terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Profissões Admiráveis


Dentre as inúmeras atividades humanas, uma das mais admiráveis é a política. E antes que você comece a duvidar da sanidade mental do autor deste blog, sugiro que, primeiro, leia o texto até o final para, só depois, tirar suas próprias conclusões a respeito da afirmativa, ok?!

Pois bem, é um hábito admirar o trabalho daqueles cuja ocupação é mais complexa ou perigosa que o usual, tal como um soldador-mergulhador de plataformas marítimas de petróleo, pilotos de caça ou astronautas. Ou mesmo de profissionais tradicionais, mas cujos resultados superem a média das expectativas, como engenheiros com técnicas inovadoras, hábeis advogados engajados socialmente, médicos abnegados, artistas de estética inquestionável, filósofos, psicólogos, professores, administradores, enfim, uma verdadeira miríade de trabalhadores admiráveis, cada qual na sua área específica de atuação.

Há, entretanto, inúmeras outras profissões pouco admiradas, porém, não menos importantes. O que dizer dos garis que, a despeito do pouco caso de muita gente formada, mantém o asseio das áreas comuns nas cidades grandes? Ou das cozinheiras responsáveis por alimentar um batalhão de crianças — talvez até um filho seu — nas escolas públicas? E se ainda não percebeu o altíssimo valor do trabalho dessas pessoas, basta comparar as diferenças no seu ambiente de trabalho após as ausências, primeiro, de seus superiores e, depois, do pessoal da limpeza, por apenas uma semana. Verifique quem fará mais falta... Sem mencionar o fato de que raríssimas pessoas trocariam de lugar com esses trabalhadores, mesmo sem redução de seus ganhos atuais.

E é mais ou menos neste pé que entra a citada admiração pela política. Para uma pessoa de princípios, deve ser tudo, menos fácil, ter de assumir, publicamente, determinadas posições políticas. Imagine-se tendo de apoiar, ou não, o aumento de mais de 90% do próprio salário enquanto vota a favor, ou contra, a elevação da alíquota de imposto, ao mesmo tempo em que milhares de pessoas sofrem as agruras de alguma catástrofe "natural". Vizualize-se em uma reunião anual de planejamento orçamentário, com assessores lhe assoprando nos ouvidos inúmeros dados, como o aumento de X% na mortalidade infantil e Y% na taxa de homicídios, enquanto o povo aguarda sua decisão se vai ou não liberar o dinheiro — o único disponível para todos os problemas — para abrir mais vagas, necessárias há anos, nas escolas e creches públicas.

Mesmo para os de moral, digamos, manca, deve ser algo complexo manter-se incólume em meio aos disparos, cada hora de um lado. A vida de um político de conduta dúbia deve ser tão eletrizante quanto uma apresentação de mágica, na qual um cara amarrado, acorrentado e trancafiado em um cofre atirado ao mar, tem de sair ileso da situação em apenas alguns segundos — e sai! Da mesma forma, parece nunca haver saída para o político moralmente manco, uma vez que não importa muito o que faça — certo, errado ou nada — ele sempre está sob risco de ser fuzilado por algum dos lados, seja pelos seus pares, opositores ou eleitores — mas, raramente o acertam! Por causa de tudo isso, tanto quanto as demais ocupações preteridas, também bem pouca gente se disporia a viver dessa maneira.

Portanto, esqueçamo-nos dessa história de "vida fácil" dos políticos e, como ativos participantes de um legítimo sistema democrático, concentremo-nos nas nossas próprias atitudes, de forma a torná-las efetivas na construção de uma sociedade melhor. Como comentado em outra postagem, "Brasília", os políticos que aí estão representam de forma relativamente fiel o conjunto da sociedade brasileira. Porque, enquanto parte dos cidadãos continuar escolhendo seus representantes com base nos benefícios que terá para si, sempre haverá parte dos políticos agindo da mesma forma, ou seja, também buscando auferir benefícios para si e não para os outros — que, neste caso, somos nós.



segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Nostalgias Econômicas


Quem já teve a oportunidade de aprender um pouco sobre a Ciência Econômica, ou Economia, para os íntimos, deve ter notado que a organização social se estrutura, necessariamente, com base no modelo econômico adotado por aquela sociedade. Algumas coisas, entretanto, são comuns a qualquer modelo, tais como as indústrias, ou produtores, e as famílias, ou consumidores. Sem querer ser excessivamente minimalista, pode-se afirmar que, basicamente, é essa relação, entre produtores e consumidores, que efetivamente determina os rumos do mercado.

Ainda me lembro de, quando criança, ter ficado deslumbrado com uma novidade eletrônica que começava a aparecer no mercado brasileiro: um microcomputador TK-85. Recordo-me de meu primo nos mostrando seu novíssimo exemplar que, com programação em BASIC adequada, era capaz de fazer uma linha — ou quem sabe um rio visto de muito, muito alto — mudar de cor no televisor. Fiquei tão maravilhado que infernizei meus pais durante todo o ano para comprarem um igual para mim. No natal, veio a surpresa: meu pai — à época também afeito àquelas modernidades — comprou um microcomputador ainda mais moderno que o TK-85, um Expert MSX da Gradiente! Óbvio que eu não tinha noção de quanto aquilo custara, mas receio, hoje, ter sido bem caro.

Era um sonho! Com seus infinitos 64 KB de memória, era muitíssimo mais poderoso que o ultrapassado TK-85 do meu primo. Com 16 cores e um canal de som, rodava jogos variados e até uma planilha eletrônica! A armazenagem dos dados era feito por um gravador de fitas cassetes e o sistema operacional vinha gravado na memória ROM da máquina. Era possível programar em BASIC, Assembler e código de máquina, além de executar compiladores para várias outras linguagens como LOGO e Lotus123. Depois vieram os PCs e, já na faculdade, minha calculadora HP 48G tinha mais memória que o meu primeiro microcomputador. E, hoje, todos os 128 KB da calculadora não armazenariam uma única imagem em alta resolução.

Mas, talvez você já esteja se perguntando: o que a Economia tem a ver com a pré-história da informática? Pois bem, eu explico. De lá para cá, o custo do byte armazenado caiu de alguns dólares para virtualmente nada! Não faz muito tempo, um cartão de memória de 1 GB para minha máquina fotográfica digital custava R$ 700,00 nas galerias da rua 25 de Março. Atualmente, com menos de R$ 200,00, você pode entrar em qualquer shopping da cidade e sair com o mesmo cartão só que com 8 GB. E o motivo para essa queda absurda dos preços surge, exatamente, da relação entre os produtores e consumidores.

Em um mercado cujo potencial de consumo possa, virtualmente, ser considerado infinito, os produtores investem ininterruptamente em escala e tecnologia para derrubar o custo dos produtos e, com isso, aumentarem suas margens de lucro. Sem consumidores, entretanto, não há investimentos e o produto, ou encarece — no caso dos essenciais —, ou desaparece. Um bom exemplo foi minha última incursão pelas óticas, onde descobri que um par de lentes — não do par de óculos completo! — podia custar mais caro que um laptop.

Já imaginou no que daria para transformar este país se o governo decidisse investir pesado em pesquisa e tecnologia?



domingo, 13 de dezembro de 2009

Qual é a tua obra?


À primeira vista, a pergunta assusta. Afinal, poucos se questionam ao ponto de possuir a resposta na ponta da língua. O mais comum é não refletirmos sobre o assunto e seguir sempre velozes pelas batalhas do cotidiano. A dúvida, porém, permanece e acaba por assumir outras formas como aquela ansiedade ou angústia sem explicação aparente. Vale a pena? Para que tudo isso?

"Qual é a tua obra: inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética" de Mário Sérgio Cortella, pretende fustigar o leitor com relação aos objetivos de sua própria existência. Com uma linguagem simples, quase como uma conversa a dois, o filósofo trata de assuntos complexos, explicando, organizando e esclarecendo uma série de conceitos filosóficos necessários para uma visão mais clara sobre a direção seguida pela vida. Além disso, as proposições relacionadas à gestão, liderança e ética abordadas no livro são úteis, não só para quem exerce cargos de liderança nas corporações, como também, para as pessoas comuns que integram qualquer comunidade.

Dentre os pontos que mais chamam a atenção está a ênfase do autor a problemas como arrogância, alteridade, sustentabilidade e relatividade ética, segundo ele, barreiras enormes para o desenvolvimento do indivíduo e da sociedade. Passagens como "Nós somos um animal tão arrogante que nem aceitamos sermos chamados de animal.", "Aliás, quem são os outros de nós mesmos? O mesmo que nós somos para os outros, ou seja, outros.", "Nós não somos proprietários [do planeta], somos usuários compartilhantes." e "Ele não admite, em casa, que a empregada doméstica se atrase um minuto, mas pouco se incomoda se ele mesmo atrasar." dão o tom de todo o texto.

A respeito do autor, Mário Sérgio Cortella é filósofo, natural de Londrina, PR, mestrado e doutorado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP, na qual, desde 1977, é professor-titular do Departamento de Teologia e Ciências da Religião e da Pós-graduação em Educação. É também professor-convidado da Fundação Dom Cabral e do Gvpec da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, FGV/SP, além de consultor e palestrante. Foi também chefe-de-gabinete do emérito Professor Paulo Freire, na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, entre 1989 e 1990, substituindo-o entre 1991 e 1992.

Mas, e você, já pensou na resposta?!

sábado, 12 de dezembro de 2009

'Brazilian', Sim Senhor!


Falar sobre uma pessoa específica não é muito meu estilo, simplesmente por não acreditar que isto seja útil. Aliás, se não estiver enganado quanto à autoria, Platão já dizia que "pessoas normais falam sobre coisas, pessoas inteligentes falam sobre ideias e pessoas mesquinhas falam sobre pessoas". Entretanto, quando as atitudes do indivíduo servem de exemplo para o mundo, torna-se muito difícil não mencioná-lo. Mesmo assim, vou fazer o possível para me ater apenas ao "exemplo", sem citar nomes.

Há uma modelo brasileira que, há algum tempo, despertou a ira de alguns ecologistas por fazer uma campanha para uma grife de peles de animais. Lógico que ela não fez nada de "errado", recebeu por um trabalho e o executou com maestria. Entretanto, uma personalidade internacional não pode estar alheia às questões internacionais em voga na atualidade, tal como é a ecologia. Basta dar uma rápida olhada na página da PeTA — "People for the Ethical Treatment of Animals" —, mostrando como as peles são extraídas de animais ainda vivos, para entender a fúria dos ecologistas ao verem a musa brasileira desfilando envolta em finas peles.

Pois bem, pode parecer piada, mas a mesma modelo foi empossada pelo Pnuma — Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente — como "embaixadora da boa vontade" no dia 20 de setembro deste ano. No dia seguinte, a Folha de São Paulo publicou, em seu caderno Ciência, o que ela disse ao ser questionada sobre qual seria sua mensagem ao presidente Lula após as críticas de Ban Ki-Moon, secretário geral da ONU, sobre o desmatamento na Amazônia brasileira. Abaixo, segue transcrito o que ela, segundo o jornal, respondeu:

"Falo com a boca cheia que sou brasileira porque a gente tem todos os 'natural resources' [recursos naturais] que muitos outros países estão aí 'struggling' [se esforçando]. A gente tem e está desmatando nosso bem mais precioso. Acho que ele [Lula] tem de fazer leis. Não pode desmatar; demora 30 anos para uma árvore crescer."

E que cada um que tire suas próprias conclusões...



sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O Xadrez e o Samba


Sob um olhar nada humano, pode-se dizer que não existem coisas boas ou más, certas ou erradas, alegres ou tristes e assim por diante. Há apenas ação e reação, acontecimento e consequências, fenômeno e efeitos... Todos os adjetivos que usamos advêm de julgamentos gerados por nosso próprio discernimento, às vezes tão instantaneamente que sequer percebemos o processo. Por isso é tão comum classificarmos qualquer fato como certo ou errado, bom ou mau, etc.

Mas imagine, por exemplo, uma pedra caindo. Imaginou? Pois bem, isto é bom ou ruim? Depende, não é mesmo? Se a pedra for grande e você estiver embaixo, isto pode ser algo bem ruim. Ao contrário, se a pedra for pequena e possuir um diamante incrustado, talvez você ache isso muito bom. Por mais estranho que possa parecer, o mérito sempre dependerá de suas expectativas com relação ao fato e não deste, especificamente. Um outro exemplo, poderia ser o de um veículo furtado. A consideração sobre isto ser péssimo ou ótimo vai depender das intenções de seu proprietário — querer continuar com o carro ou, eventualmente, receber o dinheiro da seguradora.

Disso, conclui-se que as emoções humanas acabam por se relacionarem muito mais com nossos julgamentos do que com os fatos propriamente ditos. Geralmente, as pessoas ficam felizes, quando ocorre algo que consideram bom, e tristes, quando se passa o contrário. Mas o fato, em si, não é nem bom, nem mau. É apenas um fato, neutro, se preferir. Sendo assim, é possível, portanto, alterar nosso julgamento a respeito desses fatos e, consequentemente, mudar também as emoções deles originadas. Há, se não me engano, até um neologismo pomposo para esse processo: ressignificação — e caso discorde do emprego do termo neste caso, fique à vontade para comentar.

Dar um novo significado para determinados acontecimentos pode ajudar a controlar sentimentos que, em excesso, atrapalham. A tristeza, por exemplo, apesar de útil, por nos remeter a uma introspecção necessária ao aprendizado, quando excessiva, paralisa, acabando com o entusiasmo, a disposição e o prazer para realizar as ações necessárias à conquista do futuro desejado. Afinal, sofrer com acontecimentos passados é tão produtivo quanto, durante uma partida de xadrez, preocupar-se com o lance que o levou a perder uma peça importante — como a rainha, por exemplo. Sem a "frieza" suficiente para reformular a estratégia a partir daquele ponto, o jogo certamente será abreviado, já que o "mau" lance não mais poderá ser revertido.

Mas, como nos lembra o poeta, nenhum sentimento é vão se direcionado para a coisa "certa"...

Samba da Benção
Vinicius de Moraes / Baden Powell

"É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração"


quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Que Vergonha!


Desculpe-me, mas estou extremamente envergonhado por compartilhar da mesma espécie — humana — que a dos membros do pelotão de choque da Polícia Militar do Distrito Federal. Para quem não viu, nesta quarta-feira, 09/12/2009, a cavalaria do pelotão de choque da Polícia Militar do Distrito Federal avançou sobre um grupo de manifestantes, trabalhadores e estudantes, em frente do Palácio do Buriti, sede do governo distrital e do — admire-se! — Tribunal de Justiça. Absolutamente aparelhados com capacetes, botas, coletes, escudos, cacetetes, bombas de efeito moral, armas com balas de borracha, sprays pimenta, helicóptero e cavalos — tudo pago com dinheiro público — os homens da guarda estadual partiram para cima da multidão desarmada e, como se diz por aí, sentaram a borracha na galera!

De tanta vergonha, vou me abster dos detalhes. Há ampla cobertura jornalística muitas fotos e vídeos disponíveis no UOL, no G1, no R7, no Último Segundo, no Estadão ou no portal de notícias de sua preferência. Mas o fato é que a polícia, subordinada ao governador José Roberto Arruda (DEM), negou qualquer excesso contra os cidadãos ali presentes.

Ao ver os cavalos montados, digo, homens montados avançando com os cavalos sobre pessoas deitadas no chão, assumindo o risco de matá-las ao pisoteá-las com os animais, lembrei-me do massacre da Praça da Paz Celestial na China, ocorrido em 4 de junho de 1989. Quem não se lembra do jovem na frente de uma coluna de tanques de guerra, impedindo-os de seguir adiante? Lá, sob o comando ditatorial chinês, o soldado que dirigia o tanque tinha permissão para passar por cima do manifestante, mas não o fez. A cena no Distrito Federal, foi bastante similar, só que com cavalos, que não pararam, e sob a batuta de um regime democrático.

Tal como afirmou o chefe do Comando de Policiamento da Polícia Militar, coronel Luiz Henrique Fonseca, não houve qualquer excesso por parte da polícia. Quem viu as imagens pela televisão, deve ter notado que os tiros disparados no chão à frente dos repórteres e os jatos de spray pimenta em direção aos olhos deles, não tinham qualquer intenção de intimidar a imprensa ou impedir que as cenas fossem registradas para a posteridade. Afinal, qual seria o problema em gravar cenas nas quais não se evidenciaria qualquer sinal de excesso?

Não que eu também não sinta vergonha quando um torcedor invade o campo e agride alguém ou quando um grupo prejudica a liberdade de ir e vir de tantas outras pessoas, mas ao ver um pelotão de choque, supostamente,  com pessoas treinadas e pagas com dinheiro público, agredindo desmedidamente cidadãos desarmados que protestavam contra a corrupção, minha vergonha não cabe em mim. E quando o povo se tocar do poder que possui e também se revoltar desmedidamente, que ninguém o acuse de excessos.

Meu Deus, que vergonha...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Que Viagem!


Ontem, começaria uma bateria de testes com a SpaceShipTwo, nave comercial da Virgin Atlantic Airways que, em breve, levará intrépidos passageiros para experimentarem a gravidade zero no espaço. O projeto foi orçado em US$ 450 milhões e objetiva disponibilizar o acesso a viagens espaciais, já em 2011 ou 2012, a qualquer pessoa disposta a desembolsar US$ 200 mil, incluídos três dias de treinamento — segundo o Portal de Notícias G1, trezentos candidatos já realizaram o depósito para fazer o passeio. Há planos, também, para fornecer serviços de viagens suborbitais entre destinos longínquos do planeta, reduzindo drasticamente o tempo atual do percurso, transportar cientistas e materiais para pesquisa e fornecer uma plataforma remota para o lançamento de pequenas cargas no espaço.

Já dá para imaginar, daqui alguns anos, os relatos sobre as férias passadas no espaço, as fotos do planeta Terra tiradas pelo celular, os executivos incomodados com a demora de duas horas para chegar ao outro lado do mundo, os programas de milhas espaciais, as previsões das tempestades solares na TV, filmagens das brincadeiras na gravidade zero, etc. Com exceção do desenvolvimento tecnológico, não será nada muito diferente do que já pode ser visto hoje por aqui.

No livro "Qual é a tua obra?" de Mário Sérgio Cortella — que estou finalizando e sobre o qual devo escrever em breve —, há uma passagem na qual o autor relata a visita de dois caciques da nação Xavante na São Paulo de 1974. Conta que depois deles ficarem boquiabertos com a Avenida Paulista, o Metrô e os shoppings, foram levados ao Mercado Municipal. Lá, ficaram ainda mais espantados ao ver as enormes pilhas de alimento — que, para os indígenas, era o mesmo que "ouro" para nós. Um dos xavantes viu um garoto recolhendo alguns restos de comida do chão e, sem entender, perguntou a um dos guias o que aquela criança fazia ali, obtendo o "óbvio" como resposta: que ele estava pegando comida. Mais confuso ainda, o cacique questionou o porquê dele pegar comida estragada do chão com tanta comida boa ali disponível, no que lhe responderam que era porque a criança não tinha dinheiro para comprá-la. Ainda sem entender, o índio insistiu e perguntou se o pai da criança não tinha dinheiro, ao que, também, foi-lhe respondido que não. O xavante, então, quis saber por que ele, o guia, que era grande, tinha dinheiro e o pai da criança, que também era grande, não tinha e emendou: "De qual pilha você come, dessa daqui ou a do chão?". E, ao ouvirem a resposta, os xavantes, horrorizados, pediram para ir embora dali imediatamente...

Mas mais de trinta anos depois, muita coisa mudou! A pergunta, hoje, que não quer calar, é se haverá, ou não, serviço de bordo para os viajantes do espaço.



terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Cooptação Ambiental.


E por falar em ética, ontem começou a COP-15, o evento em Copenhague, capital da Dinamarca, patrocinado pelas Nações Unidas e que pretende reunir todos os chefes de Estado para chegarem a um consenso sobre as medidas necessárias ao controle das alterações climáticas, causadas pelo homem, na Terra. Em meio a ladainha político-financeira interminável, países se acusam e se justificam, mutuamente, como se tal atitude fosse contribuir com algo útil. Dá para dizer, inclusive, mesmo não sendo psiquiatra, que as sociedades, de modo geral, estão tendendo, seriamente, à esquizofrenia. Ou — fato igualmente provável —, ninguém está entendendo ao certo o que está sendo discutido nesses foros.

Os países pobres acusam os países ricos de terem devastado suas áreas florestais em prol de seus próprios desenvolvimentos econômicos — o que é absolutamente verdade — e de tentarem impedir, agora, que os demais façam o mesmo. Suponha que seja exatamente assim e que os países ricos não queiram mesmo mover uma única palha para ajudar ninguém. Ora, é apenas impressão ou os países em desenvolvimento estariam considerando a hipótese de continuar destruindo seus biomas para não atrapalhar seus próprios desenvolvimentos, trilhando o mesmo caminho de seus criticados primos ricos?

Mais, praticamente todos os países criticam o EUA de Obama — que, façamos justiça, ao contrário do governo Bush, pelo menos se dignou a dialogar — por não se comprometer com metas agressivas para reduzir o lançamento de gás carbônico na atmosfera terrestre, alegando que isto poderia prejudicar sua recuperação pós-crise. Oras, perguntar não ofende: os Estados Unidos da América vendem para quem? Por que, ao invés de continuar criticando e comprando, não interrompem ambas as coisas simplesmente?

O tema ambiental não é uma dialética entre natureza e desenvolvimento, senão uma necessidade primordialmente humana, já que a Terra continuará existindo com ou sem a gente por aqui. Não é uma questão financeira tampouco. O governo paulista, por exemplo, gastou milhões de reais durante anos para conter as cheias do Rio Tietê. De ontem para hoje, muito antes das águas típicas do verão, choveu mais de treze horas sem parar e, adivinha: o Tietê deixou as zonas norte e oeste debaixo d'água, inclusive a maior central de abastecimento do estado, a CEAGESP. Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, dezenas de cidades estão em situação bem pior. E, em algumas regiões amazônicas, a estiagem matou milhares de peixes, deixando rios e população ribeirinha em estado de penúria. Qual é o prejuízo que já se verifica devido às alterações climáticas hoje?

Isso tudo sem mencionar que, pelo fato de pensarmos, de possuirmos consciência e discernimento, a busca pelo equilíbrio, pela sustentabilidade e preservação da própria espécie deveria ser o caminho mais natural e não o mais difícil. Imagine se, após o acidente com o voo AF 447 da Air France, as autoridades fossem pensar sobre a viabilidade da operação de resgate. Não. Mesmo já sem esperanças de se encontrar algum sobrevivente, o Brasil gastou milhões de reais durante semanas, sem questionar, em momento algum, se o dinheiro faria falta no orçamento. Simplesmente porque há coisas que não se medem financeiramente. Se a Terra está a beira de um colapso, como dizem os ecologistas, ou se há boas chances para isso, como dizem os cientistas, um mínimo de bom senso seria esperar que as civilizações se acautelassem, buscando uma solução comum, algo a ser feito em conjunto, e não que apenas discutissem sobre as implicações econômico-financeiras do problema. Afinal, sem um planeta são, não haverá economia viável.

Mas a despeito de tudo isso, não é curioso que os dinossauros, ditos irracionais, tenham dominado o planeta por cerca de 110 milhões de anos e o homo sapiens, dito racional, não se preocupe em ameaçar seu domínio em pouco mais de 40 mil?



segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Cadê a ética que estava aqui?


Neste último final de semana, aconteceu a prova do ENEM. Lembra?! Aquela prova que foi adiada depois que uns gaiatos resolveram fazer um pé-de-meia vendendo as questões... Se não se lembra, pode dar uma olhadinha em "E... Nem...", quando escrevi algo sobre o episódio.

Curiosamente, não sei se de propósito ou não, o tema da redação foi: "O indivíduo frente à ética nacional". Achei que daria um ótimo tema para uma postagem por aqui também, assim, preparem-se! Só espero que nenhuma das professoras de redação me corrija...

Ética é algo que só o ser humano possui. Animais não possuem ética. Plantas não possuem ética. Virus e bactérias não possuem ética. São aéticos, ou anéticos. Não porque sejam vis, ou algo assim, mas, simplesmente, por não apresentarem a mesma capacidade de julgar e decidir que os homens e as mulheres possuem. À exceção destes que leem, todos os demais seres vivos no planeta Terra agem apenas por instinto — pelo menos a priori.

É justamente o discernimento que nos faz humanos e, com base nele, relacionamo-nos. A ética surge daí, de um conjunto de princípios em que o indivíduo se baseia para decidir sobre sua própria conduta e, assim, bem conviver com seus pares. As leis, códigos e preceitos apenas mostram o caminho de uma ética comum adotada por um povo ou um determinado grupo de pessoas, não sendo, porém, imanentes à ética. Isto significa que é o indivíduo quem deve moldar sua ética para que possa pertencer a uma determinada coletividade. Como exemplo disso, pode-se citar, talvez, a ética dos criminosos nos presídios.

Portanto, parodiando um conhecido adágio — mas mudando a parte do corpo humano para não ser deselegante —, "ética é como cabeça, todo mundo tem uma". A dificuldade está em fazer convergir várias éticas para uma ética comum, visto que esse movimento só pode partir do indivíduo e de ninguém mais.

Ao contrário de uma "lei" física que impõe uma impossibilidade — como a de dois corpos não poderem coexistir no mesmo lugar do espaço —, as leis humanas servem apenas para "orientar" as pessoas na busca por sua própria ética, alinhando-a à ética vigente na sociedade. Segundo as leis brasileiras, por exemplo, o roubo é punido com alguns anos de cadeia, mas, a depender das condições, da interpretação do magistrado e até da ausência do ladrão, pode ser que nada aconteça. Somente o indivíduo possui o verdadeiro poder sobre suas próprias ações, o resto é contingência.

Sendo assim, talvez a conduta ética comum devesse ser incluída como disciplina obrigatória já na pré-escola, para que o indivíduo tivesse claro, o quanto antes, que, ao longo de toda sua vida, a privação de alguns desejos seus será necessária para o bem de si e de seus semelhantes. Kant já explicitava essa idéia quando escrevia que as pessoas deveriam sempre avaliar se uma dada ação poderia, ou não, ser convertida em universal, ou seja, se todos os outros também poderiam agir da mesma forma. A negativa ao questionamento era sinal de que a ação fugiria a uma ética comum aos seres humanos. Analogamente, Mário Sérgio Cortella, um filósofo brasileiro, sugere, também, perguntar-se, antes de agir, se quer, pode e deve, não levando a cabo a ação se qualquer das respostas for negativa. Além disso, alerta que não possuir dilemas éticos é um indício de que algo vai mal.

Depreende-se de tudo isso que é, principalmente, com respeito e os bons exemplos de cada um que a ética nacional deverá mudar, acabando com ladrões de prova, guardadores de dinheiro em roupas íntimas, fraudadores de imposto de renda e estacionários jovens das vagas para idosos. A solução reside no íntimo individual de cada cidadão, ou cidadã, e não nas leis, na indignação inerte ou no "apontar de dedos". Porque, adaptando o que diz Calligaris em seu texto na proposta de redação, indignar-se só com os outros e com o mundo, "serve apenas para 'confirmar' a 'integridade' de quem se indigna", mas não contribui com a ética de seu povo.



domingo, 6 de dezembro de 2009

Para Entender a Vida...


Ontem, passando pelos canais de televisão, acabei pegando o pedacinho final de um documentário, na TV Cultura, sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade. Lembrei-me de um livro dele que li, ainda pequeno, chamado A Rosa do Povo. Mas, confesso que, à época, não me emocionei muito, certamente por não entender muito bem sua poesia. Não me refiro, porém, ao entendimento "técnico" de seu texto, mas ao universo contextual de sua obra.

É um padrão, aliás, na vida dos seres humanos: não entender e, consequentemente, não gostar. Acostumamo-nos a não gostar de algo quando não o entendemos. E um exemplo típico é quando nos dizem algo de que não gostamos. Não gostamos porque não entendemos. Ora, se alguém nos critíca é porque, no mínimo, nossa presença não é indiferente à outra pessoa. Já ouviu falar naquele ditado: "O ódio está mais próximo do amor do que a indiferença."? Então, se você não se importa com o outro, jamais se preocupará em dizer qualquer coisa a ele ou a ela. Ao contrário, apenas quando se preocupa, tenta ajudar, mesmo que precise dizer algo mais contundente. Este costuma ser o papel dos verdadeiros amigos...

Entretanto, normalmente, quando alguém nos diz algo que nos desagrada, ao invés de tentarmos entender o que está sendo dito, simplesmente não gostamos. No meu caso, talvez tenha sido mais ou menos isso o que ocorreu com o gosto pela poesia moderna. Foi, ao longo do tempo, uma companheira, mas nunca uma paixão.

Os anos se passaram, a alma acumulou bagagem e uma certa argúcia na compreensão das coisas acabou se consolidando. Portanto, como já me foi dito, Drummond é um dos que deverão ser relidos brevemente. Sua poesia, além de bela, carrega na essência uma sabedoria pragmática de sua própria vida, entendida apenas por espíritos dispostos a compreender sua metafísica poética. Se não, serão apenas algumas das melhores poesias modernas da literatura brasileira. Nada mais.


Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.


Carlos Drummond de Andrade

sábado, 5 de dezembro de 2009

Nan'outro Mundo


A nanotecnologia é a ciência que estuda o controle da matéria em escalas atômica e molecular. O nome deriva da justaposição de "nano", do grego "nânos" que significa anão, e "tecnologia", que trata do domínio de uma dada atividade humana. As dimensões envolvidas são de nanometros, ou seja, um metro multiplicado por dez elevado à nona potência negativa. Para quem não está muito acostumado com a notação científica dos números, significa dizer que o nanometro equivale a um metro dividido em um bilhão de partes.

Para se ter uma ideia mais clara do que estamos falando, digamos que, se escritos com "nano-letras", todos os volumes da Enciclopédia Britânica caberiam na cabeça de um alfinete. Ou, como base de comparação, poderia dizer que a espessura média de um fio de cabelo humano mede cerca de 80 mil nanometros. Deu para perceber que as dimensões são muito pequenas, mesmo, não?

Apesar de ter ganhado destaque mais na última década, a nanotecnologia não é algo, assim, tão recente. Em meados do século passado já se falava em manipulação nanoestrutural. Entretanto, só com o desenvolvimento das técnicas de microscopia eletrônica, é que ficou mais fácil estudar o funcionamento e os efeitos dos processos envolvidos na fabricação das nanoestruturas.

A aplicação mais famosa é a dos processadores de computador que, por incrível que pareça, não mudaram a forma como processam as informações desde o advento do ENIAC — do inglês "Electronic Numerical Integrator And Computer", o primeiro computador que se tem notícia. Funciona do mesmo jeito até hoje: transistores ligam e desligam, codificando a linguagem binária, 0 ou 1. A diferença é que no pequeno processador do seu micro existem quase um bilhão de "nano-transistores", ligando e desligando a uma frequência de centenas de bilhões de vezes por segundo. Atualmente, a área ocupada por dois milhões desses "nano-transistores" não ocupariam, talvez, a área de um único "pixel" dessa sua tela.

Há uma série de outras aplicações para a nanotecnologia em diversas áreas do conhecimento humano, tais como engenharia, medicina, eletrônica, geração de energia, biologia, etc. Pode ser aplicada, por exemplo, em componentes do motor de um carro ou na biocompatibilidade de um implante. A manipulação nanoestrutural pode, não só otimizar custos, como também viabilizar a existência de determinados componentes, permitindo a associação de propriedades, por vezes antagônicas.

Fazendo uma analogia simples, suponha que se deseje escolher um portão para sua garagem. Um bom portão seria aquele que não oxidasse facilmente, afinal, ninguém quer ficar trocando o portão todo ano. Ao invés de escolher algum de aço inoxidável ou de alumínio, cujo preço final, para muitos, seria proibitivo, escolhe-se um portão de aço comum, recobrindo-o com um verniz protetor e uma boa tinta para que não enferruje facilmente. Pode-se fazer o mesmo com um recobrimento de espessura nanométrica, conferindo a uma peça de material comum, de mais baixo custo, propriedades nobres como resistência ao desgaste, à corrosão, à cavitação, maior ou menor coeficiente de atrito, condutividade térmica, elétrica, etc.

Mas além de todas estas utilidades, há também quem faça arte com a nanotecnologia. Um grupo de pesquisadores ligados ao Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC) e ao Instituto Nacional de Ciência dos Materiais em Nanotecnologia (INCTMN), ambos apoiados pela FAPESP, escolheram várias fotos de nanoestruturas, colorindo-as por computador¹, para compor uma exposição para lá de inusitada. Quem gosta de ciência e/ou arte, pode visitar a página da Nanoarte e se encantar com as várias imagens disponíveis. Só pecaram em não deixar um texto explicativo do que seria cada uma das estruturas...

As imagens nanométricas acabam por funcionar como uma janela para outro mundo, completamente diferente do nosso, mas que, apesar de não podermos vê-lo facilmente, está bem junto de nós o tempo todo.




¹ As imagens microscópicas só podem ser obtidas em escala de cinzas porque a fonte de iluminação é um feixe de elétrons. Isto se deve ao fato da luz visível não poder ser usada para iluminação em escalas muito pequenas, haja vista que a faixa dos comprimentos de onda, responsável pela sensação de cor, acaba possuindo a mesma ordem de grandeza, ou até maiores, que a estrutura a ser observada.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Tem alguém aí?!


No ano passado, segundo a revista Science News, dois grupos de astrônomos deram notícia, independentemente, das primeiras imagens de planetas extrassolares. E em pouco mais de uma década de estudos, já houve relatos de centenas deles. Segundo Marcelo Gleiser, isto tem grandes implicações no número de planetas estimado pelos cientistas, podendo chegar a mais de trezentos trilhões só em nossa galáxia.

Além disso, sabia-se que os primeiros sinais de vida na Terra datavam de 3,8 bilhões de anos atrás, mas parece haver indícios de atividade biológica cerca de 400 milhões de anos antes, ou seja, em um ambiente muito mais hostil do que imaginado anteriormente. Ao analisar microcristais de diamante, presentes em um cristal de zircão datado de 4,2 bilhões de anos, cientistas constataram um desbalanceamento — maior quantidade de isótopos 12 — na relação de isótopos 12 e 13 de carbono, indicando a possível existência de microorganismos já naquele período.

Se devidamente confirmadas, as notícias aumentam muito a probabilidade de existir outros astros comportando vida além da Terra. Claro que isto não significa, necessariamente, que a vida em questão seja inteligente, mas as chances disso acontecer também aumentariam bastante.

O SETI Institute (sigla do inglês para "Search for Extraterrestrial Intelligence Institute", significando, em português, algo como "Instituto de Busca por Inteligência Extraterrestre") há quase 25 anos busca por sinais eletromagnéticos — basicamente ondas de rádio — produzidos por seres inteligentes. A tarefa é árdua, já que, além  das antenas terem de apontar diretamente para a fonte emissora e sintonizar o sinal dentro de um espectro infinito de frequências, ainda deverão vasculhar cada sinal detectado em busca de um padrão que indique algum tipo de comunicação inteligente. Inclusive, se você quiser contribuir, pode doar o processamento ocioso de seu computador para o projeto SETI@Home da Universidade da Califórnia.

Mas o mais interessante é concluir que, caso exista mesmo uma civilização extraterrestre, dificilmente estarão em um grau de desenvolvimento similar ao nosso — ou muito inferior, como em nossa Idade da Pedra, ou tão superior que mal conseguiremos imaginar. Se nós, em pouco mais de um século, conseguimos sair de carroças para módulos lunares, o que aconteceria com uma diferença evolutiva de alguns instantes cósmicos, digamos, uns dez mil anos? E teriam eles modelos lógico-matemáticos como os nossos? Comunicar-se-iam através de linguagem escrita, sonora, telepática? Intrigante...

Se os extraterrestres existem mesmo, ou não, ainda não sabemos. Mas não é perturbador pensar que Deus — ou o acaso, como crêem alguns — teria nos criado, únicos e solitários, em um minúsculo ponto do universo?



quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Absurdos da Lógica Humana...


Conversando com um cientista da computação, fiquei sabendo que um dos grandes entraves em se aumentar a segurança do sistema operacional Windows é o fato de seus usuários, geralmente, trabalharem com privilégios de administrador. Afinal, quem aí, no seu próprio computador, criou um outro usuário mais restrito para usá-lo no dia-a-dia? Sem privilégios de administração, um programa malicioso, ou virus, na maioria das vezes, não consegue infectar a máquina. Assim, tentando resolver o problema, a Microsoft lançou o Windows Vista configurado, por padrão, de forma a solicitar do usuário uma confirmação, toda vez que um programa tentasse acessar algo, necessitando desses privilégios. Resultado: além do fiasco comercial — a robustez do programa o deixava "pesado" demais —, os usuários acabavam desabilitando a tal confirmação, uma vez que ficava inviável trabalhar tendo de interferir a cada operação que um programa precisasse fazer.

Analogamente, ficaríamos loucos se tivéssemos que checar a veracidade, ou autenticidade, de cada informação recebida a todo momento. Aliás, pode-se dizer que, nos dias de hoje, isto é humanamente impossível, dado o volume de informação a que, frequentemente, temos acesso.

Ao ler uma notícia¹ do tipo: "Estudos indicam que o consumo excessivo de lanches rápidos — como hambúrguer, fritas e refrigerante — prejudicam o desempenho escolar.", qualquer um acaba tendo de usar seus próprios critérios para levar, ou não, a informação a sério. Dependendo, talvez, da credibilidade da agência de notícia ou da coerência, segundo seus prévios conhecimentos sobre o assunto, você decidirá se vai acreditar, ou não, no fato comunicado. A não ser que você seja absolutamente neurótico, ou neurótica, raramente irá atrás das referências para confirmar a veracidade de cada nova informação recebida — uma ou outra, talvez, dependendo do seu interesse e/ou ceticismo na ocasião. E mesmo que se dispusesse a fazer isto, é quase certo que não poderia repetir o experimento, por si mesmo, para ter certeza sobre os resultados fornecidos. Portanto, acreditamos na informação, ou nas "evidências" dela, tal como um umbandista acredita na Pombajira — claro, baseados em coisas diferentes, mas exatamente da mesma forma e com a mesma validade!

Não bastasse essa incerteza desesperadora a respeito de fatos fora de nosso alcance, ainda há a imprecisão inerente à própria informação, principalmente no que se refere aos seres humanos. Tomemos, como exemplo, algo terrível como o câncer. Você é a favor do câncer? Não, acho que não... Eu também não. Creio que todos sejam contra a doença! Mas, digamos que, hipotética, porém, conservativamente, apenas 95% das pessoas no Brasil sejam, declaradamente, contra o câncer. Muito bem... Agora, responda, dentre seus conhecidos, qual é o percentual deles que adota hábitos saudáveis e faz um acompanhamento periódico para, na eventualidade da doença surgir, poder tratá-la logo no início? Será que, pelo menos, o percentual de fumantes que você conhece é menor que 5%?

E pensar que nos consideramos seres lógicos... Que dr. Spock não nos ouça!


¹ Aparentemente, a informação confere. Veja em: My Overweight Child e no Medical Center's Weekly Newspaper da Vanderbilt University, Nashville, TN, EUA.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Procrastinação


Por acaso você se lembra de alguma decisão que tenha deixado para tomar depois? Ou mesmo de uma tarefa que, apesar de essencial, tenha sido adiada por muito tempo? A esta atitude é dado o nome de procrastinação. A palavra vem do latim (pro = à frente; crastinus = de amanhã) e se refere ao adiamento de uma ação necessária.

Há quem procrastine de forma crônica, deixando tudo para depois — ou para última hora —, desde as decisões mais complexas até as tarefas mais simples de seu cotidiano. O resultado é previsível: caos, fracasso, estagnação, angústia, etc.

A procrastinação é, erroneamente, associada à preguiça, estando muito mais relacionada à uma espécie de fuga da realidade do que àquele pecado capital. Não tomar uma decisão, por exemplo, é uma tentativa inconsciente de evitar assumir a responsabilidade pelos fatos dela decorrentes. Da mesma forma, ao não realizar uma determinada tarefa, o indivíduo se permite continuar na eterna ilusão de que, se realmente quisesse, teria sido capaz de realizá-la da forma e no tempo que desejasse.

Em geral, o procrastinador, ou procrastinadora, sofre bastante com os resultados de sua protelação, já que, sem as ações necessárias, os resultados desejados nunca aparecem. Isto não significa, obviamente, que a pessoa seja masoquista, apenas que, psicologicamente, ainda é mais fácil aceitar o insucesso causado por fatores externos do que pelas próprias limitações. Afinal, a realização de algo implica, necessariamente, na constatação dos fatos gerados pela ação, o que não ocorre no mundo-das-hipóteses.

Tome, como exemplo, um estudante que acredita ser mais inteligente do que a média. Ora, neste caso, fazendo menos esforço que os demais, suas notas devem ficar acima da média. O fato disto não acontecer é, entretanto, uma evidência clara de que ele não é tão inteligente quanto se achava. Logo, a fim de evitar tal constatação, adota uma atitude relapsa e, quando chegam as notas baixas, ou apenas na média, justifica-as como fruto de sua negligência (extrínseca), nunca de sua capacidade (intrínseca). Assim, para si mesmo, continua sendo mais inteligente que a média, pois, se tivesse adotado uma atitude mais diligentes, os resultados teriam sido muito melhores.

Apesar de extremamente difícil, a solução do problema é, relativamente, simples. Bastaria a mera "calibração" da auto-imagem com a realidade — ou resultados obtidos. Isto, entretanto, demanda um nível de humildade que muito poucos seres humanos manifestam. Nós, meros mortais, temos de nos contentar em aplicar pequenos macetes para contornar o problema, tal como reduzir o que deve ser feito a uma série de tarefas tão curtas que se tornem, racionalmente, impossíveis de não serem concluídas em tempo hábil e completá-las, quanto antes, mesmo que isto seja conduzido mecanicamente no início.

Por fim, apesar de tantas outras coisas que poderiam ser ditas com relação a este tópico, é importante, também, não mais procrastinar o término desta postagem. Não acha?!



terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Dia Mundial de Luta Contra a AIDS


Em outubro de 1987, durante a Assembleia Mundial de Saúde e com apoio da Organização das Nações Unidas (ONU), foi instituído, em 1º de dezembro, o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS. A data foi criada com o objetivo de relembrar o combate à doença e despertar nas pessoas a consciência para, não só se previnirem, mas também, compreenderem melhor a síndrome, diminuindo o preconceito e a exclusão dos soropositivos.

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, AIDS (acrônimo do inglês "Acquired Immune Deficiency Syndrome"), é causada pelo Vírus da Imunodeficiência Humana, HIV (sigla do inglês "Human Immunedeficiency Virus"), que se utiliza dos linfócitos — principais células responsáveis pela defesa do organismo — para se multiplicarem, destruindo-os. Sem os linfócitos, o organismo fica inapto para se defender de uma eventual invasão de bactérias, protozoários, vírus, etc., transformando qualquer enfermidade em uma doença potencialmente letal.

Nos primeiros anos após a descoberta da AIDS, o simples diagnóstico da doença era, praticamente, uma sentença de morte. Atualmente, apesar da doença ainda permanecer sem cura definitiva (leia algo sobre recentes estudos para a criação de uma vacina em: Patenteando a Ética), tratamentos adequados permitem aos infectados pelo HIV levar uma vida quase normal. Estas pessoas, entretanto, frequentemente sofrem com o preconceito de alguns que, por absoluto desconhecimento, receiam serem contaminados através de meros contatos sociais.

Pois é justamente sobre o preconceito que o tema do Dia Mundial de Luta Contra a AIDS versa, este ano, no Brasil. A doença é transmissível APENAS se houver compartilhamento de sangue ou fluidos sexuais com alguém infectado. Ou seja, a contaminação só ocorre pela transfusão de sangue contaminado, no compartilhamento, com um soropositivo, de agulhas, seringas e/ou objetos perfurocortantes, ou durante as relações sexuais (oral, anal ou vaginal) mantidas SEM preservativo com um portador, ou portadora, do HIV. Além disso, a mãe soropositiva pode contaminar a criança durante a gestação, parto ou amamentação. No entanto, há tratamentos que, realizados no tempo adequado, diminuem muito esta possibilidade de contágio.

O HIV NÃO é passado pelo ar, abraço, aperto de mãos, beijo (no rosto ou na boca), sexo com uso adequado do preservativo, masturbação a dois, contato com suor ou lágrima, picada de inseto, compartilhamento de talheres, copos, assentos do transporte público, piscinas, banheiros, sabonetes, toalhas, lençóis ou durante a doação de sangue. Portanto, qualquer preconceito envolvendo o portador do vírus da AIDS é, absolutamente, injustificável. Aliás, todo tipo de preconceito é, a priori, condenável.

Portanto, como diz o slogan da campanha, “Viver com AIDS é possível. Com o preconceito não”.