atendente da sauna, da academia, da escola de natação, da escola de inglês das crianças, etc. Enfim, qualquer cidadão ou cidadã que, apesar de trabalhar duro e contribuir com a sociedade, não compartilha da formação, inteligência, superioridade e discernimento do autor e de "seus formadores de opinião".

Ao invés de também opinar sobre a barbaridade acima, talvez algumas definições, encontradas em qualquer "pai dos burros", sejam mais esclarecedoras e úteis:

  • Social: "concernente à sociedade; concernente à amizade e união de várias pessoas" (Houaiss, 2001). "Da sociedade, ou relativo a ela; sociável; que interessa à sociedade" (Aurélio, 1994).
  • Democracia: "governo do povo; governo em que o povo exerce a soberania; sistema político cujas ações atendem aos interesses populares; (...) sistema político comprometido com a igualdade ou com a distribuição equitativa de poder entre todos os cidadãos" (Houaiss, 2001). "Governo do povo; soberania popular; doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição equitativa do poder, ou seja, regime de governo que se caracteriza, em essência, pela liberdade do ato eleitoral, pela divisão de poderes e pelo controle da autoridade, i. e., dos poderes de decisão e execução; (...) as classes populares; povo, proletariado" (Aurélio, 1994).

Então, fica o dilema: o candidato, se eleito, deveria ou não, responder positivamente aos anseios de seus eleitores?



terça-feira, 14 de setembro de 2010

O preço das diferenças


Ontem a BBC veiculou uma notícia sobre a notificação feita pelo Pentágono ao Senado estadunidense, dando conta de um acordo para vender armas ao governo saudita no valor de US$ 60 bilhões. A Inteligência estadunidense estima que o acordo poderá manter cerca de 75 mil empregos nas indústrias bélicas do país e o porta-voz do Departamento de Estado, a despeito da polêmica, deixou claro que os EUA não tomariam qualquer atitude que pudesse comprometer o equilíbrio de forças na região. A Arábia Saudita, aliada dos EUA no Oriente Médio, é uma das maiores compradoras de equipamentos bélicos do mundo entre as nações em desenvolvimento, com negócios estimados em mais de US$ 36 bilhões entre os anos de 2001 e 2008. Na década de 1980, quando os EUA se negaram a vender armamentos ao país, a Arábia Saudita acabou comprando a maioria de seus aviões militares do Reino Unido.

Considerando as diferenças político-ideológicas entre os dois mundos, anglo-saxão e árabe, não há como não se admirar com um anúncio dessa natureza. Por outro lado, talvez essa admiração mostre, apenas, a enorme distância entre o que é "dado a entender" nos meios de comunicação de massa e a realidade, nua e crua. Depreende-se de tal fato que o radicalismo capitalista seja ainda mais efetivo que o religioso, uma vez que, no cenário em questão, não parece ser bem os ideais aquilo que orienta as relações comerciais ou ações militares entre os Estados — senão o capital, fundamentalmente. São critérios financeiros, não ideologias, que geralmente definem a interferência de uma nação para impedir que nativos se matem, pessoas morram de fome, crianças definhem em condições sub-humanas, etc.

Além disso, não deixa de ser curiosa a lógica que permeia todo o sistema, na qual, para se garantir a vida de alguns, ameaça-se a vida de muitos outros — afinal, não se produziria armas de guerra não houvesse a intenção de utilizá-las. E, apesar de pouquíssimos indivíduos realmente lucrarem com essa lógica perversa, muitos acreditam também ganhar com o processo, nem que seja somente pelos empregos gerados na indústria bélica. O que não costuma ficar evidente, no entanto, é a inversão de valores proporcionada por um modelo em que a "indústria da morte" passa a sustentar a vida. Só para se ter uma ideia um pouco mais clara da situação, estima-se que, no ano passado, quase US$ 1,5 trilhão tenham sido empregados em gastos militares em todo o mundo — pouco mais de US$ 200 per capita.

Nada como um vultoso volume financeiro para aproximar ideologias, superar sectarismos e, principalmente, sujeitar a vida ao capital.


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Fim


"Ele terminou de almoçar e desejou sentir na comida algum sabor diferente que tivesse a capacidade de lhe marcar, de alguma forma, aquela última refeição. Apesar de conformado quanto a inevitabilidade do fim, não conseguia afastar, de forma eficaz e duradoura, os sentimentos mais profundos que insistiam em lhe sufocar. E ao mesmo tempo que seu lado racional o apressava, sua alma suplicava, lamuriosa, para permanecer ali por mais alguns instantes apenas. A despeito de toda emoção, externamente, não escapava sequer uma brisa de todo o furacão de pensamentos que lhe varria os cantos da mente, tanto que sorriu e respondeu com naturalidade a quem lhe dirigiu um amistoso 'até amanhã'. Era curioso que só agora notasse o quão especial eram aquelas palavras tão triviais...

Seu humor lhe deixou ficar, por alguns minutos, com o olhar vago, mas o senso de responsabilidade logo o alçou daquele estado inerte, jogando-o, novamente, na amarga realidade a ser enfrentada, afinal, ainda havia muito o que fazer antes do momento derradeiro. Ajeitou suas coisas, levantou-se da mesa já arrumada e seguiu o caminho que lhe era tão familiar. Condenava-se por não ter reparado mais, ou se espantado mais, com as peculiaridades dos detalhes banais que abundavam naquele lugar. Cada ressalto no chão, cada objeto comum, cada odor conhecido, cada ruído que tantas vezes ouvira, despertavam-lhe, naquele momento, uma saudade imensa, sem sentido, irracional e incontrolável. Sentindo o coração apertar, sacudiu involuntariamente a cabeça a fim de espantar o arrependimento que lhe absorvia e tornou a se concentrar no seu caminho.

Quem o visse sozinho, guiando o carro em direção de casa, perceberia, sem dificuldades, a tristeza que se manifestava, transfigurando sua fisionomia. Considerava intrigante que dentre tantas reflexões que lhe assaltavam de modo recorrente, uma lhe fosse, particularmente, dolorosa: a percepção de que nada mais seria igual a partir de então. 'Bobagem!', ouviu-se gritar, pois, no fundo, sabia perfeitamente que os acontecimentos sempre mudam o futuro de forma definitiva. A dor que lhe incomodava, efetivamente, talvez se originasse da constatação de só ter aceitado a ideia, assim, tão tarde e somente no fim...
"


domingo, 12 de setembro de 2010

Soneto Automórfico


Estagnar-se em uma realidade que está em constante transformação, definitivamente, não é uma boa ideia. Por outro lado, transformar-se a ponto de perder a própria essência tampouco resolve o problema. O Automorfo foi pensado de forma a mudar sempre, mas sem perder algumas características próprias importantes. Neste último domingo, antes do aniversário deste blog, tentou-se transformar esse sentimento em poesia. E o verbo tentar não está empregado por acaso porque, de fato, não é nada fácil se fazer entender quando a poesia é restrita às rígidas exigências métricas de um soneto. Menos ainda quando o soneto se transforma, também, é um acróstico. Mas, como dito em outra ocasião, tentar é preciso; acertar não é preciso. A propósito, caso não saiba ou não se lembre do que é um acróstico, basta ler com atenção para descobrir...


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Sob tensão


Quando um cupim usa uma secreção para aglomerar e endurecer a terra que molda a habitação de sua colônia, está transformando elementos disponíveis na natureza de forma a atender propósitos específicos de sua espécie. O mesmo ocorre com um pássaro, joão-de-barro, quando mistura fibras vegetais e lama para construir seu ninho. Aliás, a rigor, qualquer síntese orgânica também poderia ser encarada como uma transformação, mesmo que em um nível não intencional, de elementos naturais em materiais úteis à perpetuação da espécie que a sintetiza. Nenhum outro ser, entretanto, chegou próximo da habilidade que os humanos possuem para, intencionalmente, produzir e processar diversos tipos de materiais, desde meras ligas metálicas — obtidas a partir de óxidos minerais — até a produção dos materiais altamente elaborados e tecnológicos que delas se originam. Mas, naturalmente, a gênese de um novo material pode, também, trazer consigo efeitos inéditos de sua interação com o meio ambiente, responsáveis, às vezes, por falhas inusitadas nas estruturas construídas com esses materiais.

Uma dessas falhas é a chamada corrosão-sob-tensão que ocorre subitamente e, em geral, com consequências catastróficas. A corrosão-sob-tensão não é um processo sinérgico e se caracteriza por apresentar múltiplas trincas, face lisa da fratura e praticamente nenhuma perda de material ou danificação da superfície. Ocorre apenas com certas combinações entre ligas metálicas e condições ambientais bastante específicas, envolvendo, necessariamente, tensão de tração (residual ou aplicada) e meio corrosivo bem pouco severo. Um exemplo é o episódio chamado de "season cracking", caso clássico de falha por corrosão-sob-tensão. Conta a história que quase todos os cartuchos de munição, armazenados por tropas inglesas em abrigos improvisados nas selvas indianas, durante o período das monções, foram encontrados totalmente inutilizados (trincados). O caso só foi esclarecido no início da década de 1920, quando cientistas apontaram a umidade condensada com traços de amônia, proveniente da urina dos cavalos, sobre as cápsulas de latão estampado a frio — e portanto, submetido a altas tensões residuais de tração devido ao encruamento — como sendo a causa da falha.

Outros exemplos de combinações suscetíveis à esse tipo de falha são os de aços de baixa resistência submetidos a meios cáusticos (presença de soda cáustica, NaOH), de aços austeníticos na presença de ânions de cloro (Cl¯), além de certas ligas de alumínio de alta resistência, usadas principalmente na indústria aeronáutica, que também falham por corrosão-sob-tensão na presença de umidade — ou seja, água, apenas. Felizmente, uma vez descobertos os modos de falha, é possível evitá-los, contornando suas causas, alterando aplicações ou, simplesmente, abolindo, definitivamente, o uso do material em certas condições críticas. Os responsáveis por essas engenhosas medidas são, em sua grande maioria, os vários engenheiros das mais diversas áreas que, trabalhando colaborativamente, são capazes de transformar em realidade muitos dos sonhos humanos.

Aliás, se aviões fabricados em alumínio de alta resistência continuam voando por aí em dias de chuva é porque os engenheiros, sob tensão para realizar um dos maiores sonhos da humanidade, chegaram à conclusão que pintar a estrutura seria muito mais inteligente e barato do que substituir todo aquele material...